Amizade é Poesia

Amizade é Poesia

Friendship is Poetry

Amizade é Poesia

Amizade é Poesia

Friendship is Poetry

Via Sacra

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Lá, onde o vento sopra suave e sereno

Lá, onde minha voz ecoa sem medo

E a tua enche o meu peito de coragem

E as ondas são tranquilas e as águas são mornas

E as pessoas são ternas e aprenderam a amar.

 

É o lugar que eu busco, é o sorriso que sonho

São mãos que se encontram, se seguram, se apoiam umas nas outras

E o cheiro do orvalho matutino e das ruas molhadas de chuva

Me deixam com uma alegria simples e discreta

Uma paz sem igual

 

Nascemos entre o calor e o frio

Quando nossos olhos se abrem, o que nos espera?

Se a vida me aceitou, o existir me basta!

Encontrarei quem me ofereça o dom da presença

Morarei amparado pela fé.

 

Meus olhos não se contém, a beleza tem nome e tem voz

A face que agora contemplo, já sonhei com ela alguma vez.

Bem cedo, ao amanhecer, não precisei abrir a janela.

A luz já estava dentro de mim.

Mas naquele instante eu começava a habitar plenamente nela.

 

Lá, onde repouso e deixo-me contagiar

Com tudo o que é sagrado e puro.

Lá, onde a dor não possui nem mais memória.

E a plenitude da beleza envolve os meus instantes de eternidade.

Décima quinta estação da humanidade.

 

 

Em memória de um jovem de 23 anos, violentado e assassinado em Roma na manhã de 4 de março de 2016.

Via Crucis

by Bruno Franguelli,sj
 

 

Là, dove il vento soffia morbido e sereno

Là, dove la mia voce riecheggia senza paura

E il tuo coraggio riempe il mio petto

E le onde sono calme e l'acqua è calda

E le persone tenere che hanno imparato ad amare.

 

È il luogo che cerco, è il sorriso che sogno.

Sono mani che si incontrano, per contenersi, per sostenersi a vicenda

E l'odore della rugiada del mattino e le strade bagnate di pioggia

Mi portano una gioia semplice e discreta,

Una pace unica.

 

Nati tra il caldo e il freddo

Quando i nostri occhi si aprono per la prima volta, cosa ci aspetta?

Se la vita mi ha voluto bene, l’esistere già mi basta!

Troverò chi mi offra il dono della presenza.

Io abiterò sostenuto dalla fede.

 

I miei occhi non si contengono, la bellezza ha un nome ed ha una voce.

La faccia che ora guardo, l’ho vista una volta in sogno.

La mattina presto, non ho avuto bisogno di aprire la finestra.

La luce era già dentro di me, abitava il mio corpo.

Ma ora ho iniziato ad abitare pienamente in essa.

 

Là, dove io riposo e mi lascio stupire con tutto

Con tutto ciò che è santo e la gioia è senza fine.

Là, dove non ha più memoria del dolore

E la pienezza della bellezza circonda i miei momenti di eternità

Decima quinta stagione dell'umanità.

 

 

In memoria di un ragazzo 23 enne, violentato e usciso a Roma all’alba di 4 marzo 2016.

The refugee God

by Bruno Franguelli, sj

(Based in Mt 2: 13-15)

 

Today I saw God being carried by tired backs.

Tired bodies supported Him.

They were treading through the dry ground that

Nurtured the beads of sweat falling.

And God came crying of hungry and pain.

 

 

He was not surrounded by angels, but by mosquitos.

I observed his race and the color of his eyes.

They were not the same as mine.

He was different from me.

He needed, I wanted.

He was surviving, I…

 

 

God had his feet dirty with a cruel reality.

His body was injured and vulnerable

Cried help and screamed in silence.

It was a moment of escape from premature death.

 

 

Protected by two poor youth

The refugee God was redeeming the hard reality of who lives no where,

But remains carrying in their tired backs

The same hope of that two poor youth

Who protected the Redemeer of the world.

 

 

Kakuma- Kenya 28/07/2015

O Deus refugiado

by Bruno Franguelli,sj

(baseado em Mt 2, 13-15)

 

Hoje vi Deus sendo carregado por costas turvas.

Corpos cansados O sustentavam.

Pisavam o chão seco que se nutria das gotas de suor que caiam.

E Deus vinha chorando de fome e de dor,

Não era rodeado de anjos, mas de mosquitos.

 

 

Observei sua pele e a cor dos seus olhos.

Não eram as mesmas feições que as minhas.

Ele era diferente de mim.

Ele necessitava, eu queria.

Ele sobrevivia, eu…

 

 

Deus tinha os pés sujos de uma realidade cruel.

Seu corpo ferido e vulnerável,

Clamava socorro e gritava em silêncio.

Era um momento de fuga da morte prematura.

 

 

Protegido por dois jovens indefesos e pobres

O Deus refugiado

Redimia a dura realidade daqueles

Que continuam carregando em seus ombros cansados

A mesma esperança daqueles dois jovens pobres

Que protegeram o Redentor do mundo.

 

 

Kakuma- Quênia 28/07/2015

"Tomai TODOS e comei!"

Bruno Franguelli, sj

 

Um dia desses me perguntaram: “Bruno, você acha que a Igreja deve dar o direito de receber a Eucaristia aos divorciados em outras uniões conjugais e a outras pessoas em outros tipos de uniões ditas irregulares?”

 

Respondi imediatamente: “Não, não se trata de conceder o direito de receber a Eucarista a alguém. Ela é um Dom gratuito de Deus e sendo assim, jamais alguém pode recebê-la por direito, por mais santo que seja!”

 

Introduziu-se estranhamente em nossas comunidades eclesiais - parafraseando ao contrário as palavras do Papa Francisco - a concepção de que a Eucaristia é “um prêmio para os bons” e não “um remédio para os fracos”. O Sacramento da Reconciliação, que nos regenera depois de cometer uma grave ação de infidelidade batismal, passou a ser acreditado por muitos como simples “permissão para comungar”. A Comunhão, ao invés de ser o Pão de todos, passou a ser um pão de alguns, considerados “devidamente preparados” e que se sentem “dígnos”,  e por isso mesmo, no direito de recebê-la. Criou-se o falso slogan: “Para que possamos receber Jesus precisamos ter a casa limpa!” E assim, ignoramos as páginas dos Evangelhos que revelam os encontros mais intensos e desconcertantes de Jesus. Teriam limpas suas casas a samaritana envolvida em tantas uniões conjugais, o centurião pagão, a adúltera e tantos outros? Acho que não!

 

Um dos principais motivos pelos quais essas atitudes rígidas e arbitrárias em relação à recepção da Eucaristia absorveu nossas comunidades é a presença de resquícios do antigo jansenismo. Deste modo, tal doutrina, muito presente entre os séculos XVII e XVIII e já condenada pela Igreja, se une à terrível perspectiva da atual sociedade de consumo, que cada vez mais concebe o ser humano como mero indivíduo submetendo-o aos seus mesquinhos interesses. Uma espiritualidade individualista e egocêntrica se difundiu ligeiramente pelas nossas igrejas e o evidente e desastroso resultado ocorreu: "o divórcio entre fé e vida, Eucaristia e compromisso com os irmãos".

 

Lembro-me de um grande amigo que já se encontra nos braços do Pai: Pe. João Batista Libanio. Era teólogo, aprendido nas coisas de Deus. Em suas celebrações eucarísticas, após a invocação do Espírito Santo e a Consagração do Pão e do Vinho, levantava suavemente suas mãos em direção a assembleia e dizia: “Este é o momento mais solene!” E invocava o Espírito Santo sobre cada um de nós para que, ao comungar do Corpo e Sangue de Cristo, fôssemos transformados no Corpo dEle que é a Igreja. E ainda acrescentava: “E que esta se torne uma comunidade de acolhida, comunhão e de muito cuidado de uns para com os outros!”. Com essas simples e sábias palavras, Pe Libanio nos introduzia mistagogicamente no mais profundo mistério da Igreja. Nos protegia de qualquer individualismo ou egoísmo espiritual. Como bom pastor, nos conduzia ao sentido último da Eucaristia: à comunhão de irmãos.

 

É exatamente a partir da Eucaristia que todos podemos ser de um modo real irmãos uns dos outros. Já não somos mais indivíduos mas parte insubstituível do Corpo Místico de Cristo. O mesmo sangue corre por nossas veias e nos une em um só corpo e um só espírito. Deste modo, quando recebemos a Comunhão, nos unimos uns aos outros em vínculo espiritual que ultrapassa toda e qualquer consanguineidade humana. Somos definitivamente a Igreja, esposa do Cordeiro. “E desta alegria ninguém é excluído.”

 

Volto à pergunta que me fizeram há alguns dias. Interrogações como esta são acompanhadas de muita apreensão. Neste momento decisivo, nossos pastores e outros membros da Igreja estão aqui em Roma. Membros representantes de toda a Igreja reunidos para dizer uma palavra sobre a familia. O tema da concessão da Eucaristia aos divorciados e a pessoas em outras uniões parece ter assumido grande relevância neste Sínodo. Não sei se realmente deveria ser um assunto tão relevante assim. Ainda mais porque o Mestre já decidiu tudo isso quando, na ceia de sua despedida, Ele declarou quais eram as palavras que deveriam ser repetidas em todas as celebrações eucarísticas da História:

 

“Tomai TODOS e comei… Tomai TODOS e bebei!” 

 

Morte na periferia

by Bruno Franguelli, sj

 

Primeiramente pedimos desculpas por publicar esta notícia, que talvez incomode ou retire o teu apetite num grande dia de festa como este sábado. Mas, como é nosso dever deixar nossos concidadãos a par de tudo o que está acontecendo, decidimos por bem publicar esta notícia.

 

Morreu ontem o conhecido pregador Jesus de Nazaré. Talvez alguns de vocês devem se lembrar dos grandes tumultos que ele causava entre os religiosos e responsáveis pelo Templo. Sua morte foi aclamada por uma imensa população que decidiu libertar o famoso Barrabás e entregar o pregador para ser crucificado.

 

Jesus era um homem saudável de trinta e poucos anos. Ele circulou por nossas terras pregando um certo Reino de Deus e - dizem alguns - que fez até milagres. Era um homem de origem humilde, filho de carpinteiro e viveu até os trinta anos nos subúrbios de Nazaré. Depois que deixou sua terra, chamou doze homens para que caminhassem com ele e estes se tornaram seus discípulos. Não era um revolucionário político, mas religioso. Foi tido como insultador da Lei dos judeus e de suas práticas religiosas. Mas a fúria dos religiosos aumentou ainda mais quando o jovem se declarou filho de Deus. Assim, foi acusado de herege e várias vezes foi ameaçado de morte pelos filhos de Abraão.

 

A situação começou a complicar nos últimos dias, justamente nestes tempos de festas em que a nossa cidade está repleta de peregrinos. Segundo informações seguras, ele foi traído por um daqueles que sempre estiveram com ele. Pelo preço de algumas moedas o discípulo entregou seu mestre nas mãos dos judeus e estes o julgaram, condenaram e o jogaram nas mãos de Pilatos. Este, com medo que o tumulto aumentasse ainda mais, cedeu a pressão dos judeus e de uma grande parte do povo e entregou o jovem pregador para ser crucificado. Segundo dizem o jovem não disse nenhuma palavra em sua defesa durante todo o processo. Somente afirmava que era rei de outro reino e que tinha o Pai dos Céus olhando por ele. Ninguém teve notícia dos seus discípulos. O réu permaneceu sozinho durante quase todos os momentos. Sua mãe, Maria de Nazaré, um tal discípulo e algumas mulheres - que não são de boa fama - foram as únicas pessoas que o acompanharam segundo as possibilidades que os guardas permitiam. Estes o seguiram até o fim!

 

O pregador foi cruelmente açoitado e muito ferido antes e durante a caminhada que precedia sua morte. Carregava uma aste pesada e em alguns momentos não aguentou o peso sobre os ombros e caiu.  A multidão seguiu de perto o trajeto. Enquanto alguns choravam e se desesperavam, outros ignoravam a dor do jovem e até gritavam-lhe injúrias dizendo: "morra marginal!" Ao chegar ao Gólgota foi crucificado. Após dizer algumas palavras, não resistiu e morreu.

 

E assim, a sentença contra o jovem pregador da periferia foi consumada. Morreu fora dos muros de Jerusalém e da Religião. Morreu como herege, morreu indignamente, e sua nudez, todos pudemos ver, porque até os trapos pobres que o cobriam lhe foram roubados.

 

Desejamos uma ótima festa a todos com banquetes fartos e muito divertimento!

 

Sucesso também aos que possuem tendas e se dedicam às vendas de animais e utensílios em Jerusalém. Que nada sobre em seus armazéns!

 

Jerusalém, abril - ano 785 da fundação de Roma

 

6 conselhos ao Papa Francisco

Bruno Franguelli, sj
 

Nota introdutória

A princípio, não existiam estas palavras introdutórias, mas devido a algumas interpretações equivocadas e - para evitar qualquer confusão posterior - decidi deixar duas indicações antes que você prossiga com a leitura:

1- O texto está escrito em estilo literariamente irônico.

2- Repare que a pessoa que assina "os conselhos" não é o autor do texto, mas alguém que tem expectativas equivocadas em relação ao Papa. 

Boa leitura!

 

 

Estimado Papa Francisco,

 

Primeiramente peço desculpas por escrever de um modo direto a uma pessoa que ocupa um posto de poder tão importante como o seu. Mas, as circunstâncias criadas através dos seus pronunciamentos e atitudes tão estranhos e desconcertantes, me convocam, como católico,  zeloso da reta doutrina, a não permanecer em silêncio.

Por isso, tomo a liberdade de fazer algumas considerações sobre tais atitudes e de propor ao senhor algumas mudanças que poderiam salvá-lo destes tropeços que o senhor vem cometendo freqüentemente.

 

1- O senhor se apresenta sempre muito próximo de todos e usa um vocabulário, muitas vezes, ao meu ver, até “chula”, para se dirigir as pessoas. Por favor Papa Francisco, seja mais reservado e cuidado com este tipo de palavreado! Seja mais distante das pessoas. Isso o ajudará a manter uma certa solenidade e impor mais respeito quando, principalmente, as pessoas que não fazem parte da Hierarquia católica se aproximam de ti. Saiba que o senhor não é qualquer um, e por favor, ornamente-se com paramentos mais dignos e nobres.

  

2- Quando o senhor for perguntado sobre um assunto polêmico, por favor, não responda. Aliás, nem permita essas entrevistas livres. E jamais diga aquelas palavras que o senhor proferiu espontaneamente naquela Missa em Tacloban, nas Filipinas. Não fica bem para um Papa fazer uma homilia com palavras espontâneas. Menos ainda confidenciar publicamente que lhe faltam palavras. Isso é realmente um absurdo! Um papa deve, ao menos, aparentar ter respostas para tudo.

 

3-Não fale tanto em pobres em seus discursos e nem em sair rumo às periferias. Isso pode aparentar que o senhor é comunista. Seja mais espiritual. Não entre em discursos profanos, do “dia- a- dia”. Ouvi dizer que o senhor está preparando uma encíclica sobre ecologia e até consultou alguns rebeldes que estão fora da Igreja. Por favor Papa Francisco, a Igreja não existe para proteger a Amazônia, mas exclusivamente para a salvação das almas. Como alguém disse, sua formação jesuíta é muito limitada. Os mais de 15 anos de formação para ser recebido definitivamente na Ordem lhe foram insuficientes.

 

4- O senhor ressalta muito a importância do diálogo entre as religiões e culturas. Por que devemos dialogar se Deus já nos deu toda a verdade? Vemos suas visitas e “orações” em lugares tão estranhos. Como o senhor tem a coragem de se rebaixar e visitar estes lugares profanos, repleto de heréticos e infiéis? Isso realmente me deixa envergonhado. Um representante de Deus aqui na terra não pode visitar ambientes como esses.

 

5- O seu discurso de misericórdia é muito ambíguo. Principalmente com aqueles que não seguem os preceitos da Igreja. O senhor fala que devemos proteger a família, mas também se mostra acolhedor com pessoas homossexuais e divorciados em outras uniões. Onde o senhor quer chegar com tudo isso? Talvez fosse mais correto pregar a ira de Deus e não a misericórdia.

 

6- Não seja tão humano, carinhoso, próximo como um “cura de aldeia”. Nós queremos um Papa, que do seu trono, defina dogmas e com sua voz solene e imponente nos dirija a palavra sempre em Latim, ainda que não compreendamos sua mensagem. Assim, o senhor jamais vai “tropeçar nas sandálias do pescador”.

 

Enfim, Papa Francisco, mais uma vez, desculpe minhas duras palavras. Estas são fruto da profunda decepção que, eu e muitos, sofremos com suas atitudes. Espero que o senhor não continue a nos incomodar com seu jeito humano de ser Papa.

 

Assinado:

alguém que esperava o herdeiro do Imperador Constantino e não o sucessor de um pobre pescador da Galiléia.

 

Onde está o Menino?

by Bruno Franguelli, sj

 

Já fugi de casa pra comprar brigadeiro na esquina.

As moedas deixadas na mesa por descuido e o buraco do portão

Favoreciam meu desejo inocente.

Minha mãe desesperada perguntava:

Onde está o menino?

E corria até o "bar" a tempo,

Lá estava a mãozinha estendida, com moedas que não compravam

Querendo brigadeiro.

 

Onde está o Menino?

Ninguém soube responder.

Só quem contemplava as estrelas,

Sentia calor no coração.

Longe de Palácio e de templo,

De sacerdotes e de reis.

Lógica de Deus,

Subversão.

 

Onde está o Menino?

Solto por aí, brincando de esconder,

Os mistérios dos grandes.

Saiu para mostrar os primeiros rabiscos,

E aprender que amor se nota pelo olhar.

Não importa a perfeição,

Belos são os rabiscos!

 

Onde está o Menino,

Que aprendi desde criança a procurar?

Deve ter fugido pelo buraco de algum portão.

E nas mãos carrega poucas moedas que não podem comprar,

E com o olhar faminto, 

Implora um brigadeiro,

Abraço e acolhida, cuidados e afetos,

Familia…

Paz!

 

Feliz Natal!

Algodão-doce

by Bruno Franguelli, sj

 

Tem gente que passa a vida toda vendendo algodão-doce na esquina do colégio.

Não tira férias, nem acorda tarde.

Mergulha a vareta de bambu no açúcar enquanto a meninada observa atenta o milagre acontecer.

 

Talvez pra se viver, pouca coisa é mesmo necessária.

O mistério do algodão-doce diz isso pra mim.

Uma mão prepara, a outra espera ansiosa.

Com poucas moedas se compra e sempre tem um trocadinho de sobra.

Metafísica das coisas inúteis que os olhos amam.

 

Já tive fome de nuvem.

Criança tem fome de tudo.

Mas tudo sem sal. Menino só gosta de açúcar.

Criança saudável só come besteira.

Porque paladar menino è desobediente.

Menino saudável só gosta de doce.

 

Roupa pra mim nunca era presente.

Só brinquedo era dádiva divina.

Criança saudável prefere coisas inúteis.

Bem aventurados são estes,

Que não tiram férias e nem acordam tarde.

Esperam apenas por algumas moedas de mãos pequenas.

 

Talvez pra se viver, pouca coisa é mesmo necessária.

Quanto mistério existe dentro de um simples algodão-doce!

Paura di Dio

by Bruno Franguelli, sj

 

"Attenzione, se voi camminate attraverso vie malvagie, l'ira di Dio cadrà su di voi!"

 

Queste sono parole che fanno tremare il nostro cuore. Confesso che ho perso il sonno meditando sopra di esse. Soprattutto perché da bambino ho scoperto e fatto esperienza che sono veramente nella Bibbia. Da adolescente scoprendo il mondo, i colori, i sogni, le emozioni, la sessualità, seduto su una panca in fondo a una Chiesa, guardando al Dio crocifisso ho chiesto:

 

"È vero che Tu mi puoi far del male?"

 

Questa domanda mi ha perseguitato per lungo tempo. Non potevo credere che Dio che è tutto amore avesse creato una macchina di tortura chiamata inferno. Mi sono ricordato della mia bisnonna. Mesi prima della sua morte, sono andato a farle una visita. Lei era molto malata, e mi confidò la sua più grande paura: "Bruno, non voglio morire, perché ho ​​paura che Dio mi mandi all'inferno" .

 

Ricordo le terribili parole di uno dei personaggi del libro “i Demoni” di Dostoevskij:

 

 "Dio è la paura dopo la morte!"

 

È vero che, molti di noi possiamo amare Dio solo per paura di un fine distruttivo. Molti ancora non capiscono che uno dei principali motivi per cui Gesù ha assunto la nostra umanità è stato proprio questo: per rimuovere in noi la paura di Dio! "Chi ha paura non può amare o sentirsi amato", ha scritto uno dei suoi più cari amici.

 

Qualche tempo fa, durante un viaggio in Ecuador, accanto a me c'era una coppia di giovani hippies. Ho iniziato una conversazione con loro circa argomenti religiosi. Mi hanno detto che anche se non erano parte di nessuna confessione, credevano che Gesù fosse il megliore che potesse offrire la Bibbia. Ho fatto silenzio, loro avevano capito l'essenziale!

 

L'amore non può creare macchine di tortura. Sì, la nostra rabbia può ferire, uccidere, scomunicare. L'amore, al contrario, crea giardini, non deserto. costruice ponti, non mura. Nell amore cè speranza, misericordia, salvezza. Santo Ireneo ha detto: "La gloria di Dio è pienamente che l’uomo viva!” Dove cé l’amore, non c`e paura!                                           

PROFISSÃO DE FÉ

by Bruno Franguelli, sj

 

Professo fé com memórias e...

Saudades das façanhas da mãe, do cheiro de bife acebolado, do arroz temperado;

Que me devolvem às fantasias de um apetite infantil.

 

Professo fé de menino aprontão,

Que sem perder a inocência recitou um palavrão e suscitou deliciosas gargalhadas relaxando a vida tensa dos amigos sentados a frente do portão.

 

Também professo a fé de um adolescente,

Admirado com sua voz rouca e com o corpo pronto para dançar novos ritmos. Mas ainda com medo das sementes e dos desejos aguçados.

 

“Corpo bão é de anjo e de santo – alguém dizia – que não se cansa, nem dorme e nem sente o quentinho do cobertor numa manhã de inverno incomodada pelo despertador.”

 

Renuncio…!

Ao pecado de não admirar o pôr do sol, de comer desapercebidamente as frutas, de não ler poesia, nem escrever poemas e nem escutar belas músicas.

 

Renuncio…!

Ao demônio das pressas sem sentido que não me permitem gastar tempo com as pessoas que amo e com aquelas que precisam de mim.

 

Renuncio…!

À frieza, ao rancor, às palavras amargas, ao rosto fechado, olhares arrogantes e coração indiferente à dor alheia.

 

Renuncio…!

A moralismos que turvam a visão e reduzem horizontes a preconceitos e intolerâncias.

 

Creio em Deus…!

Trindade apaixonada e abraçada na noite estrelada, à beira do mar, com suas criaturas dançando os mais diferentes ritmos da vida.

 

Creio no Pai…!

Que chega cansado e com fome em casa depois de um intenso dia de trabalho, mas tem amor de sobra pra fazer o filho dormir.

 

Creio no Filho…!

Descansando nos braços do Pai depois das fatigas e feridas de dias tristes que já passaram.

 

Creio no Espírito…!

Deus sem rosto e sem conceitos, metáfora que renova e recupera meus esquecimentos felizes.

 

Creio na Igreja…!

Com as mãos e os pés mais calejados que os joelhos; cheia de abraços, que comunga cuidado, promotora do prazer e da alegria.

 

Professo fé com alegria de menino,

que ganha uns poucos trocados do pai pra comprar cachorro quente na esquina com os amigos e de longe ouve os doces gritos “adivertentes” da mãe:

 

“Não coma muito meu filho porque a janta já está quase pronta!”

 

Amém.

VIDAS SUPERFICIAIS

by Bruno Franguelli, sj

Tem fé sim, mas é frágil e cessante...

 

Tem medo sim senhor, mas também tem coragem e vontade de colocar a mão na tomada com os pés molhados e descalços. 

 

Têm dores desnecessárias, mas também têm gritos inevitáveis e justos na prisão, do lado de fora. 

 

Tem muito pecado despudorando os recortes dos momentos arriscados. Mas também têm gotas da graça escondidas no rosto coberto do pretérito imperfeito dos desejos. 

 

Tem sagrado e profano apaixonados, trocando alianças no jardim de ipês amarelos.

 

Tem religião desligando as pessoas, criando máquinas de tortura e morte. Mas a capela da vila tá cheia de gente‪ que se abraça, se beija e se cuida. Ali, Deus pode dormir tranquilo com janelas abertas e babar feito menino despreocupado no travesseiro macio.

 

O amor salva as reticências da história grávida de passos sem percursos. Redime os pedaços de esperanças desperdiçadas naqueles dias com sabor de coentro. Recolhe os cacos de existência despedaçada no velório da paixão. O amor é a semântica da vida sepultando a gramática e libertando a Poesia. 

 

E com sua força vai atrapalhando a ordem e ‪provocando abundantes incômodos em...

 

vidas superficiais.

O dia em que Rubem Alves me pediu perdão!

by Bruno Franguelli, sj

 

Foi tudo culpa do Rubem...! Eu não sabia ler, nem escrever. Antes de conhecê-lo as árvores eram apenas árvores, os dias; agendas a serem preenchidas. Antes de ouví-lo numa palestra em Belo Horizonte, o banho com água quente era apenas mais um gesto necessário e cotidiano... Mas, depois que ele me despertou, tudo se tornou novo.  Ler e escrever já não significavam asceses, mas prazeres. As árvores já não eram as mesmas, os dias se transformaram em oportunidade para ser feliz, o banho com água quente; uma beatitude exclusivamente destinada aos seres humanos.

 

Foi sim, tudo culpa do Rubem. Ele me inspirou a criar este blog. Regou a aridez dos meus estudos de Filosofia com sua refrescante poesia. Salvou minha Filosofia, minha literatura, minha vida. A ele dediquei, em 2012, meu trabalho de conclusão de curso intitulado: “Tornei-me discípulo do corpo: o prazer no pensamento de Rubem Alves”, sob os olhares de outro mestre, amigo do Rubem, que também habita junto às estrelas, João Batista Libanio. Aquele trabalho não me provocou nenhum sofrimento. Foi realmente puro prazer!

 

Logo, o Pe. Libanio me pôs em contato com o Rubem. Assim, um mestre me apresentou ao outro:

 

"BH 10 de abril de 2012

Caro Rubem,

A história ora nos põe no caminho um do outro, ora nos mantém distantes. Seguir-lhe a trajetória é mais fácil, já que chegam notícias suas de muitos lados.

Hoje me veio a vontade de apresentar-lhe um jovem jesuita que está entusiasmado com seus escritos. faz monografia sobre você. Claro que ele gostaria de ter algum contacto com você, caso fosse possível Ele mora em BH e gostaria de saber por que via.

De longe, já em boa idade, um ano mais que você, caminho pelas mesmas veredas do saber e da sabedoria dos anos, ao menos, esta.

abraços. Libanio”

 

Gentilmente e sem demora, Rubem Alves lhe respondeu:

 

“LIBANIO: A ALEGRIA DO ENCONTRO DEPOIS DE TANTO TEMPO! QUANTO AO BRUNO - ESTOU NO MEIO DE UMA CRISE: MAL DE PARKINSON.PRECISO DE UM TEMPO PARA ME RECUPERAR DO CHOQUE. DIGA AO BRUNO DA ALEGRIA QUE ESTOU TENDO POR ELE GOSTAR DAS COISAS QUE ESCREVO. UM  ABRAÇO. RUBEM”

 

Esta era a primeira de muitas outras correspondências que teríamos. Me sentia seguro com o amparo dos dois mestres. Algumas semanas depois o Rubem me escreveu, já com palavras mais positivas em relação ao seu estado de saúde. Escrevia sempre em “caixa alta”:

 

“CARO BRUNO: FOI UMA ALEGRIA RECEBER O SEU E-MAIL.TEREI PRAZER EM ME ENCONTRAR COM VOCÊ. MAS DEIXA QUE EU VERIFIQUE A MINHA AGENDA. O MAIS FÁCIL SERIA  NOS ENCONTRARMOS EM BH. ESTOU HOJE SEM O AUXILIO DA MINHA SECRETÁRIA. AMANHà ELA ME DARÁ AS INFORMAÇÕES SOBRE A MINHA AGENDA. POR FAVOR, DÊ O MEU ABRAÇO AO AMIGO PE. LIBÂNIO. E UM ABRAÇO PARA VOCÊ. RUBEM”

 

Mas, infelizmente, logo depois o Rubem me escreveu:

 

QUERIDO BRUNO: FELIZ POR TER CONTRIBUIDO PARA O SEU PENSAMENTO E  TRABALHO ACADÊMICO. ESTOU ATOLADO NUMA SÉRIE DE PROBLEMAS DA SAUDE. POR ISSO NÃO POSSO, NO MOMENTO, LER O SEU TRABALHO. PASSADO O TSUNAMI DE HOSPITAIS, ENTÃO, QUEREREI LÊ-LO. UM ABRAÇO DO AMIGO RUBEM ALVES

 

Passado algum tempo, o Rubem me surpreendeu com outra mensagem. Esta era a última que ele me escrevia. Ele já era consciente de que seu crepúsculo já estava se aproximando:

 

“BRUNO:

QUERO LHE PEDIR PERDÃO. ESTOU ATOLADO EM VELHICE E DOENÇA E A MINHA CABEÇA NÃO TEM TRANQUILIDADE PARA PENSAR LIVRE E FELIZ. TENHO MONTANHAS DE E-MAILS PARA RESPONDER E NÃO CONSIGO. VOCÊ DISSE QUE GOSTARIA DE ME CONHECER PESSOALMENTE. MAS, NO MOMENTO, EU SOU UMA PRESENÇA DESINTERESSANTE E CANSADA. PREFIRO FICAR NA MINHA TOCA... VOCÊ ME PERDOA? ABRAÇO DO RUBEM”

 

 

DISTRAÍDOS

by Bruno Franquelli, sj

 

Ambiente de aeroporto é coisa engraçada. Com este pensamento eu começava uma agradável conversa comigo mesmo na sala de espera de um vôo. Um dos tantos lugares onde os olhares se vêem mas não se comunicam. Estão juntos, mas não se encontram. Têm olhos atentos ao painel de chamada. Outros, em objetos recentemente lançados pela Apple. Outros, se despertaram pela beleza de alguém. E existem aqueles, ainda, que decidiram se entregar ao sono e dar-se ao luxo de ocupar vários assentos. Pois, dormir no aeroporto é coisa chick. Um ambiente cheio de pessoas sozinhas que buscam uma direção para o seu rumo.

 

O cais da pós-modernidade é formal e com despedidas contidas. Que saudades das cenas que nunca vi! Das despedidas lentas que aconteciam enquanto o barulho do navio anunciava a proximidade da partida. Os únicos veículos de comunicação entre os que se amavam eram os expressivos acenos e as lágrimas escorrendo pelo rosto. Dificilmente alguém se distraía do coração.

 

Só se distraí quem se sente atraído... conversava ainda comigo mesmo naquela sala de espera. Papo como este costuma ser muito agradável. É um distrair-se saudável que desabrocha na gente o tempo todo. É uma pena que tem muita gente distraída de si, que anda dependurada nos aparelhos de conectividade. Acessa todo o mundo, mas permanece off line para si misma. Acho que a grande tentação de hoje em dia é a de despossuír-se.

 

Sedução, atração, desejo... Não declaremos sentença de morte a eles! São GPSs do nosso corpo apontando o endereço do lugar onde ele deseja repousar. Distraídos? Não! Atraídos...

 

Uma simples conversa...

Ambiente de aeroporto é coisa engraçada.

Perdão à "YAYA"

by Bruno Franguelli,sj

 

Dedico estas palavras a todos os nomes que me acompanharam nesta trajetória humana no Perú, especialmente a José Francisco Navarro,sj "artista das cores e dos afetos".

 

 

Alguns anos atrás, fui assistir a uma peça de teatro. O espetáculo contava com um cenário bastante simples, poucos personagens, mas seu conteúdo era incrível. A memória não gravou tudo, porém guardou o suficiente para que eu pudesse expressar em palavras alguns sentimentos que vieram hospedar-se em mim nos últimos dias em que estive no Perú. Lembro de uma cena em que, apoiado sobre uma banqueta frágil, o ator voltou seu olhar para o céu e disse:

 

“Quando eu olho para o céu repleto de estrelas tenho vontade de pedir perdão!”

 

Com estas palavras impressas na memoria comecei a arrumar as malas e a existência para colocar-me novamente em travessia. Durante um ano e meio que habitei o Perú, a maior parte deste tempo passei em terras selvagens, respirando ares puros e tentando reinventar mil maneiras de existir. Lembro-me das estrelas que ocupavam as noites na selva. Elas insistiam em existir com beleza. Mesmo contando somente com suas póstumas memórias, brincavam de viver a eternidade. Ao caminhar pelas matas escuras, pareciam vigiar meus passos. Já não me sentia sujeito, mas objeto de atenção e cuidado daqueles corpos celestes, criados antes de mim, no terceiro dia do existir. Dos sentimentos que me visitavam, o mais nobre e mais humano era o desejo de pedir perdão.

 

Por outro lado, bem mais próximo de mim, tinham muitos nomes, culturas, cores e raças. O Amoroso Criador transformava todo o dilúvio interior em comunhão. A solidão dos espaços mesquinhos era salva pelo desejo de ser gente. Chegava o momento de dizer “adios” a estes habitantes de pés descalços, íntimos da terra, com ombros cheio de cicatrizes e fatigados por carregar a mesquinhez dos “civilizados”. Foi com eles que eu aprendi a chamar as estrelas de “yaya”; a pintar o rosto de vermelho para ocultar o medo diante do inimigo; e decobrir que a vida é atemporal. Dá vontade de pedir perdão.

 

E agora, depois dos abraços, palavras, e votos partilhados nas despedidas, sigo minha nova sina. Muitos metros abaixo dos meus pés, as cordilheiras dos Andes, com suas montanhas cobertas de neve, testemunham meu "adiós". Entre a multidão dos corpos celestes e a “segurança” da terra firme, é momento de fazer a travessia e ver a vida continuar acontecendo pelas veredas. Como a água que deixa de seguir o curso normal dos rios e – subversivamente - prefere deixar-se levar pela imprevisibilidade dos mistérios e encantos dos paraísos escondidos.

 

Perdão à YAYA…

Ele me inspirou a ser jesuíta

by Bruno Franguelli, sj

 

 

“Bruno, o que te inspirou a ser jesuíta?”

 

Esta pergunta me persegue com muita freqüência e penso que jamais estarei livre dela. Surge dos outros, nasce de mim. Inspiração é algo sagrado. Sacramento celebrado nas liturgias da existência. Olho para a minha história e busco mil maneiras de responder a questão. A recordação me socorre e me devolve o menino que deixei escapar há alguns anos. A memória tecida de descobertas infantis responde: minha inspiração se chama José de Anchieta.

 

Escutei seu nome pela primeira vez nas aulas de História. Lembro-me que, embora meus professores soubessem muito pouco da vida deste homem, ensaiavam seus conhecimentos relatando algo sobre a fundação da cidade de São Paulo e a ousada Ordem religiosa da qual Anchieta pertencia. Os minutos finais da aula eram dedicados à pintura de um desenho do apóstolo. E eu, ainda menino, sem muito entender a profundidade daqueles ensejos, ficava imaginando-me parte daquelas incríveis missões.

 

Todos os anos, descer a serra do mar pela Via Anchieta e prosseguir viagem pela Rodovia Pe. Manoel da Nóbrega, no litoral de São Paulo, acendia algo em mim que não sabia explicar. Alguém havia passado pelas areias que confortavam a diversão anual da minha família na praia. Lembro dos inúmeros castelos que construí à beira mar, produzidos com as mesmas areias que há mais de 4 séculos receberam as palavras que o poeta compôs para a Virgem.

 

No álbum de fotografia da família, uma das primeiras fotos registra um fato curioso, talvez profético: Minha mãe, abrigando alguém no ventre, apoiada sobre uma pedra conhecida como cama de Anchieta. Local que, segundo críveis relatos, o santo permanecia longas horas para orar e descansar de suas longas viagens.

 

Acho que Deus se sente mais à vontade para passear em nossas vidas quando nos permitimos saborear o dom da simplicidade. Ele mora nas minhas belas recordações e me convida a fazer delas uma inspiração para correr em busca dos meus sonhos. Acho que é por isso que sou encantado por Anchieta. Ele encontrou a Deus nas veredas da simplicidade. Com 19 anos sonhou sua vocação à humildade e ajudou a escrever a história de uma Nação.

 

Os anos passaram. Moro na missão que guardei na memória. Dentro do peito, levo as insígnias do mais novo santo da Igreja. Que continua me inspirando a escrever nas areias os meus sonhos e guardá-los bem dentro, onde tudo está a salvo e a efemeridade dos dias não pode apagar. Para mim, a palavra jesuíta é sinônima de José de Anchieta.

Prometo não te esquecer!

by Bruno Franguelli, sj

 

 

É a primeira vez que registro palavras no blog este ano. Quem me acompanha por aqui sabe que não sou um profissional da palavra. Sou apenas um forasteiro que busca hospedagem na poesia para vencer as tentações de sentimentos intranscendentes. Demorei porque resisti desenhar os afetos que me deixaram sem oriente nos últimos tempos. Mas hoje, com a ferida mais estancada, decidi permitir que minha saudade dolorida descanse no aconchego destas palavras.

 

Tudo aconteceu no dia 30 de janeiro deste ano. Eu estava em uma reunião em Huachipa, na região de Lima-Perú. Me dirigia até um espaço adequado para a tradicional foto oficial do encontro. De repente, alguém colocou as mãos nos meus ombros e disse:

 

“Bruno, tenho más notícias!”

 

É inexplicável o sentimento que domina o coração da gente quando este sopro desconcertante toca nossos ouvidos. Em milésimos de segundos o coração dispara memórias dos mais queridos e converte todas essas imagens em imensa escuridão, como se fossemos lançados para fora do tempo e do espaço...

 

“Seu querido amigo Pe. Libanio sofreu um infarto e faleceu nesta manhã!”

 

Neste momento, minha dor ganhou nome de alguém. Um terrível sentimento de orfandade já não era um simples hospede de momentos incertos. Este vinha para ficar. E a memória floresceu este amigo querido que era um intelectual famoso, teólogo internacionalmente reconhecido... mas para mim, apenas um grande amigo. Pois os amigos não costumam se preocupar com os reconhecimentos, nem com os títulos honoríficos, basta-lhes conhecer o coração. Naqueles dias difíceis, durante uma conversa com o Pe. Fabio de Melo, na qual dividíamos nossas dores pela perda do nosso admirável mestre, ele me confidenciou: "ficamos mais pobres!"

 

Fazia apenas uma semana que eu havia me comunicado com meu amigo Libanio. Suas palavras continuam registradas no histórico do skype, juntamente com sua foto sorrindo. Sorriso que conheci bem de perto e provocou-me esperança nos momentos em que mais necessitei de vida. Meu amigo pertencia a gerações muito distantes da minha, mas sempre esticava suas mãos cheias de história para aproximar nossos mundos. Sua voz um pouco rouca era amparo nas minhas maiores dificuldades. Seu olhar penetrante, exorcizava-me a superficialidade. 

 

Meu amigo morreu. Não pude ver seus olhos fechados e suas mãos postas no caixão. Tive de sobreviver com meu choro distante. Ficaram as lembranças, as palavras ditas, os olhares calmos, os abraços prontos, as mãos estendidas.  A memória tenta me acalmar com palavras que ele mesmo me tinha dito em uma das nossas últimas conversas:

 

“Certas presenças podem desaparecer fisicamente, mas ficam dentro; isso é o mais importante.”

 

Depois de receber a notícia, meus passos queriam seguir a sós. Mas as câmeras fotográficas já estavam prontas. A foto registrou um sorriso misturado com choro. Depois, não agüentei. Busquei a solidão do meu quarto, liguei meu computador e encontrei as últimas palavras que ele me dedicou:

 

 â€œque lontano dagli occhi [não seja] lontano dal cuore”

(que distante dos olhos [não seja] distante do coração)

   20 de janeiro de 2014

UM MISTÉRIO ESCANDALOSO

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Era inverno no hemisfério norte. Alguns amigos mulçumanos que conheci na Universidade me convidaram para almoçar e conhecer mais profundamente suas raízes culturais. Cheguei quinze minutos antes e me receberam com entusiasmo em seu apartamento. Naquele momento, eles estavam se preparando para fazer sua cotidiana oração. Estenderam seus tapetes sagrados e me pediram que esperasse por alguns breves minutos até que terminassem. Pedi para também participar do ritual. Eles me olharam com uma expressão de surpresa e responderam positivamente ao meu pedido. Pronunciaram suas preces em árabe, fizeram várias reverências e eu tentava repetir os mesmos gestos em sinal de comunhão. Depois, nos sentamos no chão da sala com os pés descalços para iniciar nosso almoço. Sem os auxílios dos talheres, recolhíamos com as mãos a comida do mesmo prato depositado no meio de nós. Foi um momento muito agradável. Nos pusemos a conversar sobre nossas culturas e religiões. Depois de responder algumas perguntas que me fizeram sobre o Cristianismo, um deles me olhou com atenção e confessou:

 

“Bruno, é muito bonito tudo o que você diz sobre sua religião, mas confesso que eu não teria condições de crer em um Deus que se fez humano e tão frágil!”

 

Lembrei desse acontecimento quando pensava em escrever algumas linhas sobre as celebrações natalinas que se aproximam. Essa pergunta me despertou muitas reflexões. Realmente aquele jovem mulçumano estava certo. Crer em um Deus encarnado é uma atitude exigente e corajosa. Ainda mais, crer em um Deus que nasce em uma gruta abandonada, distante do Templo e dos sacerdotes. Que se faz criança fragilizada e dependente de cuidados e afetos. Filho de pais anônimos, pobres e migrantes... E depois, aproximando-se em idade e experiência da maturidade da vida humana é odiado e expulso por sua própria religião e morre através do mais desumano dos castigos: a pena de morte. Crer em um Deus que assumiu plenamente a realidade humana na pobreza, anonimato e debilidade pode parecer absurdamente escandaloso.

 

A Encarnação de Deus continua a nos provocar. Principalmente aos que nascemos em países onde o Cristianismo ainda é assimilado como uma mera herança cultural e conveniente. Com tantos símbolos e parafernálias que ornamentam o Natal, se faz cada vez mais difícil contemplar a profundidade do seu mistério, do seu verdadeiro significado. A mensagem da Encarnação de Deus é profundamente desestabilizadora e exigente. Este menino “é um sinal de contradição” que provoca nossas falsas seguranças, confortos e comodismos. Talvez ainda estejamos muito distantes de compreender o que realmente significa afirmar: “sou cristão!”

 

O amor de Deus, de fato é escandaloso. Com a Encarnação essa realidade se faz evidente e palpável. Nela Deus assume tudo o que somos e temos até as últimas conseqüências. No Homem Jesus de Nazaré todas as realidades humanas são sacrificadas, ou seja, se tornam sagradas. E não há ser humano que escape deste beijo de salvação.

 

“O Cristianismo é a religião do Corpo!”

 

Não estou certo se ouvi de alguém ou li esta afirmação em algum livro no início da juventude. Na época, com certa formação tradicionalista da fé, tive sérias dificuldades para compreendê-la. Mas hoje percebo que ela realmente faz sentido. Deus não se envergonhou de ter um corpo. Ao contrário, o assumiu plenamente a tal ponto que, no final de sua vida, decidiu entregar como alimento nada menos que o seu próprio corpo como memória eterna da sua presença. A “Ação de graças” do Cristianismo é a celebração antropofágica da partilha do corpo do seu Mestre. E isso é escandalosamente maravilhoso!

 

“Creio na ressurreição da carne!” É o mais profundo acolhimento da Esperança cristã que afirmamos em nossas celebrações. Talvez seja um pouco contraditório que levantemos nossas preces a Deus pela “alma” dos nossos entes queridos falecidos. Os primeiros cristãos não eram dualistas. Celebravam e Eucaristia sobre o túmulo daqueles que também haviam entregado seu corpo como alimento, semelhante ao seu Mestre. Para eles, o corpo não se revestia da velha idéia platônica de uma prisão para a alma e nem mesmo um obstáculo para a salvação, mas era sacramento da presença de Deus. “Creio na Ressurreição do Corpo!”

 

É uma pena que muitos de nós cristãos ainda vivemos nossa fé "apesar" do corpo.

Nos esforçamos por viver como se fôssemos seres assexuados e porque não dizer, desencarnados. Os afetos, os desejos e o prazer aparecem como principais inimigos da realização da vontade Divina. Esquecemos facilmente que ao pensar na criação do homem, o livro dos Genesis deixa bem claro que Deus criou um jardim de delícias. E o livro do Cântico dos Cânticos, que muitas vezes teve suas páginas censuradas e retiradas da Bíblia por alguma “censura sagrada” confirma que as bênçãos de Deus são derramadas abundantemente sobre os desejos eróticos do corpo.

 

Celebrar o mistério da Encarnação de Deus significa decidir-se também encarnar-se. O que parece algo óbvio na verdade pode estar bem distante de o ser. Encarnação é um processo longo e exigente que vamos assumindo ao longo da vida com nossas experiências mais lindas e mais difíceis, com nossos sonhos realizados e nossos traumas. É um dar-se conta de que a Encarnação do Mestre assumiu todas as realidades da vida humana, sem nenhuma exceção. A Encarnação é a reconciliação total e definitiva entre Deus e o corpo.

 

Talvez agora eu entenda melhor o significado daquela afirmação do meu amigo mulçumano, que compreendeu muito bem a profundidade e as implicações de crer em um...

 

“Deus que se fez humano e tão frágil”.

 

Feliz Natal!

Fear of God

by Bruno Franguelli,sj

 

 

"Beware! if you walk astray, God's wrath will come upon you!"

 

I am almost certain you have also heard those same words. They are widely known from the pulpit and on public squares, in books and on television, at conferences and even during celebrations. These are words that can make our heart tremble. I confess that I have lost sleep thinking about them. Mainly because as a boy I wished to find out whether they are really in the Bible. As a teenager, discovering both the world in all its vibrant colors and myself in all my dreams, emotions and sexuality, I sat in a pew of the crypt of a church looking at the Crucified God and said, 

 

“Is it true that You can hurt me?”

 

This question haunted me for a long time. I could not believe that the God who was all love had created a machine of torture called hell. I remember very well a conversation I had with my great-grandmother when I visted her months before her death. She was very sick, and confided to me her greatest fear: "Bruno, I do not want to die because I'm afraid that God might send me to hell." Though scared, I tried my best to take away the despair from her heart. She answered me with a smile saying, "Thank you Bruno, now I feel better!"

 

I remember the terrible words of one of the characters in the book Demons by Dostoevsky:

 

"God is the fear after death!" 

 

True, many of us say that we love God because we fear a destructive end. Many still do not understand that one of the biggest reasons why Jesus took on our humanity was just this: To put an end to the fear of God! "Anyone who is afraid cannot love or feel loved," wrote one of the character’s closest friends. "Our Father ..."

 

Two months ago, on a trip to Ecuador, I sat next to a couple of young hippies. I struck up a conversation with them and we then entered upon the subject of religion. They told me that although they were not part of any confession, they believed that Jesus was the best that the Bible could offer. I was speechless. They had understood the essence!

 

Love can not create torture machines. Our anger, yes, can injure and kill. Love, on the contrary, creates gardens where emotions go free and where even play is a law. "The glory of God is man fully alive!" said a holy man named Irenaeus.

 

Today, I look at the same cross which as a boy I learned to admire. I recall those words that make us afraid of God, which are still advertised everywhere. I think they make God cry. They cause Love Crucified to suffer, He who loved us to the end. I catch myself now, remembering that even children listen to me. I then realize that I am not the one who asks the question, but rather it is He:

 

“Is it really true that you can ever do anything bad to Me?”

Miedo de Dios...

by Bruno Franguelli,sj

 

“Tenga cuidado, si andas por caminos malos, la ira de Dios caerá sobre ti!”

 

Estoy casi seguro de que tú ya escuchastes estas palabras. Ellas son muy difundidas en los púlpitos, plazas, libros, canales de televisión y celebraciones. Son palabras que hacen temblar el corazón. Confieso que ya perdí el sueño pensando en ellas. Principalmente porque ya en mi niñez traté  de confirmar y descubrí que ellas están en la Biblia. Adolescente que está discubriendo el mundo, los colores, los sueños, los afectos, la sexualidad, me senté en una silla al fondo de una Iglesia, miré hacia el Dios crucificado y le pregunté:

 

¿Es verdad que Tu puedes hacer algo malo para mi?

 

Esa pregunta me persiguió por mucho tiempo. Yo no podía creer que el Dios que es todo Amor pudiese haber creado una máquina de torturas llamada infierno. Me recuerdo de mi bisabuela. Meses antes de su fallecimiento fui hacerle una visita. Ella ya estaba bastante enferma y me confesó su mas grande miedo:  “Bruno, yo no quiero morir porque tengo miedo que Dios me mande al infierno!” Yo, asustado, intentaba quitar aquel miedo de su corazón. Ella me contestaba con una sonrisa diciendo: “Gracias Bruno, ahora me siento mejor!”

 

Recuerdo las terribles palabras de uno de los personajes del libro Los demônios de Dostoiéviski:

 

“Dios es el miedo después de la muerte!”

 

Es verdad, muchos de nosostros decimos que lo amamos porque tenemos miedo de un fin destructor. Muchos todavía no entendemos que uno de los mas grandes motivos por lo cual Jesús asumió nuestra humanidad y fue justamente este: quitarnos el miedo de Dios! “Quien tiene miedo no puede amar ni sentirse amado”, escribió uno de sus mas íntimos amigos. “Padre nuestro...”

 

Hace dos meses, en un viaje al Ecuador, a mi lado estaba una pareja de jóvenes hippies. Empecé  hablar con ellos y tratamos del tema de  la religión. Ellos me dijeron que por mas que no hiciese parte de ninguna confesión religiosa, creían que Jesús era lo mejor que la Bíblia podría ofrecer. Hice silencio, ellos habían comprendido lo esencial!

 

El amor no puede crear máquinas de torturas. Nuestra ira sí es capaz de herir y matar. El amor, en cambio, crea jardines, donde los afectos pueden caminar libres y jugar es una ley. “La gloria de Dios es el hombre vivo!” Esto ya la decía un  venerable y sábio maestro de los primeros años  del cristianismo llamado Irineo de Lyon.

 

Hoy, miro la misma cruz que en mi niñez contemplé. Recuerdo que las palabras que nos hacen sentir miedo de Dios, siguen siendo difundidas por todos los sitios. Pienso que ellas hacen a Dios llorar. Ellas hacen sufrir el Amor crucificado que nos amó hasta el fin. Recuerdo que los niños me están escuchando. Y, entonces, me sorprendo, pues ya no soy yo quien hace aquella pregunta. Es Él:

 

“¿Es verdad que tú puedes hacer algo malo para Mi?”

Medo de Deus...

by Bruno Franguelli,sj

 

“Cuidado, se você anda por maus caminhos, a ira de Deus cairá sobre ti!”

 

Estou quase certo de que você também já ouviu essas palavras. Elas são muito divulgadas nos púlpitos, praças, livros, canais de televisão, congressos e celebrações. São palavras que fazem o coração tremer. Confesso que já perdi o sono pensando nelas. Principalmente porque ainda menino fiz questão de confirmar e descobri que elas realmente estão na Bíblia. Adolescente que está descobrindo o mundo, as cores, os sonhos, os afetos, a sexualidade, sentei num banco ao fundo de uma Igreja, olhei para o Deus crucificado e perguntei:

 

â€œÉ verdade que Você pode fazer mal pra mim?”

 

Essa pergunta me perseguiu por muito tempo. Eu não podia acreditar que o Deus que era todo Amor havia criado uma máquina de tortura chamada inferno. Lembro da minha bisavó. Meses antes de seu falecimento fui visitá-la. Ela já estava bastante enferma e me confidenciou o seu maior temor: “Bruno, eu não quero morrer porque tenho medo que Deus me mande para o inferno!” Eu, assustado, tentava retirar aquele desespero de seu coração. Ela me respondia com um sorriso dizendo: “obrigado Bruno, agora me sinto melhor!”

 

Lembro as terríveis palavras de um dos personagens do livro Os demônios de Dostoiévski:

 

“Deus é o medo depois da morte!”

 

É verdade, muitos de nós dizemos que O amamos porque temos medo de um fim destruidor. Muitos ainda não entendemos que um dos maiores motivos pelo qual Jesus assumiu nossa humanidade foi justamente este: retirar-nos o medo de Deus! “Quem tem medo não pode amar nem sentir-se amado”, escreveu um dos seus mais íntimos amigos. â€œPai nosso...”

 

Faz dois meses, em uma viagem ao Ecuador, ao meu lado estava um casal de jovens hippies. Puxei conversa com eles e entramos no tema da religião. Eles me disseram que embora não fizessem parte de nenhuma confissão, acreditavam que Jesus era o melhor que a Bíblia poderia oferecer. Fiz silêncio, eles tinham entendido o essencial!

 

O Amor não pode criar máquinas de torturas. Nossa ira sim é capaz de ferir e matar. O Amor, ao contrário, cria jardins, onde os afetos caminham livres e brincar é uma lei. “A glória de Deus é o homem vivo!” dizia um homem santo chamado Irineu.

 

Hoje, olho a mesma cruz que ainda menino aprendi a admirar. Recordo que as palavras que nos fazem ter medo de Deus continuam sendo anunciadas por todos os lugares. Acho que elas fazem Deus chorar. Elas fazem sofrer o Amor crucificado que nos amou até o fim. Lembro que as crianças estão me ouvindo. E então, me surpreendo, pois já não sou eu quem faço aquela pergunta. É Ele:

 

â€œÉ verdade que você pode fazer mal pra Mim?”

"Desperta-dor!!!"

by Bruno Franguelli,sj

 

Aconteceu nos tempos em que eu tinha o privilégio de respirar todos os dias ares litorâneos. Era noite na capital paraibana. Meu relógio apontava meia-noite. O clima era bem quente, mas agradável. Deitado na rede, mantinha os olhos fechados na esperança de um sono próximo. Inesperadamente, a campainha tocou. Era tarde demais para receber uma visita comum. Resisti levantar-me para atender. A campainha soou novamente. Com olhos sonolentos, abri a porta do quarto e segui até a entrada da casa.  Com um misto de curiosidade e receio que passarinhavam em mim abri o portão de entrada...

 

Diante de mim, um jovem em prantos pedia desculpas pelo incômodo. Dizia que tinha algo muito importante a me dizer e pedia alguns minutos da minha atenção. Eu estava contagiado pela surpresa e curiosidade daquele instante. Mil situações passavam pela minha cabeça. O que vinha buscar um jovem bem vestido e portador de um carro importado àquela hora da noite? Respirei fundo e deixei que suas palavras se derramassem espontaneamente, à medida das lágrimas que as acompanhavam. Começou seu relato dizendo que realizava um doutorado em Engenharia, pertencia a uma família muito rica e tinha toda a segurança dos bens materiais, mas lhe faltava algo, e este era o motivo da sua visita, não havia encontrado o sentido da sua vida.

 

Depois de suas primeiras palavras, fiquei mais espantado ainda e deixei escapar uma primeira pergunta: “Mas por que você buscou este lugar e a esta hora da noite?” Ele olhou uma cruz antiga sustentada pela parede amarelo acre da sala e confessou: “Algo me dizia que eu deveria vir aqui, pois alguém estava pronto para me receber!”

 

Depois de escutar sua dor, o jovem seguiu mais tranquilo para sua casa. Retornou mais algumas vezes. Começou um desafiante processo de busca. Sua vida havia rompido com a inércia de seus comodismos. Finalmente, seus desejos mais profundos estavam em movimento.

 

O tempo passou. Muitos anos já me distanciam deste ocorrido. Mas, ainda me pergunto pelo seu significado. Significados, às vezes, costumam despertar dores. Por esta razão, raramente seguimos à sua procura. Podem movimentar águas, provocar tsunamis interiores. Talvez tenha sido esta a experiência daquele jovem que teve coragem suficiente para dar-se conta do seu grande vazio existencial, miserável de significados.

 

Lembro as palavras de Leo Tolstoy:

 

“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a chance de me sacrificar por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava segurança em nossa vida tranquila.”

 

Existem dores que necessitam atenção. São como semáforos vermelhos nos advertindo o risco do acidente. Talvez estejamos correndo, preocupados em realizar muitas tarefas e alcançar muitos objetivos, mas o sentido profundo, aquele que alicerça nossa existência, na verdade não acompanha nossas agendas superlotadas. Percorremos distancias consideradas, mas permanecemos acomodados na inércia de nossas falsas seguranças.

 

“Bruno, você está feliz?” é a frequente pergunta que pessoas queridas me fazem. É claro que esperam uma resposta afirmativa. Afinal, quem ama deseja ver a felicidade estampada no rosto do amado. Mas, se respondo simplesmente com um sim, talvez não tenha razões suficientes para justificá-lo. Penso no Renato cantando “Giz”: “Pra ser honesto sou um pouquinho infeliz!” Por isso, quando me perguntam sobre minha felicidade, deixo o silêncio ser resposta por algum tempo e depois complemento dizendo: “estou construindo!”

 

“Não quero pão, eu quero mesmo é fome” dizia Adélia Prado. Deus me livre da satisfação que garante a morte dos meus desejos. Que as dores da insatisfação me arrastem, impulsionem meus afetos até o despertar do meu desejo mais profundo: a busca pelo sentido da minha existência. A busca, sempre a busca!

 

Em qualquer momento, movimento! Em cada ato, um significado sempre maior! Ao meio-dia ou à meia-noite, sempre é tempo de buscar...

 

Às vezes, impulsionado...  por um simples...

 

... “desperta-dor!!!”

"Quanto mais farinha, melhor!" Recordações aos 26...

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Ele morava na casa mais antiga da rua. Para não dizer a mais feia. Quem passava diante dela talvez não acreditasse que tinha gente morando ali. As rachaduras eram profundas e podiam ser notadas de longe. Apesar de não possuir beleza estética nenhuma, aquela casa tinha o conforto que nenhuma outra podia oferecer.

 

“Vô, o que o senhor está fazendo?” eu perguntava.

“Nhoque, pastéis!” respondia ele.

 

Para ele, o verdadeiro nhoque se fazia com a mão na massa. Uma quantidade generosa de farinha era espalhada sobre uma mesa que já havia servido muitas gerações. Suas mãos brancas e delgadas passeavam sobre a mesa atendendo a cada detalhe de sua receita italiana favorita. Meu avô não preparava somente um prato saboroso, mas passeava nas recordações do seu coração italiano que transformava-o –infelizmente- em um incansável torcedor do Palestra Itália (Palmeiras) e também em um homem que preferia assistir aos jogos da Copa do Mundo isolado para poder admirar as partidas do time oriundo das terras dos seus antepassados.

 

E suas mãos, que outrora manuseavam as históricas máquinas das ferrovias de Sorocaba, iam enfileirando a massa do nhoque que já começava a ganhar corpo. Eu, com olhos infantis, permanecia com os braços apoiados sobre a mesa centenária admirando as façanhas culinárias do meu avô.

 

Isso me faz lembrar uma Prosa do Vinícius:

"Às vezes me dá vontade de parar de escrever, descansar minha cabeça no seu duro regaço e ficar lembrando a infância longínqua. É uma velha querida mesa."

 

Meu avô me olhava, respondia minhas perguntas, contava alguma história, mas não desviava sua atenção da sua obra de arte. Lembro-me do cheiro de móvel antigo espalhado nos ares daquela sala improvisada. Do brilho vindo de seus olhos enrugados. Recordo o tom entusiasmado de sua voz que me dizia: “Pastéis, quanto mais farinha melhor!”

 

“Pastéis!” Esse era o apelido dado por meu avô. Ele sempre me dizia que me chamava assim por considerar minhas orelhas um pouco mais abertas que o comum. Era a maneira que utilizava para me fazer recordar que eu também herdava no meu corpo traços italianos.

 

Hoje, quase 2 anos depois que meu avô me disse adeus, ás vésperas de completar os 26, desejo desenhar a imagem daquelas mãos que prepararam o nhoque. Meus olhos, não mais ingênuos e nem infantis, e com as rugas que já começam a aparecer, querem brilhar os mesmos motivos que movimentavam farinha sobre uma mesa antiga. Sou contornos do meu avô. Vida que segue a mesma sina. Sentinela de seu sorriso de lábios alargados.

 

26 anos... o corpo vai superando as descobertas. As expectativas se acomodam em jangadas construídas. Já não frequento as esquinas da adolescência, nem o hall do início da juventude. A vida vai pedindo calma. O coração, esperança.

 

Hoje, minhas mãos se unem em gestos reverentes. A mesa antiga não pode ser esquecida. Quero percorrer caminhos já abertos por aquelas mãos que já não posso mais tocar. Ao meu lado, crianças me observam com atenção, são olhares índios e selvagens, herdeiros destas terras que me receberam. Olho nos seus olhos inocentes e repito esta oração, com lágrimas nos olhos e tentando alcançar o mesmo entusiasmo que um dia eu contemplei:

 

“Quanto mais farinha, melhor!”

Carta ao Pe. Paulo Ricardo: sobre a heresia e as ignorâncias

 

 

Estimado irmão em Cristo Pe. Paulo Ricardo,

 

É com grande pesar que encontrei um vídeo com tuas palavras sendo difundido nas redes sociais sobre os pronunciamentos do cantor cristão católico Guilherme de Sá da Banda Rosa de Saron durante um programa de televisão.

 

Sou Bruno Franguelli, tenho 25 anos e sou jesuíta há 9 anos. Acompanho a Banda Rosa de Saron desde os 17 anos de idade. Durante este tempo, tive a oportunidade de conhecer de perto cada um dos integrantes da Banda, e de maneira especial o Guilherme de Sá, pois sou seu amigo e diretor espiritual de sua mãe. Conheço de perto sua difícil trajetória e seu testemunho humano e cristão. Aliás, história que ele mesmo nunca ocultou e fez questão de partilhar com todos os admiradores.

 

Sim, é realmente com muito pesar que encontrei tuas palavras sendo difundidas nas redes sociais. Palavras que condenam, ferem, matam. É muito triste encontrar um cristão condenando o outro como herege ou ignorante. Heresia não seria isto: condenar um irmão? Ignorância não seria pronunciar-se a respeito de alguém sem conhecer profundamente sua história e o seu coração? E ainda mais triste é saber que não existe a mínima razão para que ele seja tratado desta maneira. Qualquer lúcido teólogo elogiaria as belas palavras de acolhida, diálogo e amor que saíram da boca do Guilherme de Sá.

 

É heresia respeitar outras religiões e crenças? É errado reconhecer que Jesus veio para todos e há sinas do Deus vivo em realidades que desconhecemos? Não é verdade que há cristãos fanáticos “bitolados” que desejam fazer da Igreja um reduto de perfeitos, salvos e não uma Igreja boa “Samaritana” que vai ao encontro do diferente e elogia a fé dos “pagãos” assim como seu Fundador o fez? Fazer uma analogia entre Francisco e João Paulo II significa desrespeitar e esquecer Bento XVI? Onde está o erro?

 

Pe. Paulo Ricardo, este “sujeito” que o senhor menciona, chama de herege ou ignorante, é um irmão que eu e milhares de jovens católicos, protestantes e sem religião amamos e estimamos.  Sim, escrevo em nome de muitos rostos que foram e continuam sendo transfigurados pelo trabalho evangelizador do Guilherme de Sá e de toda a Banda Rosa de Saron. Rostos que encontraram na beleza da poesia de suas canções um reflexo do amor de Deus. É a Rosa de Saron que nasceu em nossos desertos existenciais.

 

Teu pronunciamento pode até ser válido pelo direito que te confere a liberdade de expressão, mas talvez tuas palavras estejam um pouco diferentes daquelas amáveis, acolhedoras e nunca excludentes que foram pronunciadas pelo Nazareno. E atitude bem diferente dAquele que jamais condenou alguém por heresia e sim por hipocrisia.

 

Com respeito humano e cristão:

Bruno Franguelli,sj

 

Imperfeito, graças a Deus!

by Bruno Franguelli,sj

 

Prometi escrever sobre este tema há algum tempo atrás, em alguma crônica perdida no histórico deste blog.  Não escrevo, muito menos publico, palavras precipitadas. Prefiro as palavras demoradas, buriladas dentro do moinho das minhas próprias e mais difíceis experiências humanas. Momentos intranquilos e complexos em que descubro uma das mais duras verdades minhas: sou imperfeito!

 

Quando criança, os adultos me ajudavam a acreditar no contrário. Bastava repousar um lápis colorido em um papel em branco e mostrar para eles, que meu sorriso se alargava por receber cachoeiras de elogios. Alguns diziam que eu tinha vocação para desenhar. Com muito esforço, conseguia alcançar as melhores notas da turma e era acreditado como o mais inteligente da família. Com um violão ao colo, passava os dedos inflexíveis sobre as cordas e os outros já ficavam imaginando a mim um integrante de uma nova modalidade de “The Beatles”. E os amigos? Eram muito poucos. E afirmavam: “Bruno sabe eleger e cultivar muito bem seus amigos!” Ah… além de tudo era reconhecido por saber rezar e por ter um coração cheio de pureza. E eu, me convencia cada vez da minha divina perfeição.

 

No entanto, a vida começou a revelar-me a verdade. E... a duras penas, fui entendendo que eu não era tão perfeito como imaginava ser. Meus rabiscos se perdiam, eram esquecidos diante de outros tão vistosos. Também, chegaram os fracassos escolares e as notas ridículas. O violão… não me tornei amigo dele e de nenhum outro instrumento musical. Confesso que a falta desse talento ainda dói em mim. Quanto aos relacionamentos… não sou tão bem sucedido como esperava. E o coração… é um verdadeiro albergue que necessita constantemente de limpeza e ordem.

 

Imperfeito, indígno e despreparado. Certezas essas que me maltratam diante de uma sociedade e muitas vezes, uma Igreja, que esperam tanto minhas perfeições dançando impecavelmente nos seus palácios e púlpitos. Um dia, fiz um retiro muito libertador, entendi que perfeição é bem diferente de santidade. E mais ainda, que somente um imperfeito pode ser santo. Entendi que santidade não tem nada a ver com pureza de anjos e sim com o amor, a misericórdia, com o perdão que nos abraça antes do erro. O anseio pela perfeição sim é um obstáculo para a santidade. É egoísmo desumano e anticristão que busca ser melhor do que os outros e não o melhor para os outros. E aprendi que ser melhor para os outros muitas vezes significa apresentar-lhes nossos próprios limites e imperfeições.

 

Que vergonha sinto quando tenho vegonha de dizer quem sou. Hoje, rezo palavras minhas, canto meus próprios poemas e insisto em não ter medo de olhar com amor minhas imperfeições desabrochadas nas decepções, fracassos e desilusões. Graças à minha imperfeição, eu posso enxergar! Aprendi a pedir a Deus que eu não perca a esperança de plantar, simplesmente porque a árvore não deu frutos. Aliás, é desfrutando da sombra de uma dessas árvores que escrevo estas palavras. Esta crônica nasce de uma árvore que não deu os frutos que eu esperava. Mas, talvez, tenha me surpreendido com outros frutos, que eu não esperava.

 

E eu sigo, aprendendo a amar minha humanidade imperfeita. O Caetano me ajuda a compreender ainda mais esta realidade quando canta: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

 

E meu coração, repleto de cicatrizes, aos poucos, vai aprendendo a cantar:

 

Imperfeito, graças a Deus!

Distante de casa, perto de mim

by Bruno Franguelli,sj

 

Equipado como um mochileiro e presenteado com uma sensação de mistério, tomei a decisão de entrar pela primeira vez na Amazônia peruana para conhecer de perto o olhar indígena. Viajei em um carro superlotado que, por alguns “soles”, me levou para aquele lugar desconhecido. O motorista me deixou próximo à uma trilha que me conduzia a um rio. Com um catellano “selvagem” me disse que, chegando à margem, eu necessitava somente gritar a palavra “guaro” e assim se aproximariam alguns nativos para me ajudar “a passar para a outra margem do rio”.

 

Guaro é uma espécie de tirolesa em forma de elevador, feito pelos próprios nativos para possibilitar o acesso à comunidade nativa. Meus olhos estavam arregalados, atentos e maravilhados. Contemplando aquele “guaro” conduzido por jovens indígenas e a correnteza abaixo de mim, vinha ao meu coração uma certeza: estava sendo transportado para outro mundo! Quem sabe não foi o mesmo espanto que moveu Guimarães Rosa a escrever A terceira margem do rio?

 

No meio daquela travessia - que me custou alguns segundos e um par de  lágrimas- muitos pensamentos me vinham a mente: o sofrimento dos povos indígenas, seu amor pela natureza, sua sensibilidade e seus poucos recursos... E para um jesuíta, é claro, a nostalgia deixada pelas famosas reduções jesuíticas da America Latina. Era uma mistura de sentimentos e reverência que tomavam meu coração aberto para aquela novidade que se apresentava diante dos meus olhos.

 

Encontrei um jardim enfeitado de sonhos indígenas. Uma capela de mistérios cristãos desenhada segundo seus costumes. Salas de aula distribuídas e assombradas por um verde indescritível. Toda esta beleza era contornada com águas que cantavam suave sua limpidez. Tudo isso me transportava para séculos atrás e me devolvia para a atualidade com uma alegria transbordante. Os pés descalços e os olhares curiosos das crianças indígenas me recebiam com espanto, talvez, com o mesmo sentimento que me assombrava.

 

Me convidaram à sua mesa. Ofereceram-me uma bebida chamada “Masato”, que depois me informaram que seu ingrediente especial era saliva deles, componente indispensável para a fermentação. Tudo bem, relaxei minha imaginação “civilizada” para que meu corpo fosse hospitaleiro e reagisse com ótima digestão.

 

Passar para a outra márgem não é fácil. Mas é extremamente necessário para aquele que se sente chamado a ocupar-se de coisas humanas. Esta é a tarefa principal dos que desejam servir a humanidade: tomar o "Masato" fermentado com as lágrimas e salivas daqueles que te olham com olhos famintos e te oferecem tudo o que são e possuem.

 

Esta foi uma das marcantes experiências que vivi desde a minha chegada no Peru no segundo dia de Janeiro deste ano. Dádivas divinas que meu corpo saboreia como nostalgia-saudade do Éden concupiscentes em mim.

 

Motivos e razões para constatar que:

 

Estou distante de casa, mas perto de mim.

Beijar sem amor

by Bruno Franguelli,sj

Um dos gestos que mais reflete a beleza do que sentimos em nosso coração por alguém é o beijo. Aliás, gesto este que não considero ser exclusivo dos seres humanos. Alguns dias atrás, observei atento e atônito um momento íntimo de carinho entre duas tartarugas. Ao contemplar este incrível acontecimento, me recordava das palavras de Teilhard de Chardin: “toda a criação está amorizada por seu Criador!” E as tartarugas me provaram isso!

 

Beijar é imprimir amor no outro! Permitir que os desejos dançantes do nosso coração sejam inscritos na face ou nos lábios daqueles que amamos. É comprometer-se com quem se ama. Alguns pais costumam presentear seus filhos com um beijo no rosto. Do mesmo modo, de acordo com cada cultura, com um beijo na face costumam expressar-se as amizades mais íntimas. Já os romances se nutrem com um beijo distinto: comunhão de lábios. Quando estas atitudes se dão em total comunhão de afetos, fidelidade e entrega, elas se elevam à dignidade de sacramentos. Sim, isso mesmo, sinal visível daquilo que não podemos expressar com palavras. Quando o beijo amigo ou o beijo "eros" reflete essa comunhão, deixa de ser apenas um gesto qualquer, transforma-se em reflexo do amor apaixonado de Deus. Se você tem alguma dúvida sobre isso, basta ler as apaixonadas páginas do livro dos Cânticos dos cânticos!

 

Mas, infelizmente, existe também o beijo infecundo, estéril. Aquele que se dá sem o verdadeiro desejo de comprometer-se. É dado sem fidelidade, sem amor: o beijo precipitado da balada; do desespero solitário; sem comunhão de corações; o beijo da traição.

 

Beijo da traição...

 

Aquele que Jesus recebeu de um de seus amigos mais íntimos, que o entregou, o mutilou, o matou. Beijo este forjado no desejo de vingança, de violência, de terror. Beijo dado na noite escura do Mestre, não para consolá-lo, mas para atirá-lo para fora da vida. Talvez para os que presenciavam o beijo de Judas, aquele gesto significava apenas uma demonstração de carinho. Talvez até elogiassem a atitude de Judas. Eles não podiam ter acesso ao coração traidor do apóstolo. Mas Jesus conhecia seu íntimo, por isso, com a dor da traição do amigo, seu coração começava a morrer. O gesto que aparentava vida, na verdade era a atitude mais concreta de quem desejava a morte do amigo.

 

Os gestos em si não refletem a pureza de suas intenções. Para que sejam sacramentos eles precisam ser provados junto às ferrugens dos passos mantidos por amor e fidelidade. Estes são beijos, abraços, olhares que provocam vida, doação e verdadeira comunhão de intimidade.

 

Quando isso acontece...

 

A dor e a solidão do nosso Getsemani é suportável e há sentido suficiente para que nossos lábios continuem sorrindo. E então, compreendemos com profundidade o significado das palavras de Teilhard de Chardin:

 

“Toda a criação está amorizada por seu Criador!”

 

Um jesuíta chamado Francisco

 

by Bruno Franguelli,sj

“Se São Francisco fez isso, eu também posso fazer!”

 

Era com esse pensamento que o ex-soldado Inácio de Loyola dava seus primeiros passos na longa estrada de sua conversão. Isto se dava em um dos momentos mais conflituosos da História, entre o final do século XV e início do século XVI. E hoje, em um tempo não menos conflituoso, exatamente no dia em que se completa 400 anos da canonização de Inácio, pela primeira vez um filho seu se torna Papa e adota o nome de Francisco.

 

É verdade que nós jesuítas, nunca esperávamos que um de nós um dia assumiría a sucessão do apóstolo Pedro. Nós, que em muitos momentos da História vivemos relações tensas e difíceis com o Vaticano. Como não lembrar com tristeza os anos em que a Companhia foi supressa pelo Papa Clemente XIV? É possível encontrar nos diários dos jesuítas da época relatos que narram como foram maltratados, obrigados a deixar suas igrejas, missões e colégios. Um tempo em que toda a missão das Américas, que florescia de maneira extraordinária, foi obrigada a deixar de existir do dia para a noite. Embarcações chegavam à Europa provindas de todos os continentes lotadas de “ex-jesuítas”, desde jovens entusiastas, que haviam deixado todas as comodidades de sua vida européia para abraçar as arriscadas missões nos novos mundos, até idosos, que haviam dedicado toda sua vida nesses labores de fé é justiça.

 

E hoje, podemos olhar para este jesuíta chamado Francisco, de atitude simples e profunda, que transparece uma realidade presente em seu coração de pastor: poder é serviço! Não é uma honra para os jesuítas ter um de seus companheiros Papa. É um serviço, semelhante a tantos outros humildes e discretos, que com nossas fraquezas e debilidades, temos prestado à Igreja ao longo de quase cinco séculos. Alguns, parecem estar frustrados e decepcionados com as atitudes de simplicidade do Papa Francisco. É possível pensar que, na verdade, o que esses esperavam mesmo era um sucessor do Imperador Constantino e não o sucessor de um pobre pescador da Galiléia.

 

Como Inácio, que há quase cinco séculos dizia estas palavras, podemos repetí-las hoje juntamente com o Papa Francisco:

 

“Se São Francisco fez isso, eu também posso fazer!” 

“Não creio mais na Igreja!”

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Diante de tanto tumulto relativo às últimas notícias veiculadas pelos principais meios de comunicação sobre a Renúncia do Papa e os escândalos hierárquicos do Vaticano, afirmações como “Não creio mais na Igreja” se fazem presente em muitas vozes até mesmo no seio da Igreja. Mas, afinal, em meio a toda essa realidade, ainda faz sentido proclamar em todos os domingos: “Creio na santa Igreja Católica?”

 

NÃO! Se cremos...

 

Na Igreja como objeto da fé.

Em uma Igreja meramente institucional, regida por leis inflexíveis e exteriores.

Em um Papa que é semelhante a um semideus, um ser distinto de todos os seres humanos, dotado de poderes especiais que apartam de si qualquer sinal de imperfeição.

Em uma instituição inabalável e exclusivamente portadora da Verdade.

Na Igreja como sociedade perfeita.

 

SIM! Se cremos...

 

Na Igreja como comunidade onde se vive a fé.

Na Igreja como comunidade de ministérios que está em constante conversão.

Em uma Igreja desejosa em dialogar com o mundo atual e com seus principais desafios.

Na Igreja boa samaritana que hospeda, protege e alimenta em seu seio os mais sofredores.

Na Igreja discípula, humilde e fiel aos ensinamentos de seu Fundador.

Na Igreja do abraço e do Pão, que se alimenta da Eucaristia para que fortalecida possa reconhecer e lutar pela dignidade do homem, principalmente dos mais abandonados.

Em uma Igreja onde o poder é um serviço libertador; a fama é oportunidade para amar e a principal riqueza é apego ao Evangelho.

Na Igreja amada pelo Pai, alimentada pelo Filho, animada pelo Espírito a abrir-se sempre mais à novidade e às surpresas de Seu sopro através dos sinais dos tempos.

Em uma Igreja pobre, humana, servidora, amável, apaixonada, compassiva e necessitada de conversão.

E finalmente, em um papa humano; ministro da unidade; apegado ao espírito do Evangelho; aberto ao diálogo com o mundo contemporâneo; um verdadeiro pastor que cuida, protege e está disposto a dar, se necessário, sua própria vida por suas ovelhas.

Em um papa humano e humilde que esteja disposto a reconhecer sua debilidade e fraqueza de tal maneira que, para o bem da Igreja, livremente renuncie a este ministério.

 

E agora? Em que Igreja cremos? Vale a pena professar a fé na Igreja? Será que temos motivos suficientes para dizer:

 

“Não cremos mais na Igreja?”

 

Natal: subversão de Deus

by Bruno Franguelli,sj

 

 

"Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra. Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva a arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a ouvir-se de longe."

 

Ao invés de um poder sobrenatural, a fragilidade de uma criança…

 

"Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança bonita, de riso natural. Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece. Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares, e foge a chorar e a gritar dos cães."

 

Ao invés da seriedade de um guerreiro, o sorriso simples e leve de uma criança…

 

"A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas."

 

Ao invés de me apontar para o céu e às coisas sobrenaturais, abre os meus olhos para contemplar o mundo com o espanto de uma criança...

 

"Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer nós brincamos com as cinco pedrinhas no degrau da porta de casa."

 

Ao invés do formalismo e da gravidade, não usa gravatas e sabe contar piadas com a expontaneidade de uma criança…

 

"Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho, sorrindo para os meus sonhos."

 

Ao invés da apreciação à lei e às regras comportamentais, um apreço ao deleite, ao prazer, ao brincar despretencioso de uma criança…

 

"Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu brincar."

 

Obrigado Fernando por me deixar brincar um pouco com o teu Jesus criança…

 

"Ele será um sinal de contradição." Lucas 2,34

Natal: subversão de Deus

 

ref. Os trechos em destaque acima são retirados do "Poema do Menino Jesus" de Fernando Pessoa.

Sobre Filosofia e... Poesia

Quero partilhar contigo o discurso que fiz por ocasião da minha formatura ocorrida no último dia 30 de novembro na Faculdade jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) em Belo Horizonte-MG.
 

 

Não viver é perigoso!

By Bruno Franguelli,sj

Naquele dia acordamos bem cedo. Experimentávamos os deliciosos ares frescos das primeiras horas da manhã. O sol ainda não havia despertado. No carro, havia algumas malas e muitos pacotes com conteúdo alimentício. Ainda meio adormecido e carregando um travesseiro, entrei naquele carro que nos levaria para passar um dia inteiro na praia. Sim, era possível ir a praia e voltar no mesmo dia. Sorocaba, minha terra natal, fica a menos de 200 km de distância do Litoral de São Paulo. Era um pouco cansativo, mas ao chegar, todo esforço era compensado pelo desfrute das águas marinhas e as “farofas” que realizávamos nas areias. Éramos “farofeiros” profissionais, nada faltava na caixinha de isopor. Nos profissionalizamos ainda mais depois de alguns anos, quando compramos uma imensa tenda, que nos obrigava a chegar cedo para ter nosso barraco garantido no pedaço mais badalado e privilegiado da praia. Naquela manhã, enquanto meus pais descarregavam toda aquela parafernália, corri ao encontro das águas. Sempre amei o mar. tem tanto mistério dentro dele... Porém, mistérios possuem limites quando podem prejudicar nossa existência. Foi assim que me deparei com uma placa fincada na areia que nos advertia: “Perigo!” A partir desse momento, meu amor pelo mar começou a conter uma dose considerável daquele sentimento tão indesejado, mas sempre presente em nós: o medo.

 

Poetas e filósofos já nos disseram que viver é muito perigoso. O Guimarães colocou isso na boca do Riobaldo. Sartre também afirmou a mesma realidade. Porém, gostaria de dizer a eles que me deixam com medo quando fazem este tipo de afirmação. Se o desejo deles é que eu viva mais intensamente, digo que o efeito que causam em mim é justamente o contrário. Quando ouço ou leio uma afirmação dessas sinto o mesmo pavor que tive ao me deparar com aquela placa na praia. Quando sabemos que o perigo está à nossa frente, nada nos resta senão fugir. E quando nos é dito que viver é perigoso... para onde correremos?

 

Penso nas expedições que chegaram ao Brasil no século XVI, também naquela máquina genial de Santos Dumont. O que seria deles se fossem dominados pelo medo? Não gostaria de te passar a impressão de irresponsável ou mesmo ingênuo diante da realidade. É claro que sei qual é o motivo que fez “salva-vidas” fixarem aquela placa na areia da praia. Anúncios desse tipo são produzidos por pessoas que zelam pela vida dos outros. Todos sabemos disso. E isso é louvável. Desejo que cada dia mais os perigos reais sejam anunciados e postados em todos os lugares para nos proteger. Porém, por favor, não digam que viver é perigoso!

 

“Não viver é perigoso, seu moço”, modificando o Riobaldo do Guimarães. Viver é uma delícia! Os perigos existem, mas não estão no viver. Eles estão justamente no contrário: no não viver! Conheci gente que nunca se permitiu tomar banho de mar e depois rolar na areia feito "bife à milanesa", justamente por que teve medo. Encontrei-me com pessoas que justificam seu fechamento à um relacionamento amoroso, porque permitiram que outros destruíssem seus sonhos de amor. Há muitas pessoas - e possivelmente você e eu - que não viveram experiências marcantes na vida porque o medo os roubou deles mesmos. Moramos próximos a precipícios justamente porque muitas vezes nos negamos viver e acabamos optando pelo medo. É por isso que acho tão bela e verdadeira a afirmação: “O oposto da fé não a dúvida, mas o medo. E o sinônimo da fé é a coragem.”

 

Perigoso sim, é andar na contra-mão dos nossos afetos. Reprimir desejos tão vitais como a experiência do amor. Perigoso é se desfazer da liberdade de viver. Não estender as asas para voar por medo. Forçar sorrisos pelo temor do choro. É um perigo congelar o coração pelo temor do desequilíbrio. Agora, a vida que a existência humana oferece, dizem os autores sagrados, é invejada até pelos anjos. Viver é... Poxa, difícil conceituar. Vou tentar de novo.

 

Viver é...

 

É...

 

Bom, se desejar dar sua definição do que significa viver nos comentários abaixo, fique à vontade.  Espero que essas palavras tenham soprado coragem nos teus olhos/ouvidos: não viver é perigoso!

Convites rejeitados: uma oportunidade para amar diferente

by Bruno Franguelli,sj

 

 

“Um homem estava dando um grande jantar e convidou os seus amigos. Mas todos, unânimes, começaram a se desculpar...”

 

Quando estamos ao lado de alguém que amamos, qualquer lugar que seja se transforma em paraíso. E quando se está no paraíso, cada instante é motivo mais que suficiente para celebrar a existência. Recordo-me do título de um instigante livro de Thomas Merton: “Homem algum é uma ilha”. Uma das afirmações mais lúcidas que já ouvi sobre o ser humano. Não somos uma ilha isolada, mas arquipélago ornado de cores, sons, aromas, sabores e amores.

 

Penso na estória que Jesus contou. Jesus não dizia coisas abstratas. Ele falava do homem, da vida, do dia-a-dia. Jesus partilhava do seu coração, das coisas que o moviam. Esse é o segredo para quem deseja romper com a superficialidade diante dos outros. E claro, isso custa caro. Nessa estória o Nazareno conta de alguém que amava seus amigos e queria partilhar-lhes desse amor.  Era homem que descobriu-se arquipélago. Por isso, preparou um banquete de festa. Tudo foi preparado nos mínimos detalhes. Quando se ama, se faz o melhor. Mas, no momento de se concretizar a festa, seu convite é rejeitado pelos seus amigos. Sua festa se transforma em pranto. Seu sorriso em silêncio. E no coração, aquela certeza: sem os que amo ao meu lado, minha festa não pode acontecer!

 

Em algum momento da vida, dificilmente alguém não viveu experiência semelhante. Fazer um convite é dar um passo além de nós mesmos. O ato de convidar nos confronta com uma resposta que não podemos controlar nem manipular. É um salto no escuro, pois não nos garante reação alguma. Quando a resposta é positiva, nosso coração se enche de festa, a alegria está pronta para, ao modo do pequeno príncipe, se iniciar bem antes do momento do encontro. Porém, se a resposta não nos chega ou é negativa, nos deparamos com o fracasso, com aquela dor insuportável que lota os consultórios terapêuticos: o sentimento de rejeição.

 

É neste momento que o desfecho da estória de Jesus vem em nosso socorro:

 

“Assim disse o homem: se aqueles a quem eu amo não aceitaram meu convite, vou em busca daqueles que não tem ninguém que os ame, desejo que minha casa esteja repleta”.

 

É interessante perceber que este homem conseguiu superar as dores do seu coração ferido. Foi além, teve um olhar diferente sobre a situação. Ao ser rejeitado, seu coração se abriu para experimentar o amor de uma maneira nova.  Sua rejeição se transforma em graça. Seu pranto, em alegria. Se Descobre arquipélago mais uma vez. Percebe-se capaz de continuar amando. O NÃO de seus amigos permitiu-lhe responder SIM ao convite daqueles que realmente desejavam desfrutar da sua companhia, comer do mesmo pão e saciar-se de seu banquete de festa.

 

Assim seja em mim, assim seja em ti. Se alguém nos disser NÃO, que saibamos doar nosso SIM! Deste modo, não seremos ilhas solitárias e conseguiremos superar as dores causadas pelos...

 

convites rejeitados.

Carpe Diem: sobre a ressurreição dos poetas mortos

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Recordo o dia em que meu pai comprou um videocassete. Aquele aparelho era uma raridade. Poucos tinham. A compra foi feita com suavíssimas prestações de vários anos. Esse era o preço da alegria de poder assistir a filmes diferentes daqueles que passavam na televisão. Foi o dia em que nos libertamos de “A lagoa azul”. Mas, para isso era necessário ter o nome “limpo” antes de fazer uma ficha na locadora. Locar filmes recém-lançados era mais caro que alugar antigos. Além disso, eram super disputados. Sexta feira era o dia certo para correr em alguma locadora o quanto antes e conseguir aquele filme que tinha estado em cartaz nos cinemas há dois anos. Não podíamos esquecer de entregá-los no dia correto. A multa dos “lançamentos” era muito cara. Quem nunca pagou também alguma multa por devolver filmes sem rebobinar? Naquele tempo, para assistir a um filme os desafios eram muitos.

 

Hoje as coisas mudaram. Vivemos imersos em chuvas de filmes que diariamente invadem nossos olhares através da internet com toda facilidade. As locadoras desapareceram. Podemos ter acesso em poucos segundos a tudo que desejamos. Filmes são produzidos de maneira desenfreada. Temos acesso a mundos que outrora era quase impossível conhecer. Um ganho fabuloso para a humanidade!

 

Mas, resisto, volto a locadora! Sigo em direção às estantes temáticas, que são inúmeras. Hoje, não estou em busca dos lançamentos. Corro em direção aos clássicos. Encontro-os num canto qualquer, quase escondidos, esquecidos. De repente, um filme salta da estante e atinge deliciosamente a minha memória afetiva: “Sociedade dos Poetas Mortos”. Nesse instante, meus pensamentos se unem aos afetos e começam a dançar... Sou transportado para uma outra época, um outro lugar. Sinto-me rodeado de jovens ousados que buscam numa gruta um lugar seguro apara se aventurarem nas asas da poesia. Ao meu lado, vejo um professor que me ensina a voar. Escuto seu assovio. Perto dele não me importo, exporto meus primitivos ideais. Sinto-me criança se espantando com a vida. Sou atraído a viver.

 

Tenho amigos bem perto de mim. Ao ouvir as vozes livres que transbordam da gruta não me sinto só. Sinto e penso: a amizade é união de almas solitárias! Interesses intranqüilos se acampam entre nós. Sinto-me parte de alguém. E sei que alguém sente-se parte de mim. Os poetas ressuscitam de novo. Somos sopros de poesia. À minha frente, um poeta querendo ser livre. Deseja expressar seus sonhos em teatro. Se apaixonou pela vida, mas as garras dos exterminadores de beleza lhe roubaram seus sonhos de amor. Entra na morte em busca de vida. Porém, está agora diante de mim. Ressuscitado. Entendi que poetas não morrem nunca.

 

Faça de cada instante extraordinário! Volto à "lucidez". Nem gruta com jovens poetas, nem locadoras diante de mim. A realidade é outra. Mas estaria eu distante da lucidez? Ou estava submergido pela realidade e agora fui transportado para o comum, o padrão, para os instantes sem cor e com poucos risos que costumam chamar... vida?

 

"Ó capitão! Meu capitão!"

CARPE DIEM!

Sobre chicletes e jabuticabas

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Quando criança, eu mantinha um vício que era sempre advertido pelos adultos: engolia gomas de mascar. Aliás, vícios são incógnitas difíceis de decifrar. São absolutamente prazerosos quando praticados, mas dizem que causam efeitos indesejáveis no futuro. Mas eu vivia o meu vício infantil, sem o menor peso na consciência. Ganhava um pacotinho com delícias de todos os sabores: morango, uva, maçã verde, cereja - que, aliás, não sei de onde inventaram este sabor tão diferente do gosto da fruta - e ficava desfrutando daquele sabor que se misturava a minha saliva. Quanto Prazer! Assim como costumamos fazer com todas as coisas que consideramos gostosas, eu desejava possuir, eternizar aquele prazer em mim: engolia. Quanto engano! O sabor se acabava e era preciso desembrulhar mais uma borracha com sabor, mais outra, só mais outra... Era nesse momento, de total descontrole do sabor, que apareciam diante de mim os olhos violentos dos adultos desaprovando meu Prazer.

 

Com o passar do tempo, fui percebendo que tudo aquilo que achava gostoso os adultos me proibiam de fazer. Quantas vezes meus pais me levavam a festas de casamento em chácaras com piscinas e me impediam de botar ao menos a mão na água! Não conseguia imaginar como aquele mundo de gente, com seus perfumes baratos e penteados de curta duração, não se davam ao prazer de mergulhar naquele mundo de sonhos e fantasias que a piscina oferecia. Na verdade, cheguei à seguinte conclusão. Concluí ao meu favor, é claro, que todos eram doidos para imergirem seus corpos no Prazer da piscina. Entre eles e eu existia apenas uma diferença: eles não tinham coragem para isso! É certo que na mesma festa havia crianças comportadas, com vestes solenes e olhares arrogantes. Mas eu não era nada comportado. Não queria ser. E, assim, vez ou outra um adulto chato me dizia: Bruno, observe como eles são bonzinhos! Eu dizia bem baixinho: eu hein, ser bonzinho é ser desse jeito? Não quero fazer parte dessa equipe de mimados!

 

Veio a adolescência, a fase na qual os vulcões começam a entrar em erupção; primeiro, com lavas descoloradas e misturadas com a terra; depois com excrementos mais pastosos e terrivelmente arrasadores. E, de fato, arrasaram minha infância inocente, com meu jeito de ver as pessoas, o mundo - que era tão pequeno. A fantasia da piscina vazia deixou de existir para mim. No meu corpo, começaram a aparecer coisas esquisitas. Quanto mistério sendo revelado ao mesmo tempo! Eu ficava imaginando até que ponto aquilo tudo era bom ou não. Seria só comigo? E comecei a perceber uma mudança na voz. Será que teria vocação de locutor?

 

Música, Igreja, teatro, parque de diversões, circo, filmes, amigos, coca-cola... Essas palavras se tornaram mágicas num caderno de apenas doze páginas. Estavam presentes no meu tabuleiro de prazeres. Aprendi com o tempo sobre a sabedoria da pinguela. Já atravessei muitas. É aquela pequena madeira que pode servir de ponte, presente em muitas trilhas ecológicas e favelas. Mas pinguela também pode significar gancho ou pequeno pau com que se armam ratoeiras, armadilhas, arapucas. Creio que o Prazer é como uma pinguela. Posso servir-me dele para encontrar o caminho da realização e da vida ou ser capturado pelo seu gancho escravizante. Contudo, como vou saber se minha pinguela é madeira que me conduz ao infinito? O desafio está lançado! Não há respostas nem receitas. O que tem de haver é um certo senso para saber se a piscina está em condições seguras para ser usufruída. E, depois, a coragem para desfrutar de sua magia. Lembro das palavras de Nietzsche:

 

“Olhei para este mundo - e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura, dourada, maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu...”

 

Os tempos passaram e continuam passando sem parar. As delícias da infância e os temores da adolescência ainda se fazem presentes de algum modo. Passei por muitas pinguelas que se destroçaram pelo caminho. Trago no meu corpo cicatrizes dessas quedas. Algumas até já desapareceram, deixaram de existir. Minha mãe sempre dizia: depois não diga que eu não avisei! Por isso, obedientemente eu digo que ela me avisou. A vida se oferece toda, e me sinto cheio dela, quero navegar por todos os mares, descobrir todos os atalhos. Tenho sede e quero beber toda a água! Como dizia Adélia Prado: “Não quero pão, eu quero é fome!” Pois, que seriam dos pães, chicletes, jabuticabas, piscinas, sonhos..., se não houvesse o desejo impulsivo de desfrutá-los? Posso imaginá-los chorando de solidão no cantinho escuro de uma festa de casamento onde todos estão forçados a olhar somente para a felicidade fotografada dos noivos. Esqueceram-se de que as crianças estão por lá.

 

Quero entrar na piscina, engolir chicletes, saborear jabuticabas debaixo do pé... Vou plantar um pé dessa fruta maravilhosa. Um dia ela me presenteará seus frutos, eu sei que vai. Quero plantar esperanças, buscar ser feliz na travessia da pinguela. Pois sei que ela me conduz, com as marcas dos tombos e cicatrizes no corpo, ao sonho que tenho desde criança: tocar o Infinito com as próprias mãos!

Dar atenção à dor

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Já faz algum tempo que pousei os olhos sobre A insustentável leveza do ser. Fiquei impressionado com o realismo presente em cada página. É uma trama repleta de amor. Presenciei naquela história um amor que dói. De fato, os poetas costumam dizer algumas coisas bem distintas sobre o amor, porém em algo eles não divergem entre si: o verdadeiro amor costuma doer. Alguns até afirmam que sem lágrimas não existe poesia. Concordo com eles. Raramente escrevo sem lágrimas. Provindas de decepções ou conquistas, elas sempre se fazem presente em mim ao escrever. A diferença entre os poetas e outros escritores é que aqueles dão atenção à sua dor.

 

Depois, foi a vez de me encontrar com o amor em Cem anos de solidão. Lá, novamente mergulhei numa profunda história centenária de amores doentes. As gerações passavam, mas as tramas viciosas do amor se repetiam. O amor não tinha novidades. Era um eterno retorno das mesmas histórias sem cor, sem cheiro, sem vida que passarinhavam na vida daqueles personagens. Eram solidões que se encontravam para doer juntas. Eram silêncios atordoantes que modelavam as feições tristes. O amor, para durar, precisa suportar a dor das ausências.

 

Parece que não temos escolha. Ou amamos e nos tornamos vulneráveis, ou nos desertificamos com a aridez de desconhecermos a capacidade de nos entregarmos ao amor. Os ecos dos relacionamentos que vivemos ao longo da vida revelam o quanto este amor nos fragmentou. Parece que quanto mais inteiros nos dispomos a amar, mais fragmentados nos encontramos. Isso por que a experiência do amor nos revela que somos muitos. Talvez fosse por essa razão que Stalin decretou proibição a poemas amorosos durante o seu fascismo. Poemas de amor nos empurram para dentro nós mesmos. Ao desfrutarmos dessas “palavras amorizadas”, damos atenção às nossas dores e dificilmente não nos perdemos ‐ ou não nos encontramos - e nos refugiamos em algum escombro outrora desconhecido. Pessoas enrijecidas, autoritárias, envolvidas com anseios ditatoriais, temem sucumbir aos deleites do amor. Amar é render‐se ao mistério do desapoderar­â€se.

 

Milan e Gabriel falaram seus fragmentos na boca dos próprios personagens. O escritor, ao dar atenção às suas entranhas, distribui, desde seu eu mais profundo até o mais superficial entre suas criaturas literárias. Desse modo, ao ler uma “estória”, participamos de um ritual antropofágico. Somos alimentados com as vísceras daquele que se desnudou diante de nós para nos dar de comer. Ao dizer isso, penso que você e eu estamos, de algum modo, participando do mesmo ritual.


Queria ainda falar de Dostoievski, Machado, Victor, Neruda, Nicholas, Adélia, Rubem, Clarice, Camões e de tantos outros. No entanto, eles nos alimentarão em outro momento. Vou congelá‐los para outro ritual. Quem sabe por mais cem anos? Temo que te faça enjoar. Ainda que seja saborosa, qualquer exagero nessa antropofagia coloca‐me em risco. Temo te satisfazer e te perder! O amor é leve, porém insustentável. 

SOBRE CIRCOS E OUTROS ESPETÁCULOS

by Bruno Franguelli,sj
 

“Garcia júnior” era o nome dele. Chegava em cortejo através de muitos caminhões velhos e sujos de barro originário de outros bairros. Eu ficava debruçado na janela da casa de minha avó com os olhos arregalados vislumbrando cada movimento das inúmeras pessoas que descarregavam aquela parafernalha. O mesmo matagal onde eu depositava com os amigos meu brincar nas horas infantis se transformava em palco de uma das coisas que mais amava: o circo!

 

Não havia pompa alguma. Eram paupérrimas as condições do circo. As mesmas pessoas que trabalhavam duro para levantar a lona furada de céu eram as que atuavam no picadeiro. Havia sim, uma personagem especial, jamais revelada antes do espetáculo. A mais esperada. Tinha até um trailer próprio para morar que ficava estacionado a poucos metros da janela onde eu me debruçava. Essa personagem bizarra era a terrível “mulher montanha”. Uma senhora de uns cinqüenta e poucos anos portadora de umas toneladas de peso. Sua atuação consistia em enfrentar os homens fortes e convidar alguns da platéia para que também disputassem forças com ela. Eu morria de medo da “mulher montanha”. Mas era como um daqueles medos que nos dá prazer. Como nos “trem fantasmas” de parque de diversões. Era só a mulher montanha ocupar seu espaço considerável no picadeiro que aquele frio na barriga me tomava. Certa vez, aquela criatura medonha se aproximou de mim. Não resisti, me escondi no buraco da arquibancada de modo que minha avó, companheira de circo, ficou desesperada com minha fuga. Foi assim que ela encontrou um meio poderoso para que eu não aprontasse tanto: - Eu vou chamar a “mulher montanha”!

 

Esses fatos me tomaram dias atrás, no momento em que estava desfrutando de uma boa conversa com um amigo em um restaurante e apareceram alguns palhaços. Eles provinham de um certo circo itinerante. A apresentação deles era bem curta. Consistia apenas em alguns malabarismos e artes bizarras com fogo. No entanto, eles tocaram em uma das maiores paixões da minha infância. Reencontrei-me com um dos meus mais antigos sonhos: ser palhaço...

 

Sim, eu amava os palhaços! O que mais me agradava nesses brincalhões era a capacidade que tinham de sorrir e provocar risos nos outros. Eram pessoas de outro mundo, imaginava. Nunca estavam tristes. Pelo menos eu nunca os vira senão sorrindo. Nos carnavais meu deleite era ser vestido como um deles. Minha mãe passava dias preparando a fantasia. Era linda, ela não só fazia com carinho, mas com perfeição. Nos concursos, sempre ganhava o primeiro lugar. Esses acontecimentos ainda sobrevivem nos troféus empoeirados de uma infância feliz.

 
No entanto, (Parei de escrever, fui olhar novamente uma foto e...), me assustei com algo que jamais havia prestado a atenção até então. Percebi que na maquiagem feita por minha mãe havia algo muito estranho: pouco abaixo dos olhos se encontrava desenhada uma estrela e, ao lado dela, uma lágrima. Minha nossa – pensei - minha mãe é “poeta”! Não era apenas uma maquiagem, era um poema escrito com desenhos e cores em mim. Eu, que pensava somente nas alegrias do palhaço, apresentava-me diante dos outros como um palhaço que admitia rir e chorar.
 

Está sendo tão espetacular esta descoberta para mim... Estou dizendo isso por que faz apenas alguns minutos que alcancei tal descoberta. Comecei a escrever imaginando outro desfecho. Porém, a liberdade me trouxe até aqui. Nem sei mais como continuar o texto. E acho que tenho de finalizá-lo. É tão triste terminar um texto com o sentimento de que as ideias não acabaram e ainda se tem muito a escrever. Mas, é ainda mais frustrante terminá-lo quando se acredita que ele realmente chegou ao fim. Este não terminou, acho que não vivo tão grande dor.

 

Agora conheço a tristeza dos palhaços. E sei que eles não usam a maquiagem o tempo todo. Hoje, se eu debruçar na janela da minha avó, tenho a infeliz certeza de que o "Garcia Junior" não pode mais voltar. O campinho com matagal não existe mais, provavelmente nem o circo. Tudo isso por que as crianças de hoje não querem conhecer o circo. Elas nunca saberão como é sentir medo da “mulher montanha”. O motivo dos choros talvez sejam os mesmos, porém o dos risos não são.

 

Acho que essa crônica termina sem terminar...

 

Vou me debruçar sobre a janela...

 

 

“E agora ...? A festa acabou...”

by Bruno,sj

 

“Bruno, durma durante o dia para que consiga ficar acordado até a festa começar!”

 

Essas eram as palavras com que minha mãe, sabiamente, me advertia durante todos os “24 de dezembro”. Quem me conhece hoje pode até não acreditar, mas dificilmente eu mantinha os olhos abertos depois das 10 horas da noite. Do sono,  sempre fui amigo. Aqueles que visitam o álbum de fotografias do meu batismo verão que esta íntima amizade começou ainda muito cedo. Nem a fria água batismal derramada sobre minha cabeça conseguiu me despertar. Tenho fotografias com quase todos os parentes, porém, para a infelicidade do fotógrafo, fotos sem sorrisinhos banguelos, sem caretas, sem carinha inusitada. Em todas elas eu permanecia com a mesma feição: rosto enrugado de tanto dormir!

 

Voltando ao dia 24 de dezembro... de um ano que não me recordo. Acho que tinha uns 6 anos. Depois de ouvir aquela advertência da minha mãe durante o dia, anoiteceu. Estava desperto como nunca para ver o papai Noel chegar. Minha mãe e avó mantinham essa magia muito viva em mim. Lembro-me até do tom gritante de suas vozes me chamando para o lado de fora da casa para ver o bom velhinho no seu trenó passear entre as estrelas. A verdade é que eu nunca consegui encontrar o sr. Noel. Quando eu entrava em casa, ele já tinha ido embora. Mas, sempre costumava deixar algum presente simples em cima da cama. Rastros de alguém que escutava meu sonho infantil.

 

Naquela noite de Natal nem isso aconteceu. Lembro-me que faltavam apenas 15 minutos para a meia-noite. Estava desfrutando do colo da minha mãe e por um segundo, vi-me conduzido para outro lugar, muito distante de qualquer festa. Era um sono tão pesado que me fez ignorar toda aquela barulhada. E assim, dormi intensamente... De repente, acordei e não havia mais barulho algum de festa, nem brincadeiras, nada restava daquele momento. Todos ainda dormiam. A noite tinha sido longa para eles. Fiquei indignado e triste. A festa tinha acabado completamente.

 

Lembrei-me desse fato quando pensava em escrever algo sobre os 25 anos que estou completando. Sinto-me um pouco como aquele Bruno ainda menino que dormiu enquanto a festa acontecia. Não que a festa já tenha terminado, mas os encantos da infância, as descobertas da adolescência, os anseios do início da juventude, essas coisas sim terminaram e eu preciso dizer adeus a elas. Tudo passou tão rápido! Ainda continuo saindo de casa para olhar as estrelas, mas não para esperar papai Noel, e sim, para que a beleza delas faça-me refletir sobre os rumos que tenho tomado na vida. Hoje sei, e aprendi à duras penas, que a vida não pode ser feita somente de festas e eventos. Esses passam como fogos de artifício. Todas as festas terminam. Todos os eventos são portadores de uma segunda-feira solitária que nos convoca a recolher o que sobrou e retomar os desafios do cotidiano da vida.

 

Já não posso desfrutar do colo materno em meio aos brigadeiros, enfeites e bolos decorados. O curso da vida que decidi habitar me fez hóspede na casa dos meus pais. E isso é ainda mais evidente neste momento em que deixo o Brasil para habitar terras andinas e mergulhar em mares pacíficos. Vejo diante de mim um novo ciclo de existência clamando para ser assumido. Não estou mais na partida e nem na chegada, vivo a travessia, na terceira margem do rio. E isso me faz crer com Nietzsche que a poesia é real, pois não sobrevivemos de conceitos, mas respiramos metáforas para suportar a existência. Sou transeunte de um mundo ainda por ser descoberto. Tomar posse de mim mesmo tem sido um árduo acontecer. Colonizar-me é atalho seguro para construir-me humano.

 

Nesta etapa da vida, trago um coração cheio de nomes. Rostos que transfiguraram meus dias, provocaram afetos. Braços que me acolheram, perdoaram, compreenderam. Mãos que se estenderam, levantaram, indicaram a direção. Olhos que me retiraram do anonimato de um existir pueril.

 

Amanheceu, a festa parece ter acabado para quem não se economizou. Fito meus olhos no espelho. Eles ainda estão inchados dessa noite sonolenta. As andanças da vida que deixo para trás me provocaram rugas. Tento escondê-las. Não consigo. Tento amá-las: cicatrizes de passos apaixonados dados num dia que não voltará jamais. Não posso ficar do lado de fora da vida. Preciso fazer poesia! Não somente escrever, mas respirar, tocar, cheirar, saborear, viver... Deus.

 

25 anos...Prazer...

 

Ouço novamente a voz recomendante de minha mãe:

 

“Bruno, prepare-se, a festa vai começar!”

 

Sim, mãe, pode deixar, dessa vez prometo te escutar. Hoje, estou um pouco menos imaturo e aprendi, que preciso me preparar também para sobreviver ao fim da festa. Aquele momento em que o empolgante ritmo da música cessar e a algazarra desaparecer no leito de um silêncio total... e de algum lugar se ouvir uma voz sussurrando: “E agora ...? a festa acabou...”

Aos jovens, sobre o "moralismo" na Igreja...

By Bruno Franguelli,SJ

 

Esta carta nasceu dentro do seguinte contexto:

Estava passando alguns dias em missão nos EUA e chegaram-me muitas mensagens de jovens pedindo ajuda. Eles haviam assimilado pregações moralistas e estavam passando por sérias dificuldades. Alguns estavam desesperados a ponto de desistir da vida na Igreja por se sentirem indígnos. Em outros, o desespero era tão intenso que para eles a vida perdera o seu sentido. Como "jovem pastor", eu não pude me calar e escrevi a seguinte carta:

 

"Queridos jovens cristãos católicos,

 

Cada vez mais estamos sendo bombardeados com tantas ideias, pensamentos e afirmações tão distintas sobre Deus e a Igreja. O facebook é um grande veículo para isso. É verdade que existem mensagens consoladoras que exalam confiança e alegria. Mas é também verdade que o Evangelho está sendo usado para nos oprimir e julgar as nossas dificuldades e limites.

 

Pregações moralistas, radicalistas (diferente de radicalidade) e opressoras comprometem o nosso amor à vida, à beleza da criação, à Deus. Essas não nos ajudam a conhecer a beleza da sexualidade e a superar suas dificuldades e desafios. Tais pregadores impõe-nos fardos pesados e obrigam-nos a fazer o que eles mesmos não são capazes de cumprir. Esses chamam de santidade a pureza dos anjos e se esquecem que Deus não nos fez anjos, por isso não nos quer assim.

 

É muito triste perceber que as páginas libertadoras do Evangelho se transformaram em regras de moralismo no microfone de muitas comunidades cristãs. Sim, desse modo as palavras de Jesus são corroídas pelo jogo sutil de falácias que escravizam o cristão e reduz a sua visão. Jovens, precisamos “salvar” o Evangelho, amar a nossa humanidade, nos comprometer com os grandes desafios que desumanizam nosso mundo.

 

Nossa Ética não está em um livro, não pode ser escutada "simplesmente" em belas reflexões sobre documentos. Nosso código de Ética é uma pessoa e tem um nome: Jesus! Como Igreja que somos, precisamos viver em constante atitude de discernimento. É muito mais fácil seguir regras, difícil mesmo é discernir.

 

Por isso, jovem cristão, um apelo aqui fica pra você. Ao ler uma mensagem, assistir a um vídeo ou a uma pregação, comece a se perguntar: essas palavras são libertadoras ou opressoras? Elas são fiéis àquelas que foram pronunciadas na Galiléia, Samaria e Judéia por aquele Jovem que jamais julgou alguém e amou incondicionalmente até o fim?

 

Bruno Franguelli,SJ

Nova Iorque, 25 de fevereiro de 2012"

Solitários e solidários!

By Bruno Franguelli,SJ

 

 

 

"Ouvi de seus próprios lábios palavras encharcadas de dor. Queria me descrever o que sentia, mas não conseguia. O intervalo silencioso de seus soluços era como leito, aí repousavam gritos. Sua respiração era ofegante. Nos seus olhos transpareciam as desesperanças. Seu rosto estava sem cor e pelas rugas escorriam lágrimas desejando alcançar o chão. Sua voz era apenas sussurro desgastado de tanto doer. A verdade era que havia experimentado a dor como nunca."

 

Alguém muito inspirado disse que só o sofrimento humaniza as pessoas. Me assustei com essa afirmação. Ela é dura demais. Há palavras que são tão difíceis de suportar... Eu estava no aeroporto de Salvador, comprei um livro de bolso para tentar suportar as pausas do tempo: Noites brancas de Dostoiévski. O livro exala um sofrimento insuportável. Cada página está envolvida com criativas dores, concebidas todas no útero de um amor que não aconteceu. Escritores geralmente são especialistas em sofrimento. Criam personagens para distribuir neles suas própria dores. Fazem sucesso, transformam-se em clássicos por que conseguem dar nome aos seus sofrimentos e cunham respostas para tornar suportáveis as dores do mundo.

 

Das lições que constantemente aprendo do sofrimento, a que ao meu ver é a mais sublime é a solidariedade. O sofrimento nos faz solidários com aqueles que sentem a mesma dor. Quando sou incompreendido, sinto-me parte de uma imensa multidão de homens e mulheres que são injustiçados. Se meu amor não é correspondido, posso unir-me a tantas pessoas que choram a dor que o amor lhes causou. O sofrimento nos une profundamente ao processo divino da humanização. Quando me sinto solitário, Deus parece fazer-me solidário com aqueles que não tem ninguém por eles. Aqueles homens e mulheres que são tratados como se não tivessem nome nem história, que sujam nossas ruas e praças com sua insignificância humana, como se fossem culpados por sua existência pueril.

 

Se uma lágrima escorregar pelas curvas do teu rosto, saiba que ela se une a muitas outras e juntas se transformam em mananciais de vida, de vida verdadeira. 

Inácio de Loyola: um santo distante da perfeição

by Bruno Franguelli,sj
“Fez pássaros ressuscitarem! Foi arrebatado ao coro dos anjos! Recebia diariamente o menino Jesus em seus braços...” Desculpem, mas a vida do santo que desejo aqui relatar não possuí nenhum desses portentos gloriosos. Além disso, sua aparência nem era tão atraente. Ele era manco, por isso caminhava com dificuldades. O que será que de fato pode atrair nossa atenção nesta figura emblemática chamada Inácio de Loyola?

 

Vou tentar responder. Mas, não pretendo relatar a vida desse homem a partir de suas virtudes. Acho que já estamos fartos de saber sobre histórias virtuosas na vida dos santos. Me perdoem, mas vou fazer o caminho inverso. Pretendo relatar os seus limites e imperfeições. E já vou dizendo de partida que perfeição é bem diferente de santidade. Aliás, uma é oposta à outra. Enquanto a perfeição é o estado em que a pessoa está voltada para si, para o seu sucesso, diferentemente, a santidade está dirigida totalmente para o outro. Na santidade, o outro é sempre o mais importante. Sobre essa riqueza, podemos aprofundar em outro momento.

 

Voltemos a nossa história das imperfeições de Inácio... Primeiro, era um homem ambicioso ao extremo. Considerou “fichinha” imitar são Francisco de Assis. E mais ainda, depois de incluir os mais rigorosos santos praticantes de penitencias e sacrifícios na sua lista de imitação, achou-se forte o suficiente para superar a todos. É importante ressaltar também que, como muitos de nós, Inácio achava que os olhos de Deus não tinham pálpebras e estava a todo tempo vigiando seus pensamentos e ações, mesmo as mais banais. Por isso, tratou de fazer uma confissão que teve somente três dias de duração.

 

Outro fato interessante foi o encontro “amistoso” que ele teve com um mouro durante sua caminhada para Jerusalém. Ao ouvir algumas besteiras que o mouro dizia a respeito da Virgem Maria, Inácio encheu-se de tanta raiva que após o mouro partir, deixou seu  futuro nas “mãos” da sua companheira mulinha. Vou explicar como Inácio fez isso. Assim “raciocinou” Inácio: se a mula entrasse na cidade por onde fora o mouro, Inácio iria apunhalá-lo. Caso contrário, ou seja, se a mula seguisse por outro caminho, então ele seguiria em frente e deixaria o mouro em paz. Ufa, a mula foi mais inteligente e decidiu lutar pela paz no mundo. Gostaria aqui de abrir parênteses e fazer um agradecimento inusitado a esta mula que permitiu que o meu fundador saísse dessa, são e salvo. Certamente ninguém lembra de você mula, mas todos sabemos que sua ação foi de extrema importância para que nós jesuítas pudéssemos existir. Sem seu ato heróico não existiria a Companhia de Jesus. Temos certeza que por esse feito, você agora goza de um espaço privilegiado dentre os animais no Reino dos Céus! Quem sabe ao lado do jumentinho que conduziu Jesus!

 

Bom, feitas as devidas homenagens, voltemos ao nosso santo. Ao chegar em Jerusalém, Inácio se encantou com todos os lugares. Afinal, o próprio Senhor Jesus tinha pisado naquele chão. Inácio ficava por horas contemplando aqueles espaços, aquele solo tão sagrado. Na verdade, se apaixonou tanto pelo lugar, que decidiu viver o resto da sua vida ali ajudando as pessoas. Quem sabe sendo guia espiritual de peregrinos desorientados. Mas, não diferente de outros tempos, era tempo de guerra naquela região. O superior franciscano pediu que Inácio se retirasse o mais rápido possível daquele lugar. Inácio resistiu ao máximo. Precisou sair de lá à força. Foi expulso humilhantemente carregado pelos guardas. E para demonstrar sua teimosia e subversão, enquanto era carregado, ainda sorria como uma criança que não se importa em ter seu pirulito arrancado de suas mãos. Dessa vez, meus sinceros agradecimentos vão para o provincial franciscano e os guardas que retiraram Inácio de Terra Santa há tempo. Como a mulinha, graças à vocês também, hoje podemos nos dizer jesuítas.

 

Bom, chega por hoje. Santo Inácio pode ficar zangado comigo. E alguns companheiros jesuítas também. O que importa diante disso tudo é saber que, ainda que nosso santo fosse dotado com todas essas imperfeições, Deus fez de Inácio um homem profundamente humano, e por isso mesmo, profundamente santo. Inácio, como ele mesmo disse, “era ensinado como um aluno o é por seu professor”. Se você deseja aprofundar a história de Inácio, vai uma dica. Você não verá nada de extraordinário na vida dele se procurar fatos mirabolantes em sua história. Mas, se você procurar enxergar a história de Deus na vida de Inácio, cada palavra de sua autobiografia e de suas cartas, cada ensinamento nos seus Exercícios Espirituais e nas Constituições da Companhia de Jesus se tornarão absolutamente extraordinários diante de seus olhos.

 

Inácio, sinceramente, me desculpe, mas se você fosse o santo das penitências e dos jejuns talvez, com um esforço ou outro, até fosse mais fácil imitá-lo. Mas, você se deixou escrever por Deus como um papel em branco, doando toda sua liberdade para Ele. Ah, e isso é tão difícil de imitar...

 

“Tomai Senhor e recebei

Toda minha liberdade, a minha memória também,

O meu entendimento e toda a minha vontade.

Tudo o que tenho e possuo

Vós me destes com amor.

Todos os dons que me destes

Com gratidão Vos devolvo.

Disponde deles Senhor

Segundo a Vossa Vontade.

Dá-me somente o Vosso Amor, Vossa graça.

Isto me basta, nada mais quero pedir.”

 

Amem.

"O NOVO ANTICRISTO"

by Bruno Franguelli,sj

 

Alguns amigos e eu estávamos retornando de uma viagem. Enquanto permanecíamos presos em um terrível engarrafamento, nos pusemos atentos ao único entretenimento possível naquele momento: o programa missão impossível da rádio Jovem Pan. Programa este que aguça nossa curiosidade em saber qual a solução dada pelos locutores da Rádio diante das dificuldades dos ouvintes em seus relacionamentos amorosos. Escutávamos naquele momento a situação de um jovem que pedia perdão à sua namorada por suas inoportunas postagens no facebook. Diante dessa trama, um dos locutores ironicamente se posicionou dizendo: facebook é o novo anticristo!

 

Naquele momento, todos os que estávamos dentro do carro caímos na gargalhada. O riso costuma revelar nossa comunhão com o que é dito. A criatividade irônica e aparentemente superficial daquele locutor me fez refletir.

 

Facebook é a “praça” da pós modernidade. É lá que nos encontramos para colocar o papo em dia e conhecer novas pessoas. É o lugar onde nossos desejos dançam e nossos afetos se sentem livres para tocar outros. O facebook veio ao encontro de um dos nossos mais profundos desejos: ter muitos amigos! Por que ter poucos amigos se podemos colecionar milhares? Por que precisar gastar tempo ao lado de alguém que está ao nosso lado se podemos escolher outros mais atraentes? O face nos coloca diante de outros mundos. Lá nos esquecemos da nossa vidinha cotidiana, das pessoinhas de sempre, e podemos com apenas um click aportar em cais espetaculares.

 

 Verdade? Essa palavra é pouco conhecida no facebook. Não necessitamos dela. Lá, se não queremos falar com alguém, simplesmente podemos dizer que estamos ocupados. E mesmo não sentindo afeto por uma pessoa, fazemos questão de desejá-la uma boa noite com um abraço carinhoso. O importante é não perder nenhum número no nosso mosaico. Se o perdermos podemos diminuir na credibilidade com o nosso público. Ops, eu disse público? Nossa, me escapou essa palavra! Acho que ela quis escapar de propósito. Não será o facebook também um palco e os tais “amigos” verdadeiros espectadores do nosso espetáculo? É picadeiro onde podemos nos apresentar com platéia “cheia”. Todas as atenções estão voltadas para nós, para nossas fotos, para nossas postagens... Mas, e quando não recebemos comentário algum naquela foto tão selecionada e ninguém ao menos curte o que postamos? Quanta frustração virtual! Choramos lágrimas cibernéticas.

 

Se olharmos com atenção para nós mesmos e para os milhares de “amigos” que temos no facebook, podemos nos espantar com a realidade. Por trás de tantas postagens e fotos narcisistas é possível escutar uma voz ensurdecedora exclamando: “Me vejam aqui por favor! Eu preciso ser amado!” Se queremos ouvir esse grito ainda com maior evidência, basta acompanhar as postagens da “hora da solidão”. Aquela que antecede nosso sono, na qual buscamos alguém para compartilhar a dor de estarmos sozinhos. Nesse espaço de tempo, onde estão os milhares de amigos? Esse é o momento cruel no qual almejamos visceralmente que o sono nos pegue pelas mãos e carregue nossos corpos pesados em direção à um lugar onde podemos repousar a dor e o medo de sermos sós.

 

Se é dessa maneira que utilizamos essa ferramenta para construir nossas relações humanas, realmente o locutor da Jovem Pan tem razão. 

I'm not a stranger here

by Bruno Franguelli,sj

 

 

It was a quiet afternoon. The leaves clothed the naked soil. A nostalgic mood pervaded my insides. I envisioned the different shades of the evening, I felt the most distinct aromas, I heardthe noise of the birds to retreat, so united, as friends. I understood instantly drop the why those words of God in the first pages of the Bible: "He saw that it was very good!"

 

I have asked myself many times: Why did God create this world? Why did He create us? I remember - my school time when building models of polystyrene for exhibitions in the college. My mother was the great engineer who drew the design of streets, rivers, parks, churches and buildings of the model. It was so hard for me just to cut and color what was drawn by it. Actually, I think that I more hindered than helped her.

 

 With my small hands and lack of motor coordination was very difficult to get the outlines of the cutouts. Much materials was lost with my attempt to create. But my mother was a true artist and knew that I would reuse the pieces left behind. At the end, when everything was ready my joy was complete. Our eyes were full with such beauty that was created by our own hands. My satisfaction was driving down the streets of that model with miniature cars. I was the onde who controlled the entire life of the city of Styrofoam. It was so nice to play being God  briefly. The imagination took me and playing with all that creation was my greatest pleasure.

 

I can not believe that God has created all this simply to act as I acted on the model. I've heard words that evoke the opposite of what I think. I heard words, including religious, transferring to another world all the joy of living this life. I've heard arguments that claim delete this world to be very bad and even the joys we can experience here can deprive us of one what is totally perfect. I confess to be bothered with these frightening words. I am immersed in a vast machine of torture of thinking. If I believe in these words I end up angry at God. Was this god tyrant enjoying our suffering or would that be a creator good god, but weak so that the devil can take us from his hands so easily? Forgive me, but I can not believe in this god! Nietzsche would not have buried this very idea of God?

 

I believe in a God, who was revealed by Jesus of Nazareth. In the words of the Nazarene, God clothes the lilies, feeds the birds of heaven, our pain cries and laughs because of our joy. It is a God who can dance very well! The God of Jesus Christ does not love suffering, but faces it with love and for love only. He loves the world and that's why we sent his Son to save this world. Jesus announced that this world is not a hostel, but an anticipation of that Reality wich has already begun. It was he himself who said the Kingdom of God is among us!

 

I propose a different method of prayer: praying with eyes open. It is not a new method, much less my own invention. This way of praying was created by God in the very first pages of the Bible when God looked at His creation and instead of closing his eyes, opened with more contemplative attitude: He SAW that everything was very good!

 

These thoughts wich came to me one afternoon in late fall asked to be shared. The smells and aromas, the colors of flowers, fruit flavors, the sounds of birds, loves that I give and I receive make me feel that this world is my home. Thoughts that make me smile at the joy of knowing that God does not put me in a hostel, but He built a home to I live. If the sky is actually in another place, I believe this world his garden entrance. One thing I can feel I am not a stranger here!

 

NÃO SOU ESTRANGEIRO AQUI!

by Bruno Franguelli,sj

 

Era uma tarde tranquila, final de outono. As folhas vestiam a nudez do solo. Um clima nostálgico invadia meu interior. Eu vislumbrava os diferentes tons do entardecer, sentia os mais distintos aromas, escutava a algazarra dos pássaros se recolhendo, tão unidos, tão amigos. Entendi num instante o porquê daquelas palavras de Deus nas primeiras páginas da Bíblia: “Ele viu que tudo era muito bom!”

 

Já me perguntei muitas vezes: Por que Deus criou este mundo? Por que Ele nos criou? Lembro os tempos escolares quando construía maquetes de isopor para exposições no colégio. Minha mãe, excelente professora, era a grande engenheira que traçava o planejamento das ruas, rios, praças, igrejas e prédios da maquete. A mim, me cabia somente recortar e colorir o que era traçado por ela. Na verdade, acho que eu mais atrapalhava do que ajudava. Com minhas mãos pequenas e a falta de coordenação motora era muito difícil acertar os contornos dos recortes. Muito isopor era perdido com a minha tentativa de criar. Mas, minha mãe era uma verdadeira artista e sabia reaproveitar os cacos que eu deixava para trás. Ao final, quando tudo ficava pronto, a alegria era completa. Nossos olhos eram envolvidos com tanta beleza criada pelas nossas próprias mãos. Minha satisfação era percorrer as ruas daquela maquete com os carrinhos em miniatura. Eu era quem controlava a vida total daquela cidade de isopor. Era tão bom me disfarçar de deus por alguns instantes... A imaginação me tomava e brincar com toda aquela criação era o meu maior prazer.

 

Não posso acreditar que Deus tenha criado tudo isso simplesmente para agir semelhante a mim diante daquela maquete. Já ouvi palavras que evocam o contrário do que penso. Ouvi palavras, religiosas inclusive, que transferem para um outro mundo toda a alegria de viver desta vida. Escutei argumentos que afirmam ser este mundo muito mal e até que as alegrias que podemos experimentar aqui podem nos privar de um outro que é totalmente perfeito. Confesso ficar incomodado com essas apavorantes palavras. Sinto‐me imerso em uma imensa máquina de tortura do pensar. Se acredito nessas palavras acabo ficando indignado com Deus. Penso que se existe um outro mundo tão perfeito e se este tão imperfeito pode nos privar do outro, por que Ele desejou criar este? Estaria esse deus tirano se divertindo com o nosso sofrimento ou seria esse criador um deus bonzinho, mas fraco que torce para que o diabo não nos arranque de suas mãos? Me perdoem, mas não posso acreditar nesse deus! Não teria Nietzsche sepultado justamente essa ideia de deus? 

 

Eu acredito em outro Deus, naquele revelado por Jesus de Nazaré. Nas palavras do nazareno Deus veste os lírios do campo, alimenta as aves do céu, chora com as nossas dores e ri diante de nossa alegria. É um Deus que sabe dançar muito bem! O Deus de Jesus Cristo não ama o sofrimento, mas enfrenta‐o por amor e só por amor. Ele ama o mundo e só por isso nos enviou o seu Filho. Se encarnou em Jesus de Nazaré para que o objeto do seu amor fosse salvo. Jesus anunciou que este mundo não é uma maquete, mas já uma antecipação daquela Realidade que já começou. Foi Ele mesmo quem disse: "o Reino de Deus já está entre vós!"

 

Proponho um método diferente de oração: orar com olhos abertos. Não é nenhum método novo, muito menos invenção minha. Essa maneira de orar fora criada por Deus já nas primeiras páginas da Bíblia, no momento em que Deus olhou para sua criação e, ao invés de fechar os olhos diante dela, Ele os abriu ainda mais com atitude contemplativa: "e VIU que tudo era muito bom!"

 

Esses pensamentos, que me vieram num entardecer de final de outono, pediram para ser partilhados. Os cheiros e os aromas, as cores das flores, os sabores das frutas, os sons dos pássaros, os amores que dou e recebo me fazem sentir que este mundo é a minha casa. Pensamentos que me fazem sorrir diante da alegria de saber que Deus não me colocou em uma hospedaria, mas construiu um lar para eu morar. Se o céu está de fato em um outro lugar, considero este mundo seu jardim de entrada.

 

Uma coisa eu posso sentir... não sou estrangeiro aqui!

 

 

De propósito...

Sou proposital por nascença. Já propus tantas luzes e sombras. Propositei tantos sonhos que esqueci de escrever e hoje se perderam no oceano dos meus esquecimentos. Este blog nasce para ser proposta escrita. Assim, aqueles que tiverem a gentileza e a paciência de passear por aqui e desfrutar dos meus rabiscos se tornarão cúmplices dos meus propósitos. Sou jesuíta. Mas, nada disso me impede de ser errante, transgressor, experienciador de fracassos. Meu Deus quis ser Humano. E isso me escandaliza muito ainda. Esperiências humanas são frágeis, e a beleza, que direi dela? É tão efêmera... de propósito...

 

 

Via Sacra

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Lá, onde o vento sopra suave e sereno

Lá, onde minha voz ecoa sem medo

E a tua enche o meu peito de coragem

E as ondas são tranquilas e as águas são mornas

E as pessoas são ternas e aprenderam a amar.

 

É o lugar que eu busco, é o sorriso que sonho

São mãos que se encontram, se seguram, se apoiam umas nas outras

E o cheiro do orvalho matutino e das ruas molhadas de chuva

Me deixam com uma alegria simples e discreta

Uma paz sem igual

 

Nascemos entre o calor e o frio

Quando nossos olhos se abrem, o que nos espera?

Se a vida me aceitou, o existir me basta!

Encontrarei quem me ofereça o dom da presença

Morarei amparado pela fé.

 

Meus olhos não se contém, a beleza tem nome e tem voz

A face que agora contemplo, já sonhei com ela alguma vez.

Bem cedo, ao amanhecer, não precisei abrir a janela.

A luz já estava dentro de mim.

Mas naquele instante eu começava a habitar plenamente nela.

 

Lá, onde repouso e deixo-me contagiar

Com tudo o que é sagrado e puro.

Lá, onde a dor não possui nem mais memória.

E a plenitude da beleza envolve os meus instantes de eternidade.

Décima quinta estação da humanidade.

 

 

Em memória de um jovem de 23 anos, violentado e assassinado em Roma na manhã de 4 de março de 2016.

Via Crucis

by Bruno Franguelli,sj
 

 

Là, dove il vento soffia morbido e sereno

Là, dove la mia voce riecheggia senza paura

E il tuo coraggio riempe il mio petto

E le onde sono calme e l'acqua è calda

E le persone tenere che hanno imparato ad amare.

 

È il luogo che cerco, è il sorriso che sogno.

Sono mani che si incontrano, per contenersi, per sostenersi a vicenda

E l'odore della rugiada del mattino e le strade bagnate di pioggia

Mi portano una gioia semplice e discreta,

Una pace unica.

 

Nati tra il caldo e il freddo

Quando i nostri occhi si aprono per la prima volta, cosa ci aspetta?

Se la vita mi ha voluto bene, l’esistere già mi basta!

Troverò chi mi offra il dono della presenza.

Io abiterò sostenuto dalla fede.

 

I miei occhi non si contengono, la bellezza ha un nome ed ha una voce.

La faccia che ora guardo, l’ho vista una volta in sogno.

La mattina presto, non ho avuto bisogno di aprire la finestra.

La luce era già dentro di me, abitava il mio corpo.

Ma ora ho iniziato ad abitare pienamente in essa.

 

Là, dove io riposo e mi lascio stupire con tutto

Con tutto ciò che è santo e la gioia è senza fine.

Là, dove non ha più memoria del dolore

E la pienezza della bellezza circonda i miei momenti di eternità

Decima quinta stagione dell'umanità.

 

 

In memoria di un ragazzo 23 enne, violentato e usciso a Roma all’alba di 4 marzo 2016.

The refugee God

by Bruno Franguelli, sj

(Based in Mt 2: 13-15)

 

Today I saw God being carried by tired backs.

Tired bodies supported Him.

They were treading through the dry ground that

Nurtured the beads of sweat falling.

And God came crying of hungry and pain.

 

 

He was not surrounded by angels, but by mosquitos.

I observed his race and the color of his eyes.

They were not the same as mine.

He was different from me.

He needed, I wanted.

He was surviving, I…

 

 

God had his feet dirty with a cruel reality.

His body was injured and vulnerable

Cried help and screamed in silence.

It was a moment of escape from premature death.

 

 

Protected by two poor youth

The refugee God was redeeming the hard reality of who lives no where,

But remains carrying in their tired backs

The same hope of that two poor youth

Who protected the Redemeer of the world.

 

 

Kakuma- Kenya 28/07/2015

O Deus refugiado

by Bruno Franguelli,sj

(baseado em Mt 2, 13-15)

 

Hoje vi Deus sendo carregado por costas turvas.

Corpos cansados O sustentavam.

Pisavam o chão seco que se nutria das gotas de suor que caiam.

E Deus vinha chorando de fome e de dor,

Não era rodeado de anjos, mas de mosquitos.

 

 

Observei sua pele e a cor dos seus olhos.

Não eram as mesmas feições que as minhas.

Ele era diferente de mim.

Ele necessitava, eu queria.

Ele sobrevivia, eu…

 

 

Deus tinha os pés sujos de uma realidade cruel.

Seu corpo ferido e vulnerável,

Clamava socorro e gritava em silêncio.

Era um momento de fuga da morte prematura.

 

 

Protegido por dois jovens indefesos e pobres

O Deus refugiado

Redimia a dura realidade daqueles

Que continuam carregando em seus ombros cansados

A mesma esperança daqueles dois jovens pobres

Que protegeram o Redentor do mundo.

 

 

Kakuma- Quênia 28/07/2015

"Tomai TODOS e comei!"

Bruno Franguelli, sj

 

Um dia desses me perguntaram: “Bruno, você acha que a Igreja deve dar o direito de receber a Eucaristia aos divorciados em outras uniões conjugais e a outras pessoas em outros tipos de uniões ditas irregulares?”

 

Respondi imediatamente: “Não, não se trata de conceder o direito de receber a Eucarista a alguém. Ela é um Dom gratuito de Deus e sendo assim, jamais alguém pode recebê-la por direito, por mais santo que seja!”

 

Introduziu-se estranhamente em nossas comunidades eclesiais - parafraseando ao contrário as palavras do Papa Francisco - a concepção de que a Eucaristia é “um prêmio para os bons” e não “um remédio para os fracos”. O Sacramento da Reconciliação, que nos regenera depois de cometer uma grave ação de infidelidade batismal, passou a ser acreditado por muitos como simples “permissão para comungar”. A Comunhão, ao invés de ser o Pão de todos, passou a ser um pão de alguns, considerados “devidamente preparados” e que se sentem “dígnos”,  e por isso mesmo, no direito de recebê-la. Criou-se o falso slogan: “Para que possamos receber Jesus precisamos ter a casa limpa!” E assim, ignoramos as páginas dos Evangelhos que revelam os encontros mais intensos e desconcertantes de Jesus. Teriam limpas suas casas a samaritana envolvida em tantas uniões conjugais, o centurião pagão, a adúltera e tantos outros? Acho que não!

 

Um dos principais motivos pelos quais essas atitudes rígidas e arbitrárias em relação à recepção da Eucaristia absorveu nossas comunidades é a presença de resquícios do antigo jansenismo. Deste modo, tal doutrina, muito presente entre os séculos XVII e XVIII e já condenada pela Igreja, se une à terrível perspectiva da atual sociedade de consumo, que cada vez mais concebe o ser humano como mero indivíduo submetendo-o aos seus mesquinhos interesses. Uma espiritualidade individualista e egocêntrica se difundiu ligeiramente pelas nossas igrejas e o evidente e desastroso resultado ocorreu: "o divórcio entre fé e vida, Eucaristia e compromisso com os irmãos".

 

Lembro-me de um grande amigo que já se encontra nos braços do Pai: Pe. João Batista Libanio. Era teólogo, aprendido nas coisas de Deus. Em suas celebrações eucarísticas, após a invocação do Espírito Santo e a Consagração do Pão e do Vinho, levantava suavemente suas mãos em direção a assembleia e dizia: “Este é o momento mais solene!” E invocava o Espírito Santo sobre cada um de nós para que, ao comungar do Corpo e Sangue de Cristo, fôssemos transformados no Corpo dEle que é a Igreja. E ainda acrescentava: “E que esta se torne uma comunidade de acolhida, comunhão e de muito cuidado de uns para com os outros!”. Com essas simples e sábias palavras, Pe Libanio nos introduzia mistagogicamente no mais profundo mistério da Igreja. Nos protegia de qualquer individualismo ou egoísmo espiritual. Como bom pastor, nos conduzia ao sentido último da Eucaristia: à comunhão de irmãos.

 

É exatamente a partir da Eucaristia que todos podemos ser de um modo real irmãos uns dos outros. Já não somos mais indivíduos mas parte insubstituível do Corpo Místico de Cristo. O mesmo sangue corre por nossas veias e nos une em um só corpo e um só espírito. Deste modo, quando recebemos a Comunhão, nos unimos uns aos outros em vínculo espiritual que ultrapassa toda e qualquer consanguineidade humana. Somos definitivamente a Igreja, esposa do Cordeiro. “E desta alegria ninguém é excluído.”

 

Volto à pergunta que me fizeram há alguns dias. Interrogações como esta são acompanhadas de muita apreensão. Neste momento decisivo, nossos pastores e outros membros da Igreja estão aqui em Roma. Membros representantes de toda a Igreja reunidos para dizer uma palavra sobre a familia. O tema da concessão da Eucaristia aos divorciados e a pessoas em outras uniões parece ter assumido grande relevância neste Sínodo. Não sei se realmente deveria ser um assunto tão relevante assim. Ainda mais porque o Mestre já decidiu tudo isso quando, na ceia de sua despedida, Ele declarou quais eram as palavras que deveriam ser repetidas em todas as celebrações eucarísticas da História:

 

“Tomai TODOS e comei… Tomai TODOS e bebei!” 

 

Morte na periferia

by Bruno Franguelli, sj

 

Primeiramente pedimos desculpas por publicar esta notícia, que talvez incomode ou retire o teu apetite num grande dia de festa como este sábado. Mas, como é nosso dever deixar nossos concidadãos a par de tudo o que está acontecendo, decidimos por bem publicar esta notícia.

 

Morreu ontem o conhecido pregador Jesus de Nazaré. Talvez alguns de vocês devem se lembrar dos grandes tumultos que ele causava entre os religiosos e responsáveis pelo Templo. Sua morte foi aclamada por uma imensa população que decidiu libertar o famoso Barrabás e entregar o pregador para ser crucificado.

 

Jesus era um homem saudável de trinta e poucos anos. Ele circulou por nossas terras pregando um certo Reino de Deus e - dizem alguns - que fez até milagres. Era um homem de origem humilde, filho de carpinteiro e viveu até os trinta anos nos subúrbios de Nazaré. Depois que deixou sua terra, chamou doze homens para que caminhassem com ele e estes se tornaram seus discípulos. Não era um revolucionário político, mas religioso. Foi tido como insultador da Lei dos judeus e de suas práticas religiosas. Mas a fúria dos religiosos aumentou ainda mais quando o jovem se declarou filho de Deus. Assim, foi acusado de herege e várias vezes foi ameaçado de morte pelos filhos de Abraão.

 

A situação começou a complicar nos últimos dias, justamente nestes tempos de festas em que a nossa cidade está repleta de peregrinos. Segundo informações seguras, ele foi traído por um daqueles que sempre estiveram com ele. Pelo preço de algumas moedas o discípulo entregou seu mestre nas mãos dos judeus e estes o julgaram, condenaram e o jogaram nas mãos de Pilatos. Este, com medo que o tumulto aumentasse ainda mais, cedeu a pressão dos judeus e de uma grande parte do povo e entregou o jovem pregador para ser crucificado. Segundo dizem o jovem não disse nenhuma palavra em sua defesa durante todo o processo. Somente afirmava que era rei de outro reino e que tinha o Pai dos Céus olhando por ele. Ninguém teve notícia dos seus discípulos. O réu permaneceu sozinho durante quase todos os momentos. Sua mãe, Maria de Nazaré, um tal discípulo e algumas mulheres - que não são de boa fama - foram as únicas pessoas que o acompanharam segundo as possibilidades que os guardas permitiam. Estes o seguiram até o fim!

 

O pregador foi cruelmente açoitado e muito ferido antes e durante a caminhada que precedia sua morte. Carregava uma aste pesada e em alguns momentos não aguentou o peso sobre os ombros e caiu.  A multidão seguiu de perto o trajeto. Enquanto alguns choravam e se desesperavam, outros ignoravam a dor do jovem e até gritavam-lhe injúrias dizendo: "morra marginal!" Ao chegar ao Gólgota foi crucificado. Após dizer algumas palavras, não resistiu e morreu.

 

E assim, a sentença contra o jovem pregador da periferia foi consumada. Morreu fora dos muros de Jerusalém e da Religião. Morreu como herege, morreu indignamente, e sua nudez, todos pudemos ver, porque até os trapos pobres que o cobriam lhe foram roubados.

 

Desejamos uma ótima festa a todos com banquetes fartos e muito divertimento!

 

Sucesso também aos que possuem tendas e se dedicam às vendas de animais e utensílios em Jerusalém. Que nada sobre em seus armazéns!

 

Jerusalém, abril - ano 785 da fundação de Roma

 

6 conselhos ao Papa Francisco

Bruno Franguelli, sj
 

Nota introdutória

A princípio, não existiam estas palavras introdutórias, mas devido a algumas interpretações equivocadas e - para evitar qualquer confusão posterior - decidi deixar duas indicações antes que você prossiga com a leitura:

1- O texto está escrito em estilo literariamente irônico.

2- Repare que a pessoa que assina "os conselhos" não é o autor do texto, mas alguém que tem expectativas equivocadas em relação ao Papa. 

Boa leitura!

 

 

Estimado Papa Francisco,

 

Primeiramente peço desculpas por escrever de um modo direto a uma pessoa que ocupa um posto de poder tão importante como o seu. Mas, as circunstâncias criadas através dos seus pronunciamentos e atitudes tão estranhos e desconcertantes, me convocam, como católico,  zeloso da reta doutrina, a não permanecer em silêncio.

Por isso, tomo a liberdade de fazer algumas considerações sobre tais atitudes e de propor ao senhor algumas mudanças que poderiam salvá-lo destes tropeços que o senhor vem cometendo freqüentemente.

 

1- O senhor se apresenta sempre muito próximo de todos e usa um vocabulário, muitas vezes, ao meu ver, até “chula”, para se dirigir as pessoas. Por favor Papa Francisco, seja mais reservado e cuidado com este tipo de palavreado! Seja mais distante das pessoas. Isso o ajudará a manter uma certa solenidade e impor mais respeito quando, principalmente, as pessoas que não fazem parte da Hierarquia católica se aproximam de ti. Saiba que o senhor não é qualquer um, e por favor, ornamente-se com paramentos mais dignos e nobres.

  

2- Quando o senhor for perguntado sobre um assunto polêmico, por favor, não responda. Aliás, nem permita essas entrevistas livres. E jamais diga aquelas palavras que o senhor proferiu espontaneamente naquela Missa em Tacloban, nas Filipinas. Não fica bem para um Papa fazer uma homilia com palavras espontâneas. Menos ainda confidenciar publicamente que lhe faltam palavras. Isso é realmente um absurdo! Um papa deve, ao menos, aparentar ter respostas para tudo.

 

3-Não fale tanto em pobres em seus discursos e nem em sair rumo às periferias. Isso pode aparentar que o senhor é comunista. Seja mais espiritual. Não entre em discursos profanos, do “dia- a- dia”. Ouvi dizer que o senhor está preparando uma encíclica sobre ecologia e até consultou alguns rebeldes que estão fora da Igreja. Por favor Papa Francisco, a Igreja não existe para proteger a Amazônia, mas exclusivamente para a salvação das almas. Como alguém disse, sua formação jesuíta é muito limitada. Os mais de 15 anos de formação para ser recebido definitivamente na Ordem lhe foram insuficientes.

 

4- O senhor ressalta muito a importância do diálogo entre as religiões e culturas. Por que devemos dialogar se Deus já nos deu toda a verdade? Vemos suas visitas e “orações” em lugares tão estranhos. Como o senhor tem a coragem de se rebaixar e visitar estes lugares profanos, repleto de heréticos e infiéis? Isso realmente me deixa envergonhado. Um representante de Deus aqui na terra não pode visitar ambientes como esses.

 

5- O seu discurso de misericórdia é muito ambíguo. Principalmente com aqueles que não seguem os preceitos da Igreja. O senhor fala que devemos proteger a família, mas também se mostra acolhedor com pessoas homossexuais e divorciados em outras uniões. Onde o senhor quer chegar com tudo isso? Talvez fosse mais correto pregar a ira de Deus e não a misericórdia.

 

6- Não seja tão humano, carinhoso, próximo como um “cura de aldeia”. Nós queremos um Papa, que do seu trono, defina dogmas e com sua voz solene e imponente nos dirija a palavra sempre em Latim, ainda que não compreendamos sua mensagem. Assim, o senhor jamais vai “tropeçar nas sandálias do pescador”.

 

Enfim, Papa Francisco, mais uma vez, desculpe minhas duras palavras. Estas são fruto da profunda decepção que, eu e muitos, sofremos com suas atitudes. Espero que o senhor não continue a nos incomodar com seu jeito humano de ser Papa.

 

Assinado:

alguém que esperava o herdeiro do Imperador Constantino e não o sucessor de um pobre pescador da Galiléia.

 

Onde está o Menino?

by Bruno Franguelli, sj

 

Já fugi de casa pra comprar brigadeiro na esquina.

As moedas deixadas na mesa por descuido e o buraco do portão

Favoreciam meu desejo inocente.

Minha mãe desesperada perguntava:

Onde está o menino?

E corria até o "bar" a tempo,

Lá estava a mãozinha estendida, com moedas que não compravam

Querendo brigadeiro.

 

Onde está o Menino?

Ninguém soube responder.

Só quem contemplava as estrelas,

Sentia calor no coração.

Longe de Palácio e de templo,

De sacerdotes e de reis.

Lógica de Deus,

Subversão.

 

Onde está o Menino?

Solto por aí, brincando de esconder,

Os mistérios dos grandes.

Saiu para mostrar os primeiros rabiscos,

E aprender que amor se nota pelo olhar.

Não importa a perfeição,

Belos são os rabiscos!

 

Onde está o Menino,

Que aprendi desde criança a procurar?

Deve ter fugido pelo buraco de algum portão.

E nas mãos carrega poucas moedas que não podem comprar,

E com o olhar faminto, 

Implora um brigadeiro,

Abraço e acolhida, cuidados e afetos,

Familia…

Paz!

 

Feliz Natal!

Algodão-doce

by Bruno Franguelli, sj

 

Tem gente que passa a vida toda vendendo algodão-doce na esquina do colégio.

Não tira férias, nem acorda tarde.

Mergulha a vareta de bambu no açúcar enquanto a meninada observa atenta o milagre acontecer.

 

Talvez pra se viver, pouca coisa é mesmo necessária.

O mistério do algodão-doce diz isso pra mim.

Uma mão prepara, a outra espera ansiosa.

Com poucas moedas se compra e sempre tem um trocadinho de sobra.

Metafísica das coisas inúteis que os olhos amam.

 

Já tive fome de nuvem.

Criança tem fome de tudo.

Mas tudo sem sal. Menino só gosta de açúcar.

Criança saudável só come besteira.

Porque paladar menino è desobediente.

Menino saudável só gosta de doce.

 

Roupa pra mim nunca era presente.

Só brinquedo era dádiva divina.

Criança saudável prefere coisas inúteis.

Bem aventurados são estes,

Que não tiram férias e nem acordam tarde.

Esperam apenas por algumas moedas de mãos pequenas.

 

Talvez pra se viver, pouca coisa é mesmo necessária.

Quanto mistério existe dentro de um simples algodão-doce!

Paura di Dio

by Bruno Franguelli, sj

 

"Attenzione, se voi camminate attraverso vie malvagie, l'ira di Dio cadrà su di voi!"

 

Queste sono parole che fanno tremare il nostro cuore. Confesso che ho perso il sonno meditando sopra di esse. Soprattutto perché da bambino ho scoperto e fatto esperienza che sono veramente nella Bibbia. Da adolescente scoprendo il mondo, i colori, i sogni, le emozioni, la sessualità, seduto su una panca in fondo a una Chiesa, guardando al Dio crocifisso ho chiesto:

 

"È vero che Tu mi puoi far del male?"

 

Questa domanda mi ha perseguitato per lungo tempo. Non potevo credere che Dio che è tutto amore avesse creato una macchina di tortura chiamata inferno. Mi sono ricordato della mia bisnonna. Mesi prima della sua morte, sono andato a farle una visita. Lei era molto malata, e mi confidò la sua più grande paura: "Bruno, non voglio morire, perché ho ​​paura che Dio mi mandi all'inferno" .

 

Ricordo le terribili parole di uno dei personaggi del libro “i Demoni” di Dostoevskij:

 

 "Dio è la paura dopo la morte!"

 

È vero che, molti di noi possiamo amare Dio solo per paura di un fine distruttivo. Molti ancora non capiscono che uno dei principali motivi per cui Gesù ha assunto la nostra umanità è stato proprio questo: per rimuovere in noi la paura di Dio! "Chi ha paura non può amare o sentirsi amato", ha scritto uno dei suoi più cari amici.

 

Qualche tempo fa, durante un viaggio in Ecuador, accanto a me c'era una coppia di giovani hippies. Ho iniziato una conversazione con loro circa argomenti religiosi. Mi hanno detto che anche se non erano parte di nessuna confessione, credevano che Gesù fosse il megliore che potesse offrire la Bibbia. Ho fatto silenzio, loro avevano capito l'essenziale!

 

L'amore non può creare macchine di tortura. Sì, la nostra rabbia può ferire, uccidere, scomunicare. L'amore, al contrario, crea giardini, non deserto. costruice ponti, non mura. Nell amore cè speranza, misericordia, salvezza. Santo Ireneo ha detto: "La gloria di Dio è pienamente che l’uomo viva!” Dove cé l’amore, non c`e paura!                                           

PROFISSÃO DE FÉ

by Bruno Franguelli, sj

 

Professo fé com memórias e...

Saudades das façanhas da mãe, do cheiro de bife acebolado, do arroz temperado;

Que me devolvem às fantasias de um apetite infantil.

 

Professo fé de menino aprontão,

Que sem perder a inocência recitou um palavrão e suscitou deliciosas gargalhadas relaxando a vida tensa dos amigos sentados a frente do portão.

 

Também professo a fé de um adolescente,

Admirado com sua voz rouca e com o corpo pronto para dançar novos ritmos. Mas ainda com medo das sementes e dos desejos aguçados.

 

“Corpo bão é de anjo e de santo – alguém dizia – que não se cansa, nem dorme e nem sente o quentinho do cobertor numa manhã de inverno incomodada pelo despertador.”

 

Renuncio…!

Ao pecado de não admirar o pôr do sol, de comer desapercebidamente as frutas, de não ler poesia, nem escrever poemas e nem escutar belas músicas.

 

Renuncio…!

Ao demônio das pressas sem sentido que não me permitem gastar tempo com as pessoas que amo e com aquelas que precisam de mim.

 

Renuncio…!

À frieza, ao rancor, às palavras amargas, ao rosto fechado, olhares arrogantes e coração indiferente à dor alheia.

 

Renuncio…!

A moralismos que turvam a visão e reduzem horizontes a preconceitos e intolerâncias.

 

Creio em Deus…!

Trindade apaixonada e abraçada na noite estrelada, à beira do mar, com suas criaturas dançando os mais diferentes ritmos da vida.

 

Creio no Pai…!

Que chega cansado e com fome em casa depois de um intenso dia de trabalho, mas tem amor de sobra pra fazer o filho dormir.

 

Creio no Filho…!

Descansando nos braços do Pai depois das fatigas e feridas de dias tristes que já passaram.

 

Creio no Espírito…!

Deus sem rosto e sem conceitos, metáfora que renova e recupera meus esquecimentos felizes.

 

Creio na Igreja…!

Com as mãos e os pés mais calejados que os joelhos; cheia de abraços, que comunga cuidado, promotora do prazer e da alegria.

 

Professo fé com alegria de menino,

que ganha uns poucos trocados do pai pra comprar cachorro quente na esquina com os amigos e de longe ouve os doces gritos “adivertentes” da mãe:

 

“Não coma muito meu filho porque a janta já está quase pronta!”

 

Amém.

VIDAS SUPERFICIAIS

by Bruno Franguelli, sj

Tem fé sim, mas é frágil e cessante...

 

Tem medo sim senhor, mas também tem coragem e vontade de colocar a mão na tomada com os pés molhados e descalços. 

 

Têm dores desnecessárias, mas também têm gritos inevitáveis e justos na prisão, do lado de fora. 

 

Tem muito pecado despudorando os recortes dos momentos arriscados. Mas também têm gotas da graça escondidas no rosto coberto do pretérito imperfeito dos desejos. 

 

Tem sagrado e profano apaixonados, trocando alianças no jardim de ipês amarelos.

 

Tem religião desligando as pessoas, criando máquinas de tortura e morte. Mas a capela da vila tá cheia de gente‪ que se abraça, se beija e se cuida. Ali, Deus pode dormir tranquilo com janelas abertas e babar feito menino despreocupado no travesseiro macio.

 

O amor salva as reticências da história grávida de passos sem percursos. Redime os pedaços de esperanças desperdiçadas naqueles dias com sabor de coentro. Recolhe os cacos de existência despedaçada no velório da paixão. O amor é a semântica da vida sepultando a gramática e libertando a Poesia. 

 

E com sua força vai atrapalhando a ordem e ‪provocando abundantes incômodos em...

 

vidas superficiais.

O dia em que Rubem Alves me pediu perdão!

by Bruno Franguelli, sj

 

Foi tudo culpa do Rubem...! Eu não sabia ler, nem escrever. Antes de conhecê-lo as árvores eram apenas árvores, os dias; agendas a serem preenchidas. Antes de ouví-lo numa palestra em Belo Horizonte, o banho com água quente era apenas mais um gesto necessário e cotidiano... Mas, depois que ele me despertou, tudo se tornou novo.  Ler e escrever já não significavam asceses, mas prazeres. As árvores já não eram as mesmas, os dias se transformaram em oportunidade para ser feliz, o banho com água quente; uma beatitude exclusivamente destinada aos seres humanos.

 

Foi sim, tudo culpa do Rubem. Ele me inspirou a criar este blog. Regou a aridez dos meus estudos de Filosofia com sua refrescante poesia. Salvou minha Filosofia, minha literatura, minha vida. A ele dediquei, em 2012, meu trabalho de conclusão de curso intitulado: “Tornei-me discípulo do corpo: o prazer no pensamento de Rubem Alves”, sob os olhares de outro mestre, amigo do Rubem, que também habita junto às estrelas, João Batista Libanio. Aquele trabalho não me provocou nenhum sofrimento. Foi realmente puro prazer!

 

Logo, o Pe. Libanio me pôs em contato com o Rubem. Assim, um mestre me apresentou ao outro:

 

"BH 10 de abril de 2012

Caro Rubem,

A história ora nos põe no caminho um do outro, ora nos mantém distantes. Seguir-lhe a trajetória é mais fácil, já que chegam notícias suas de muitos lados.

Hoje me veio a vontade de apresentar-lhe um jovem jesuita que está entusiasmado com seus escritos. faz monografia sobre você. Claro que ele gostaria de ter algum contacto com você, caso fosse possível Ele mora em BH e gostaria de saber por que via.

De longe, já em boa idade, um ano mais que você, caminho pelas mesmas veredas do saber e da sabedoria dos anos, ao menos, esta.

abraços. Libanio”

 

Gentilmente e sem demora, Rubem Alves lhe respondeu:

 

“LIBANIO: A ALEGRIA DO ENCONTRO DEPOIS DE TANTO TEMPO! QUANTO AO BRUNO - ESTOU NO MEIO DE UMA CRISE: MAL DE PARKINSON.PRECISO DE UM TEMPO PARA ME RECUPERAR DO CHOQUE. DIGA AO BRUNO DA ALEGRIA QUE ESTOU TENDO POR ELE GOSTAR DAS COISAS QUE ESCREVO. UM  ABRAÇO. RUBEM”

 

Esta era a primeira de muitas outras correspondências que teríamos. Me sentia seguro com o amparo dos dois mestres. Algumas semanas depois o Rubem me escreveu, já com palavras mais positivas em relação ao seu estado de saúde. Escrevia sempre em “caixa alta”:

 

“CARO BRUNO: FOI UMA ALEGRIA RECEBER O SEU E-MAIL.TEREI PRAZER EM ME ENCONTRAR COM VOCÊ. MAS DEIXA QUE EU VERIFIQUE A MINHA AGENDA. O MAIS FÁCIL SERIA  NOS ENCONTRARMOS EM BH. ESTOU HOJE SEM O AUXILIO DA MINHA SECRETÁRIA. AMANHà ELA ME DARÁ AS INFORMAÇÕES SOBRE A MINHA AGENDA. POR FAVOR, DÊ O MEU ABRAÇO AO AMIGO PE. LIBÂNIO. E UM ABRAÇO PARA VOCÊ. RUBEM”

 

Mas, infelizmente, logo depois o Rubem me escreveu:

 

QUERIDO BRUNO: FELIZ POR TER CONTRIBUIDO PARA O SEU PENSAMENTO E  TRABALHO ACADÊMICO. ESTOU ATOLADO NUMA SÉRIE DE PROBLEMAS DA SAUDE. POR ISSO NÃO POSSO, NO MOMENTO, LER O SEU TRABALHO. PASSADO O TSUNAMI DE HOSPITAIS, ENTÃO, QUEREREI LÊ-LO. UM ABRAÇO DO AMIGO RUBEM ALVES

 

Passado algum tempo, o Rubem me surpreendeu com outra mensagem. Esta era a última que ele me escrevia. Ele já era consciente de que seu crepúsculo já estava se aproximando:

 

“BRUNO:

QUERO LHE PEDIR PERDÃO. ESTOU ATOLADO EM VELHICE E DOENÇA E A MINHA CABEÇA NÃO TEM TRANQUILIDADE PARA PENSAR LIVRE E FELIZ. TENHO MONTANHAS DE E-MAILS PARA RESPONDER E NÃO CONSIGO. VOCÊ DISSE QUE GOSTARIA DE ME CONHECER PESSOALMENTE. MAS, NO MOMENTO, EU SOU UMA PRESENÇA DESINTERESSANTE E CANSADA. PREFIRO FICAR NA MINHA TOCA... VOCÊ ME PERDOA? ABRAÇO DO RUBEM”

 

 

DISTRAÍDOS

by Bruno Franquelli, sj

 

Ambiente de aeroporto é coisa engraçada. Com este pensamento eu começava uma agradável conversa comigo mesmo na sala de espera de um vôo. Um dos tantos lugares onde os olhares se vêem mas não se comunicam. Estão juntos, mas não se encontram. Têm olhos atentos ao painel de chamada. Outros, em objetos recentemente lançados pela Apple. Outros, se despertaram pela beleza de alguém. E existem aqueles, ainda, que decidiram se entregar ao sono e dar-se ao luxo de ocupar vários assentos. Pois, dormir no aeroporto é coisa chick. Um ambiente cheio de pessoas sozinhas que buscam uma direção para o seu rumo.

 

O cais da pós-modernidade é formal e com despedidas contidas. Que saudades das cenas que nunca vi! Das despedidas lentas que aconteciam enquanto o barulho do navio anunciava a proximidade da partida. Os únicos veículos de comunicação entre os que se amavam eram os expressivos acenos e as lágrimas escorrendo pelo rosto. Dificilmente alguém se distraía do coração.

 

Só se distraí quem se sente atraído... conversava ainda comigo mesmo naquela sala de espera. Papo como este costuma ser muito agradável. É um distrair-se saudável que desabrocha na gente o tempo todo. É uma pena que tem muita gente distraída de si, que anda dependurada nos aparelhos de conectividade. Acessa todo o mundo, mas permanece off line para si misma. Acho que a grande tentação de hoje em dia é a de despossuír-se.

 

Sedução, atração, desejo... Não declaremos sentença de morte a eles! São GPSs do nosso corpo apontando o endereço do lugar onde ele deseja repousar. Distraídos? Não! Atraídos...

 

Uma simples conversa...

Ambiente de aeroporto é coisa engraçada.

Perdão à "YAYA"

by Bruno Franguelli,sj

 

Dedico estas palavras a todos os nomes que me acompanharam nesta trajetória humana no Perú, especialmente a José Francisco Navarro,sj "artista das cores e dos afetos".

 

 

Alguns anos atrás, fui assistir a uma peça de teatro. O espetáculo contava com um cenário bastante simples, poucos personagens, mas seu conteúdo era incrível. A memória não gravou tudo, porém guardou o suficiente para que eu pudesse expressar em palavras alguns sentimentos que vieram hospedar-se em mim nos últimos dias em que estive no Perú. Lembro de uma cena em que, apoiado sobre uma banqueta frágil, o ator voltou seu olhar para o céu e disse:

 

“Quando eu olho para o céu repleto de estrelas tenho vontade de pedir perdão!”

 

Com estas palavras impressas na memoria comecei a arrumar as malas e a existência para colocar-me novamente em travessia. Durante um ano e meio que habitei o Perú, a maior parte deste tempo passei em terras selvagens, respirando ares puros e tentando reinventar mil maneiras de existir. Lembro-me das estrelas que ocupavam as noites na selva. Elas insistiam em existir com beleza. Mesmo contando somente com suas póstumas memórias, brincavam de viver a eternidade. Ao caminhar pelas matas escuras, pareciam vigiar meus passos. Já não me sentia sujeito, mas objeto de atenção e cuidado daqueles corpos celestes, criados antes de mim, no terceiro dia do existir. Dos sentimentos que me visitavam, o mais nobre e mais humano era o desejo de pedir perdão.

 

Por outro lado, bem mais próximo de mim, tinham muitos nomes, culturas, cores e raças. O Amoroso Criador transformava todo o dilúvio interior em comunhão. A solidão dos espaços mesquinhos era salva pelo desejo de ser gente. Chegava o momento de dizer “adios” a estes habitantes de pés descalços, íntimos da terra, com ombros cheio de cicatrizes e fatigados por carregar a mesquinhez dos “civilizados”. Foi com eles que eu aprendi a chamar as estrelas de “yaya”; a pintar o rosto de vermelho para ocultar o medo diante do inimigo; e decobrir que a vida é atemporal. Dá vontade de pedir perdão.

 

E agora, depois dos abraços, palavras, e votos partilhados nas despedidas, sigo minha nova sina. Muitos metros abaixo dos meus pés, as cordilheiras dos Andes, com suas montanhas cobertas de neve, testemunham meu "adiós". Entre a multidão dos corpos celestes e a “segurança” da terra firme, é momento de fazer a travessia e ver a vida continuar acontecendo pelas veredas. Como a água que deixa de seguir o curso normal dos rios e – subversivamente - prefere deixar-se levar pela imprevisibilidade dos mistérios e encantos dos paraísos escondidos.

 

Perdão à YAYA…

Ele me inspirou a ser jesuíta

by Bruno Franguelli, sj

 

 

“Bruno, o que te inspirou a ser jesuíta?”

 

Esta pergunta me persegue com muita freqüência e penso que jamais estarei livre dela. Surge dos outros, nasce de mim. Inspiração é algo sagrado. Sacramento celebrado nas liturgias da existência. Olho para a minha história e busco mil maneiras de responder a questão. A recordação me socorre e me devolve o menino que deixei escapar há alguns anos. A memória tecida de descobertas infantis responde: minha inspiração se chama José de Anchieta.

 

Escutei seu nome pela primeira vez nas aulas de História. Lembro-me que, embora meus professores soubessem muito pouco da vida deste homem, ensaiavam seus conhecimentos relatando algo sobre a fundação da cidade de São Paulo e a ousada Ordem religiosa da qual Anchieta pertencia. Os minutos finais da aula eram dedicados à pintura de um desenho do apóstolo. E eu, ainda menino, sem muito entender a profundidade daqueles ensejos, ficava imaginando-me parte daquelas incríveis missões.

 

Todos os anos, descer a serra do mar pela Via Anchieta e prosseguir viagem pela Rodovia Pe. Manoel da Nóbrega, no litoral de São Paulo, acendia algo em mim que não sabia explicar. Alguém havia passado pelas areias que confortavam a diversão anual da minha família na praia. Lembro dos inúmeros castelos que construí à beira mar, produzidos com as mesmas areias que há mais de 4 séculos receberam as palavras que o poeta compôs para a Virgem.

 

No álbum de fotografia da família, uma das primeiras fotos registra um fato curioso, talvez profético: Minha mãe, abrigando alguém no ventre, apoiada sobre uma pedra conhecida como cama de Anchieta. Local que, segundo críveis relatos, o santo permanecia longas horas para orar e descansar de suas longas viagens.

 

Acho que Deus se sente mais à vontade para passear em nossas vidas quando nos permitimos saborear o dom da simplicidade. Ele mora nas minhas belas recordações e me convida a fazer delas uma inspiração para correr em busca dos meus sonhos. Acho que é por isso que sou encantado por Anchieta. Ele encontrou a Deus nas veredas da simplicidade. Com 19 anos sonhou sua vocação à humildade e ajudou a escrever a história de uma Nação.

 

Os anos passaram. Moro na missão que guardei na memória. Dentro do peito, levo as insígnias do mais novo santo da Igreja. Que continua me inspirando a escrever nas areias os meus sonhos e guardá-los bem dentro, onde tudo está a salvo e a efemeridade dos dias não pode apagar. Para mim, a palavra jesuíta é sinônima de José de Anchieta.

Prometo não te esquecer!

by Bruno Franguelli, sj

 

 

É a primeira vez que registro palavras no blog este ano. Quem me acompanha por aqui sabe que não sou um profissional da palavra. Sou apenas um forasteiro que busca hospedagem na poesia para vencer as tentações de sentimentos intranscendentes. Demorei porque resisti desenhar os afetos que me deixaram sem oriente nos últimos tempos. Mas hoje, com a ferida mais estancada, decidi permitir que minha saudade dolorida descanse no aconchego destas palavras.

 

Tudo aconteceu no dia 30 de janeiro deste ano. Eu estava em uma reunião em Huachipa, na região de Lima-Perú. Me dirigia até um espaço adequado para a tradicional foto oficial do encontro. De repente, alguém colocou as mãos nos meus ombros e disse:

 

“Bruno, tenho más notícias!”

 

É inexplicável o sentimento que domina o coração da gente quando este sopro desconcertante toca nossos ouvidos. Em milésimos de segundos o coração dispara memórias dos mais queridos e converte todas essas imagens em imensa escuridão, como se fossemos lançados para fora do tempo e do espaço...

 

“Seu querido amigo Pe. Libanio sofreu um infarto e faleceu nesta manhã!”

 

Neste momento, minha dor ganhou nome de alguém. Um terrível sentimento de orfandade já não era um simples hospede de momentos incertos. Este vinha para ficar. E a memória floresceu este amigo querido que era um intelectual famoso, teólogo internacionalmente reconhecido... mas para mim, apenas um grande amigo. Pois os amigos não costumam se preocupar com os reconhecimentos, nem com os títulos honoríficos, basta-lhes conhecer o coração. Naqueles dias difíceis, durante uma conversa com o Pe. Fabio de Melo, na qual dividíamos nossas dores pela perda do nosso admirável mestre, ele me confidenciou: "ficamos mais pobres!"

 

Fazia apenas uma semana que eu havia me comunicado com meu amigo Libanio. Suas palavras continuam registradas no histórico do skype, juntamente com sua foto sorrindo. Sorriso que conheci bem de perto e provocou-me esperança nos momentos em que mais necessitei de vida. Meu amigo pertencia a gerações muito distantes da minha, mas sempre esticava suas mãos cheias de história para aproximar nossos mundos. Sua voz um pouco rouca era amparo nas minhas maiores dificuldades. Seu olhar penetrante, exorcizava-me a superficialidade. 

 

Meu amigo morreu. Não pude ver seus olhos fechados e suas mãos postas no caixão. Tive de sobreviver com meu choro distante. Ficaram as lembranças, as palavras ditas, os olhares calmos, os abraços prontos, as mãos estendidas.  A memória tenta me acalmar com palavras que ele mesmo me tinha dito em uma das nossas últimas conversas:

 

“Certas presenças podem desaparecer fisicamente, mas ficam dentro; isso é o mais importante.”

 

Depois de receber a notícia, meus passos queriam seguir a sós. Mas as câmeras fotográficas já estavam prontas. A foto registrou um sorriso misturado com choro. Depois, não agüentei. Busquei a solidão do meu quarto, liguei meu computador e encontrei as últimas palavras que ele me dedicou:

 

 â€œque lontano dagli occhi [não seja] lontano dal cuore”

(que distante dos olhos [não seja] distante do coração)

   20 de janeiro de 2014

UM MISTÉRIO ESCANDALOSO

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Era inverno no hemisfério norte. Alguns amigos mulçumanos que conheci na Universidade me convidaram para almoçar e conhecer mais profundamente suas raízes culturais. Cheguei quinze minutos antes e me receberam com entusiasmo em seu apartamento. Naquele momento, eles estavam se preparando para fazer sua cotidiana oração. Estenderam seus tapetes sagrados e me pediram que esperasse por alguns breves minutos até que terminassem. Pedi para também participar do ritual. Eles me olharam com uma expressão de surpresa e responderam positivamente ao meu pedido. Pronunciaram suas preces em árabe, fizeram várias reverências e eu tentava repetir os mesmos gestos em sinal de comunhão. Depois, nos sentamos no chão da sala com os pés descalços para iniciar nosso almoço. Sem os auxílios dos talheres, recolhíamos com as mãos a comida do mesmo prato depositado no meio de nós. Foi um momento muito agradável. Nos pusemos a conversar sobre nossas culturas e religiões. Depois de responder algumas perguntas que me fizeram sobre o Cristianismo, um deles me olhou com atenção e confessou:

 

“Bruno, é muito bonito tudo o que você diz sobre sua religião, mas confesso que eu não teria condições de crer em um Deus que se fez humano e tão frágil!”

 

Lembrei desse acontecimento quando pensava em escrever algumas linhas sobre as celebrações natalinas que se aproximam. Essa pergunta me despertou muitas reflexões. Realmente aquele jovem mulçumano estava certo. Crer em um Deus encarnado é uma atitude exigente e corajosa. Ainda mais, crer em um Deus que nasce em uma gruta abandonada, distante do Templo e dos sacerdotes. Que se faz criança fragilizada e dependente de cuidados e afetos. Filho de pais anônimos, pobres e migrantes... E depois, aproximando-se em idade e experiência da maturidade da vida humana é odiado e expulso por sua própria religião e morre através do mais desumano dos castigos: a pena de morte. Crer em um Deus que assumiu plenamente a realidade humana na pobreza, anonimato e debilidade pode parecer absurdamente escandaloso.

 

A Encarnação de Deus continua a nos provocar. Principalmente aos que nascemos em países onde o Cristianismo ainda é assimilado como uma mera herança cultural e conveniente. Com tantos símbolos e parafernálias que ornamentam o Natal, se faz cada vez mais difícil contemplar a profundidade do seu mistério, do seu verdadeiro significado. A mensagem da Encarnação de Deus é profundamente desestabilizadora e exigente. Este menino “é um sinal de contradição” que provoca nossas falsas seguranças, confortos e comodismos. Talvez ainda estejamos muito distantes de compreender o que realmente significa afirmar: “sou cristão!”

 

O amor de Deus, de fato é escandaloso. Com a Encarnação essa realidade se faz evidente e palpável. Nela Deus assume tudo o que somos e temos até as últimas conseqüências. No Homem Jesus de Nazaré todas as realidades humanas são sacrificadas, ou seja, se tornam sagradas. E não há ser humano que escape deste beijo de salvação.

 

“O Cristianismo é a religião do Corpo!”

 

Não estou certo se ouvi de alguém ou li esta afirmação em algum livro no início da juventude. Na época, com certa formação tradicionalista da fé, tive sérias dificuldades para compreendê-la. Mas hoje percebo que ela realmente faz sentido. Deus não se envergonhou de ter um corpo. Ao contrário, o assumiu plenamente a tal ponto que, no final de sua vida, decidiu entregar como alimento nada menos que o seu próprio corpo como memória eterna da sua presença. A “Ação de graças” do Cristianismo é a celebração antropofágica da partilha do corpo do seu Mestre. E isso é escandalosamente maravilhoso!

 

“Creio na ressurreição da carne!” É o mais profundo acolhimento da Esperança cristã que afirmamos em nossas celebrações. Talvez seja um pouco contraditório que levantemos nossas preces a Deus pela “alma” dos nossos entes queridos falecidos. Os primeiros cristãos não eram dualistas. Celebravam e Eucaristia sobre o túmulo daqueles que também haviam entregado seu corpo como alimento, semelhante ao seu Mestre. Para eles, o corpo não se revestia da velha idéia platônica de uma prisão para a alma e nem mesmo um obstáculo para a salvação, mas era sacramento da presença de Deus. “Creio na Ressurreição do Corpo!”

 

É uma pena que muitos de nós cristãos ainda vivemos nossa fé "apesar" do corpo.

Nos esforçamos por viver como se fôssemos seres assexuados e porque não dizer, desencarnados. Os afetos, os desejos e o prazer aparecem como principais inimigos da realização da vontade Divina. Esquecemos facilmente que ao pensar na criação do homem, o livro dos Genesis deixa bem claro que Deus criou um jardim de delícias. E o livro do Cântico dos Cânticos, que muitas vezes teve suas páginas censuradas e retiradas da Bíblia por alguma “censura sagrada” confirma que as bênçãos de Deus são derramadas abundantemente sobre os desejos eróticos do corpo.

 

Celebrar o mistério da Encarnação de Deus significa decidir-se também encarnar-se. O que parece algo óbvio na verdade pode estar bem distante de o ser. Encarnação é um processo longo e exigente que vamos assumindo ao longo da vida com nossas experiências mais lindas e mais difíceis, com nossos sonhos realizados e nossos traumas. É um dar-se conta de que a Encarnação do Mestre assumiu todas as realidades da vida humana, sem nenhuma exceção. A Encarnação é a reconciliação total e definitiva entre Deus e o corpo.

 

Talvez agora eu entenda melhor o significado daquela afirmação do meu amigo mulçumano, que compreendeu muito bem a profundidade e as implicações de crer em um...

 

“Deus que se fez humano e tão frágil”.

 

Feliz Natal!

Fear of God

by Bruno Franguelli,sj

 

 

"Beware! if you walk astray, God's wrath will come upon you!"

 

I am almost certain you have also heard those same words. They are widely known from the pulpit and on public squares, in books and on television, at conferences and even during celebrations. These are words that can make our heart tremble. I confess that I have lost sleep thinking about them. Mainly because as a boy I wished to find out whether they are really in the Bible. As a teenager, discovering both the world in all its vibrant colors and myself in all my dreams, emotions and sexuality, I sat in a pew of the crypt of a church looking at the Crucified God and said, 

 

“Is it true that You can hurt me?”

 

This question haunted me for a long time. I could not believe that the God who was all love had created a machine of torture called hell. I remember very well a conversation I had with my great-grandmother when I visted her months before her death. She was very sick, and confided to me her greatest fear: "Bruno, I do not want to die because I'm afraid that God might send me to hell." Though scared, I tried my best to take away the despair from her heart. She answered me with a smile saying, "Thank you Bruno, now I feel better!"

 

I remember the terrible words of one of the characters in the book Demons by Dostoevsky:

 

"God is the fear after death!" 

 

True, many of us say that we love God because we fear a destructive end. Many still do not understand that one of the biggest reasons why Jesus took on our humanity was just this: To put an end to the fear of God! "Anyone who is afraid cannot love or feel loved," wrote one of the character’s closest friends. "Our Father ..."

 

Two months ago, on a trip to Ecuador, I sat next to a couple of young hippies. I struck up a conversation with them and we then entered upon the subject of religion. They told me that although they were not part of any confession, they believed that Jesus was the best that the Bible could offer. I was speechless. They had understood the essence!

 

Love can not create torture machines. Our anger, yes, can injure and kill. Love, on the contrary, creates gardens where emotions go free and where even play is a law. "The glory of God is man fully alive!" said a holy man named Irenaeus.

 

Today, I look at the same cross which as a boy I learned to admire. I recall those words that make us afraid of God, which are still advertised everywhere. I think they make God cry. They cause Love Crucified to suffer, He who loved us to the end. I catch myself now, remembering that even children listen to me. I then realize that I am not the one who asks the question, but rather it is He:

 

“Is it really true that you can ever do anything bad to Me?”

Miedo de Dios...

by Bruno Franguelli,sj

 

“Tenga cuidado, si andas por caminos malos, la ira de Dios caerá sobre ti!”

 

Estoy casi seguro de que tú ya escuchastes estas palabras. Ellas son muy difundidas en los púlpitos, plazas, libros, canales de televisión y celebraciones. Son palabras que hacen temblar el corazón. Confieso que ya perdí el sueño pensando en ellas. Principalmente porque ya en mi niñez traté  de confirmar y descubrí que ellas están en la Biblia. Adolescente que está discubriendo el mundo, los colores, los sueños, los afectos, la sexualidad, me senté en una silla al fondo de una Iglesia, miré hacia el Dios crucificado y le pregunté:

 

¿Es verdad que Tu puedes hacer algo malo para mi?

 

Esa pregunta me persiguió por mucho tiempo. Yo no podía creer que el Dios que es todo Amor pudiese haber creado una máquina de torturas llamada infierno. Me recuerdo de mi bisabuela. Meses antes de su fallecimiento fui hacerle una visita. Ella ya estaba bastante enferma y me confesó su mas grande miedo:  “Bruno, yo no quiero morir porque tengo miedo que Dios me mande al infierno!” Yo, asustado, intentaba quitar aquel miedo de su corazón. Ella me contestaba con una sonrisa diciendo: “Gracias Bruno, ahora me siento mejor!”

 

Recuerdo las terribles palabras de uno de los personajes del libro Los demônios de Dostoiéviski:

 

“Dios es el miedo después de la muerte!”

 

Es verdad, muchos de nosostros decimos que lo amamos porque tenemos miedo de un fin destructor. Muchos todavía no entendemos que uno de los mas grandes motivos por lo cual Jesús asumió nuestra humanidad y fue justamente este: quitarnos el miedo de Dios! “Quien tiene miedo no puede amar ni sentirse amado”, escribió uno de sus mas íntimos amigos. “Padre nuestro...”

 

Hace dos meses, en un viaje al Ecuador, a mi lado estaba una pareja de jóvenes hippies. Empecé  hablar con ellos y tratamos del tema de  la religión. Ellos me dijeron que por mas que no hiciese parte de ninguna confesión religiosa, creían que Jesús era lo mejor que la Bíblia podría ofrecer. Hice silencio, ellos habían comprendido lo esencial!

 

El amor no puede crear máquinas de torturas. Nuestra ira sí es capaz de herir y matar. El amor, en cambio, crea jardines, donde los afectos pueden caminar libres y jugar es una ley. “La gloria de Dios es el hombre vivo!” Esto ya la decía un  venerable y sábio maestro de los primeros años  del cristianismo llamado Irineo de Lyon.

 

Hoy, miro la misma cruz que en mi niñez contemplé. Recuerdo que las palabras que nos hacen sentir miedo de Dios, siguen siendo difundidas por todos los sitios. Pienso que ellas hacen a Dios llorar. Ellas hacen sufrir el Amor crucificado que nos amó hasta el fin. Recuerdo que los niños me están escuchando. Y, entonces, me sorprendo, pues ya no soy yo quien hace aquella pregunta. Es Él:

 

“¿Es verdad que tú puedes hacer algo malo para Mi?”

Medo de Deus...

by Bruno Franguelli,sj

 

“Cuidado, se você anda por maus caminhos, a ira de Deus cairá sobre ti!”

 

Estou quase certo de que você também já ouviu essas palavras. Elas são muito divulgadas nos púlpitos, praças, livros, canais de televisão, congressos e celebrações. São palavras que fazem o coração tremer. Confesso que já perdi o sono pensando nelas. Principalmente porque ainda menino fiz questão de confirmar e descobri que elas realmente estão na Bíblia. Adolescente que está descobrindo o mundo, as cores, os sonhos, os afetos, a sexualidade, sentei num banco ao fundo de uma Igreja, olhei para o Deus crucificado e perguntei:

 

â€œÉ verdade que Você pode fazer mal pra mim?”

 

Essa pergunta me perseguiu por muito tempo. Eu não podia acreditar que o Deus que era todo Amor havia criado uma máquina de tortura chamada inferno. Lembro da minha bisavó. Meses antes de seu falecimento fui visitá-la. Ela já estava bastante enferma e me confidenciou o seu maior temor: “Bruno, eu não quero morrer porque tenho medo que Deus me mande para o inferno!” Eu, assustado, tentava retirar aquele desespero de seu coração. Ela me respondia com um sorriso dizendo: “obrigado Bruno, agora me sinto melhor!”

 

Lembro as terríveis palavras de um dos personagens do livro Os demônios de Dostoiévski:

 

“Deus é o medo depois da morte!”

 

É verdade, muitos de nós dizemos que O amamos porque temos medo de um fim destruidor. Muitos ainda não entendemos que um dos maiores motivos pelo qual Jesus assumiu nossa humanidade foi justamente este: retirar-nos o medo de Deus! “Quem tem medo não pode amar nem sentir-se amado”, escreveu um dos seus mais íntimos amigos. â€œPai nosso...”

 

Faz dois meses, em uma viagem ao Ecuador, ao meu lado estava um casal de jovens hippies. Puxei conversa com eles e entramos no tema da religião. Eles me disseram que embora não fizessem parte de nenhuma confissão, acreditavam que Jesus era o melhor que a Bíblia poderia oferecer. Fiz silêncio, eles tinham entendido o essencial!

 

O Amor não pode criar máquinas de torturas. Nossa ira sim é capaz de ferir e matar. O Amor, ao contrário, cria jardins, onde os afetos caminham livres e brincar é uma lei. “A glória de Deus é o homem vivo!” dizia um homem santo chamado Irineu.

 

Hoje, olho a mesma cruz que ainda menino aprendi a admirar. Recordo que as palavras que nos fazem ter medo de Deus continuam sendo anunciadas por todos os lugares. Acho que elas fazem Deus chorar. Elas fazem sofrer o Amor crucificado que nos amou até o fim. Lembro que as crianças estão me ouvindo. E então, me surpreendo, pois já não sou eu quem faço aquela pergunta. É Ele:

 

â€œÉ verdade que você pode fazer mal pra Mim?”

"Desperta-dor!!!"

by Bruno Franguelli,sj

 

Aconteceu nos tempos em que eu tinha o privilégio de respirar todos os dias ares litorâneos. Era noite na capital paraibana. Meu relógio apontava meia-noite. O clima era bem quente, mas agradável. Deitado na rede, mantinha os olhos fechados na esperança de um sono próximo. Inesperadamente, a campainha tocou. Era tarde demais para receber uma visita comum. Resisti levantar-me para atender. A campainha soou novamente. Com olhos sonolentos, abri a porta do quarto e segui até a entrada da casa.  Com um misto de curiosidade e receio que passarinhavam em mim abri o portão de entrada...

 

Diante de mim, um jovem em prantos pedia desculpas pelo incômodo. Dizia que tinha algo muito importante a me dizer e pedia alguns minutos da minha atenção. Eu estava contagiado pela surpresa e curiosidade daquele instante. Mil situações passavam pela minha cabeça. O que vinha buscar um jovem bem vestido e portador de um carro importado àquela hora da noite? Respirei fundo e deixei que suas palavras se derramassem espontaneamente, à medida das lágrimas que as acompanhavam. Começou seu relato dizendo que realizava um doutorado em Engenharia, pertencia a uma família muito rica e tinha toda a segurança dos bens materiais, mas lhe faltava algo, e este era o motivo da sua visita, não havia encontrado o sentido da sua vida.

 

Depois de suas primeiras palavras, fiquei mais espantado ainda e deixei escapar uma primeira pergunta: “Mas por que você buscou este lugar e a esta hora da noite?” Ele olhou uma cruz antiga sustentada pela parede amarelo acre da sala e confessou: “Algo me dizia que eu deveria vir aqui, pois alguém estava pronto para me receber!”

 

Depois de escutar sua dor, o jovem seguiu mais tranquilo para sua casa. Retornou mais algumas vezes. Começou um desafiante processo de busca. Sua vida havia rompido com a inércia de seus comodismos. Finalmente, seus desejos mais profundos estavam em movimento.

 

O tempo passou. Muitos anos já me distanciam deste ocorrido. Mas, ainda me pergunto pelo seu significado. Significados, às vezes, costumam despertar dores. Por esta razão, raramente seguimos à sua procura. Podem movimentar águas, provocar tsunamis interiores. Talvez tenha sido esta a experiência daquele jovem que teve coragem suficiente para dar-se conta do seu grande vazio existencial, miserável de significados.

 

Lembro as palavras de Leo Tolstoy:

 

“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a chance de me sacrificar por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava segurança em nossa vida tranquila.”

 

Existem dores que necessitam atenção. São como semáforos vermelhos nos advertindo o risco do acidente. Talvez estejamos correndo, preocupados em realizar muitas tarefas e alcançar muitos objetivos, mas o sentido profundo, aquele que alicerça nossa existência, na verdade não acompanha nossas agendas superlotadas. Percorremos distancias consideradas, mas permanecemos acomodados na inércia de nossas falsas seguranças.

 

“Bruno, você está feliz?” é a frequente pergunta que pessoas queridas me fazem. É claro que esperam uma resposta afirmativa. Afinal, quem ama deseja ver a felicidade estampada no rosto do amado. Mas, se respondo simplesmente com um sim, talvez não tenha razões suficientes para justificá-lo. Penso no Renato cantando “Giz”: “Pra ser honesto sou um pouquinho infeliz!” Por isso, quando me perguntam sobre minha felicidade, deixo o silêncio ser resposta por algum tempo e depois complemento dizendo: “estou construindo!”

 

“Não quero pão, eu quero mesmo é fome” dizia Adélia Prado. Deus me livre da satisfação que garante a morte dos meus desejos. Que as dores da insatisfação me arrastem, impulsionem meus afetos até o despertar do meu desejo mais profundo: a busca pelo sentido da minha existência. A busca, sempre a busca!

 

Em qualquer momento, movimento! Em cada ato, um significado sempre maior! Ao meio-dia ou à meia-noite, sempre é tempo de buscar...

 

Às vezes, impulsionado...  por um simples...

 

... “desperta-dor!!!”

"Quanto mais farinha, melhor!" Recordações aos 26...

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Ele morava na casa mais antiga da rua. Para não dizer a mais feia. Quem passava diante dela talvez não acreditasse que tinha gente morando ali. As rachaduras eram profundas e podiam ser notadas de longe. Apesar de não possuir beleza estética nenhuma, aquela casa tinha o conforto que nenhuma outra podia oferecer.

 

“Vô, o que o senhor está fazendo?” eu perguntava.

“Nhoque, pastéis!” respondia ele.

 

Para ele, o verdadeiro nhoque se fazia com a mão na massa. Uma quantidade generosa de farinha era espalhada sobre uma mesa que já havia servido muitas gerações. Suas mãos brancas e delgadas passeavam sobre a mesa atendendo a cada detalhe de sua receita italiana favorita. Meu avô não preparava somente um prato saboroso, mas passeava nas recordações do seu coração italiano que transformava-o –infelizmente- em um incansável torcedor do Palestra Itália (Palmeiras) e também em um homem que preferia assistir aos jogos da Copa do Mundo isolado para poder admirar as partidas do time oriundo das terras dos seus antepassados.

 

E suas mãos, que outrora manuseavam as históricas máquinas das ferrovias de Sorocaba, iam enfileirando a massa do nhoque que já começava a ganhar corpo. Eu, com olhos infantis, permanecia com os braços apoiados sobre a mesa centenária admirando as façanhas culinárias do meu avô.

 

Isso me faz lembrar uma Prosa do Vinícius:

"Às vezes me dá vontade de parar de escrever, descansar minha cabeça no seu duro regaço e ficar lembrando a infância longínqua. É uma velha querida mesa."

 

Meu avô me olhava, respondia minhas perguntas, contava alguma história, mas não desviava sua atenção da sua obra de arte. Lembro-me do cheiro de móvel antigo espalhado nos ares daquela sala improvisada. Do brilho vindo de seus olhos enrugados. Recordo o tom entusiasmado de sua voz que me dizia: “Pastéis, quanto mais farinha melhor!”

 

“Pastéis!” Esse era o apelido dado por meu avô. Ele sempre me dizia que me chamava assim por considerar minhas orelhas um pouco mais abertas que o comum. Era a maneira que utilizava para me fazer recordar que eu também herdava no meu corpo traços italianos.

 

Hoje, quase 2 anos depois que meu avô me disse adeus, ás vésperas de completar os 26, desejo desenhar a imagem daquelas mãos que prepararam o nhoque. Meus olhos, não mais ingênuos e nem infantis, e com as rugas que já começam a aparecer, querem brilhar os mesmos motivos que movimentavam farinha sobre uma mesa antiga. Sou contornos do meu avô. Vida que segue a mesma sina. Sentinela de seu sorriso de lábios alargados.

 

26 anos... o corpo vai superando as descobertas. As expectativas se acomodam em jangadas construídas. Já não frequento as esquinas da adolescência, nem o hall do início da juventude. A vida vai pedindo calma. O coração, esperança.

 

Hoje, minhas mãos se unem em gestos reverentes. A mesa antiga não pode ser esquecida. Quero percorrer caminhos já abertos por aquelas mãos que já não posso mais tocar. Ao meu lado, crianças me observam com atenção, são olhares índios e selvagens, herdeiros destas terras que me receberam. Olho nos seus olhos inocentes e repito esta oração, com lágrimas nos olhos e tentando alcançar o mesmo entusiasmo que um dia eu contemplei:

 

“Quanto mais farinha, melhor!”

Carta ao Pe. Paulo Ricardo: sobre a heresia e as ignorâncias

 

 

Estimado irmão em Cristo Pe. Paulo Ricardo,

 

É com grande pesar que encontrei um vídeo com tuas palavras sendo difundido nas redes sociais sobre os pronunciamentos do cantor cristão católico Guilherme de Sá da Banda Rosa de Saron durante um programa de televisão.

 

Sou Bruno Franguelli, tenho 25 anos e sou jesuíta há 9 anos. Acompanho a Banda Rosa de Saron desde os 17 anos de idade. Durante este tempo, tive a oportunidade de conhecer de perto cada um dos integrantes da Banda, e de maneira especial o Guilherme de Sá, pois sou seu amigo e diretor espiritual de sua mãe. Conheço de perto sua difícil trajetória e seu testemunho humano e cristão. Aliás, história que ele mesmo nunca ocultou e fez questão de partilhar com todos os admiradores.

 

Sim, é realmente com muito pesar que encontrei tuas palavras sendo difundidas nas redes sociais. Palavras que condenam, ferem, matam. É muito triste encontrar um cristão condenando o outro como herege ou ignorante. Heresia não seria isto: condenar um irmão? Ignorância não seria pronunciar-se a respeito de alguém sem conhecer profundamente sua história e o seu coração? E ainda mais triste é saber que não existe a mínima razão para que ele seja tratado desta maneira. Qualquer lúcido teólogo elogiaria as belas palavras de acolhida, diálogo e amor que saíram da boca do Guilherme de Sá.

 

É heresia respeitar outras religiões e crenças? É errado reconhecer que Jesus veio para todos e há sinas do Deus vivo em realidades que desconhecemos? Não é verdade que há cristãos fanáticos “bitolados” que desejam fazer da Igreja um reduto de perfeitos, salvos e não uma Igreja boa “Samaritana” que vai ao encontro do diferente e elogia a fé dos “pagãos” assim como seu Fundador o fez? Fazer uma analogia entre Francisco e João Paulo II significa desrespeitar e esquecer Bento XVI? Onde está o erro?

 

Pe. Paulo Ricardo, este “sujeito” que o senhor menciona, chama de herege ou ignorante, é um irmão que eu e milhares de jovens católicos, protestantes e sem religião amamos e estimamos.  Sim, escrevo em nome de muitos rostos que foram e continuam sendo transfigurados pelo trabalho evangelizador do Guilherme de Sá e de toda a Banda Rosa de Saron. Rostos que encontraram na beleza da poesia de suas canções um reflexo do amor de Deus. É a Rosa de Saron que nasceu em nossos desertos existenciais.

 

Teu pronunciamento pode até ser válido pelo direito que te confere a liberdade de expressão, mas talvez tuas palavras estejam um pouco diferentes daquelas amáveis, acolhedoras e nunca excludentes que foram pronunciadas pelo Nazareno. E atitude bem diferente dAquele que jamais condenou alguém por heresia e sim por hipocrisia.

 

Com respeito humano e cristão:

Bruno Franguelli,sj

 

Imperfeito, graças a Deus!

by Bruno Franguelli,sj

 

Prometi escrever sobre este tema há algum tempo atrás, em alguma crônica perdida no histórico deste blog.  Não escrevo, muito menos publico, palavras precipitadas. Prefiro as palavras demoradas, buriladas dentro do moinho das minhas próprias e mais difíceis experiências humanas. Momentos intranquilos e complexos em que descubro uma das mais duras verdades minhas: sou imperfeito!

 

Quando criança, os adultos me ajudavam a acreditar no contrário. Bastava repousar um lápis colorido em um papel em branco e mostrar para eles, que meu sorriso se alargava por receber cachoeiras de elogios. Alguns diziam que eu tinha vocação para desenhar. Com muito esforço, conseguia alcançar as melhores notas da turma e era acreditado como o mais inteligente da família. Com um violão ao colo, passava os dedos inflexíveis sobre as cordas e os outros já ficavam imaginando a mim um integrante de uma nova modalidade de “The Beatles”. E os amigos? Eram muito poucos. E afirmavam: “Bruno sabe eleger e cultivar muito bem seus amigos!” Ah… além de tudo era reconhecido por saber rezar e por ter um coração cheio de pureza. E eu, me convencia cada vez da minha divina perfeição.

 

No entanto, a vida começou a revelar-me a verdade. E... a duras penas, fui entendendo que eu não era tão perfeito como imaginava ser. Meus rabiscos se perdiam, eram esquecidos diante de outros tão vistosos. Também, chegaram os fracassos escolares e as notas ridículas. O violão… não me tornei amigo dele e de nenhum outro instrumento musical. Confesso que a falta desse talento ainda dói em mim. Quanto aos relacionamentos… não sou tão bem sucedido como esperava. E o coração… é um verdadeiro albergue que necessita constantemente de limpeza e ordem.

 

Imperfeito, indígno e despreparado. Certezas essas que me maltratam diante de uma sociedade e muitas vezes, uma Igreja, que esperam tanto minhas perfeições dançando impecavelmente nos seus palácios e púlpitos. Um dia, fiz um retiro muito libertador, entendi que perfeição é bem diferente de santidade. E mais ainda, que somente um imperfeito pode ser santo. Entendi que santidade não tem nada a ver com pureza de anjos e sim com o amor, a misericórdia, com o perdão que nos abraça antes do erro. O anseio pela perfeição sim é um obstáculo para a santidade. É egoísmo desumano e anticristão que busca ser melhor do que os outros e não o melhor para os outros. E aprendi que ser melhor para os outros muitas vezes significa apresentar-lhes nossos próprios limites e imperfeições.

 

Que vergonha sinto quando tenho vegonha de dizer quem sou. Hoje, rezo palavras minhas, canto meus próprios poemas e insisto em não ter medo de olhar com amor minhas imperfeições desabrochadas nas decepções, fracassos e desilusões. Graças à minha imperfeição, eu posso enxergar! Aprendi a pedir a Deus que eu não perca a esperança de plantar, simplesmente porque a árvore não deu frutos. Aliás, é desfrutando da sombra de uma dessas árvores que escrevo estas palavras. Esta crônica nasce de uma árvore que não deu os frutos que eu esperava. Mas, talvez, tenha me surpreendido com outros frutos, que eu não esperava.

 

E eu sigo, aprendendo a amar minha humanidade imperfeita. O Caetano me ajuda a compreender ainda mais esta realidade quando canta: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

 

E meu coração, repleto de cicatrizes, aos poucos, vai aprendendo a cantar:

 

Imperfeito, graças a Deus!

Distante de casa, perto de mim

by Bruno Franguelli,sj

 

Equipado como um mochileiro e presenteado com uma sensação de mistério, tomei a decisão de entrar pela primeira vez na Amazônia peruana para conhecer de perto o olhar indígena. Viajei em um carro superlotado que, por alguns “soles”, me levou para aquele lugar desconhecido. O motorista me deixou próximo à uma trilha que me conduzia a um rio. Com um catellano “selvagem” me disse que, chegando à margem, eu necessitava somente gritar a palavra “guaro” e assim se aproximariam alguns nativos para me ajudar “a passar para a outra margem do rio”.

 

Guaro é uma espécie de tirolesa em forma de elevador, feito pelos próprios nativos para possibilitar o acesso à comunidade nativa. Meus olhos estavam arregalados, atentos e maravilhados. Contemplando aquele “guaro” conduzido por jovens indígenas e a correnteza abaixo de mim, vinha ao meu coração uma certeza: estava sendo transportado para outro mundo! Quem sabe não foi o mesmo espanto que moveu Guimarães Rosa a escrever A terceira margem do rio?

 

No meio daquela travessia - que me custou alguns segundos e um par de  lágrimas- muitos pensamentos me vinham a mente: o sofrimento dos povos indígenas, seu amor pela natureza, sua sensibilidade e seus poucos recursos... E para um jesuíta, é claro, a nostalgia deixada pelas famosas reduções jesuíticas da America Latina. Era uma mistura de sentimentos e reverência que tomavam meu coração aberto para aquela novidade que se apresentava diante dos meus olhos.

 

Encontrei um jardim enfeitado de sonhos indígenas. Uma capela de mistérios cristãos desenhada segundo seus costumes. Salas de aula distribuídas e assombradas por um verde indescritível. Toda esta beleza era contornada com águas que cantavam suave sua limpidez. Tudo isso me transportava para séculos atrás e me devolvia para a atualidade com uma alegria transbordante. Os pés descalços e os olhares curiosos das crianças indígenas me recebiam com espanto, talvez, com o mesmo sentimento que me assombrava.

 

Me convidaram à sua mesa. Ofereceram-me uma bebida chamada “Masato”, que depois me informaram que seu ingrediente especial era saliva deles, componente indispensável para a fermentação. Tudo bem, relaxei minha imaginação “civilizada” para que meu corpo fosse hospitaleiro e reagisse com ótima digestão.

 

Passar para a outra márgem não é fácil. Mas é extremamente necessário para aquele que se sente chamado a ocupar-se de coisas humanas. Esta é a tarefa principal dos que desejam servir a humanidade: tomar o "Masato" fermentado com as lágrimas e salivas daqueles que te olham com olhos famintos e te oferecem tudo o que são e possuem.

 

Esta foi uma das marcantes experiências que vivi desde a minha chegada no Peru no segundo dia de Janeiro deste ano. Dádivas divinas que meu corpo saboreia como nostalgia-saudade do Éden concupiscentes em mim.

 

Motivos e razões para constatar que:

 

Estou distante de casa, mas perto de mim.

Beijar sem amor

by Bruno Franguelli,sj

Um dos gestos que mais reflete a beleza do que sentimos em nosso coração por alguém é o beijo. Aliás, gesto este que não considero ser exclusivo dos seres humanos. Alguns dias atrás, observei atento e atônito um momento íntimo de carinho entre duas tartarugas. Ao contemplar este incrível acontecimento, me recordava das palavras de Teilhard de Chardin: “toda a criação está amorizada por seu Criador!” E as tartarugas me provaram isso!

 

Beijar é imprimir amor no outro! Permitir que os desejos dançantes do nosso coração sejam inscritos na face ou nos lábios daqueles que amamos. É comprometer-se com quem se ama. Alguns pais costumam presentear seus filhos com um beijo no rosto. Do mesmo modo, de acordo com cada cultura, com um beijo na face costumam expressar-se as amizades mais íntimas. Já os romances se nutrem com um beijo distinto: comunhão de lábios. Quando estas atitudes se dão em total comunhão de afetos, fidelidade e entrega, elas se elevam à dignidade de sacramentos. Sim, isso mesmo, sinal visível daquilo que não podemos expressar com palavras. Quando o beijo amigo ou o beijo "eros" reflete essa comunhão, deixa de ser apenas um gesto qualquer, transforma-se em reflexo do amor apaixonado de Deus. Se você tem alguma dúvida sobre isso, basta ler as apaixonadas páginas do livro dos Cânticos dos cânticos!

 

Mas, infelizmente, existe também o beijo infecundo, estéril. Aquele que se dá sem o verdadeiro desejo de comprometer-se. É dado sem fidelidade, sem amor: o beijo precipitado da balada; do desespero solitário; sem comunhão de corações; o beijo da traição.

 

Beijo da traição...

 

Aquele que Jesus recebeu de um de seus amigos mais íntimos, que o entregou, o mutilou, o matou. Beijo este forjado no desejo de vingança, de violência, de terror. Beijo dado na noite escura do Mestre, não para consolá-lo, mas para atirá-lo para fora da vida. Talvez para os que presenciavam o beijo de Judas, aquele gesto significava apenas uma demonstração de carinho. Talvez até elogiassem a atitude de Judas. Eles não podiam ter acesso ao coração traidor do apóstolo. Mas Jesus conhecia seu íntimo, por isso, com a dor da traição do amigo, seu coração começava a morrer. O gesto que aparentava vida, na verdade era a atitude mais concreta de quem desejava a morte do amigo.

 

Os gestos em si não refletem a pureza de suas intenções. Para que sejam sacramentos eles precisam ser provados junto às ferrugens dos passos mantidos por amor e fidelidade. Estes são beijos, abraços, olhares que provocam vida, doação e verdadeira comunhão de intimidade.

 

Quando isso acontece...

 

A dor e a solidão do nosso Getsemani é suportável e há sentido suficiente para que nossos lábios continuem sorrindo. E então, compreendemos com profundidade o significado das palavras de Teilhard de Chardin:

 

“Toda a criação está amorizada por seu Criador!”

 

Um jesuíta chamado Francisco

 

by Bruno Franguelli,sj

“Se São Francisco fez isso, eu também posso fazer!”

 

Era com esse pensamento que o ex-soldado Inácio de Loyola dava seus primeiros passos na longa estrada de sua conversão. Isto se dava em um dos momentos mais conflituosos da História, entre o final do século XV e início do século XVI. E hoje, em um tempo não menos conflituoso, exatamente no dia em que se completa 400 anos da canonização de Inácio, pela primeira vez um filho seu se torna Papa e adota o nome de Francisco.

 

É verdade que nós jesuítas, nunca esperávamos que um de nós um dia assumiría a sucessão do apóstolo Pedro. Nós, que em muitos momentos da História vivemos relações tensas e difíceis com o Vaticano. Como não lembrar com tristeza os anos em que a Companhia foi supressa pelo Papa Clemente XIV? É possível encontrar nos diários dos jesuítas da época relatos que narram como foram maltratados, obrigados a deixar suas igrejas, missões e colégios. Um tempo em que toda a missão das Américas, que florescia de maneira extraordinária, foi obrigada a deixar de existir do dia para a noite. Embarcações chegavam à Europa provindas de todos os continentes lotadas de “ex-jesuítas”, desde jovens entusiastas, que haviam deixado todas as comodidades de sua vida européia para abraçar as arriscadas missões nos novos mundos, até idosos, que haviam dedicado toda sua vida nesses labores de fé é justiça.

 

E hoje, podemos olhar para este jesuíta chamado Francisco, de atitude simples e profunda, que transparece uma realidade presente em seu coração de pastor: poder é serviço! Não é uma honra para os jesuítas ter um de seus companheiros Papa. É um serviço, semelhante a tantos outros humildes e discretos, que com nossas fraquezas e debilidades, temos prestado à Igreja ao longo de quase cinco séculos. Alguns, parecem estar frustrados e decepcionados com as atitudes de simplicidade do Papa Francisco. É possível pensar que, na verdade, o que esses esperavam mesmo era um sucessor do Imperador Constantino e não o sucessor de um pobre pescador da Galiléia.

 

Como Inácio, que há quase cinco séculos dizia estas palavras, podemos repetí-las hoje juntamente com o Papa Francisco:

 

“Se São Francisco fez isso, eu também posso fazer!” 

“Não creio mais na Igreja!”

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Diante de tanto tumulto relativo às últimas notícias veiculadas pelos principais meios de comunicação sobre a Renúncia do Papa e os escândalos hierárquicos do Vaticano, afirmações como “Não creio mais na Igreja” se fazem presente em muitas vozes até mesmo no seio da Igreja. Mas, afinal, em meio a toda essa realidade, ainda faz sentido proclamar em todos os domingos: “Creio na santa Igreja Católica?”

 

NÃO! Se cremos...

 

Na Igreja como objeto da fé.

Em uma Igreja meramente institucional, regida por leis inflexíveis e exteriores.

Em um Papa que é semelhante a um semideus, um ser distinto de todos os seres humanos, dotado de poderes especiais que apartam de si qualquer sinal de imperfeição.

Em uma instituição inabalável e exclusivamente portadora da Verdade.

Na Igreja como sociedade perfeita.

 

SIM! Se cremos...

 

Na Igreja como comunidade onde se vive a fé.

Na Igreja como comunidade de ministérios que está em constante conversão.

Em uma Igreja desejosa em dialogar com o mundo atual e com seus principais desafios.

Na Igreja boa samaritana que hospeda, protege e alimenta em seu seio os mais sofredores.

Na Igreja discípula, humilde e fiel aos ensinamentos de seu Fundador.

Na Igreja do abraço e do Pão, que se alimenta da Eucaristia para que fortalecida possa reconhecer e lutar pela dignidade do homem, principalmente dos mais abandonados.

Em uma Igreja onde o poder é um serviço libertador; a fama é oportunidade para amar e a principal riqueza é apego ao Evangelho.

Na Igreja amada pelo Pai, alimentada pelo Filho, animada pelo Espírito a abrir-se sempre mais à novidade e às surpresas de Seu sopro através dos sinais dos tempos.

Em uma Igreja pobre, humana, servidora, amável, apaixonada, compassiva e necessitada de conversão.

E finalmente, em um papa humano; ministro da unidade; apegado ao espírito do Evangelho; aberto ao diálogo com o mundo contemporâneo; um verdadeiro pastor que cuida, protege e está disposto a dar, se necessário, sua própria vida por suas ovelhas.

Em um papa humano e humilde que esteja disposto a reconhecer sua debilidade e fraqueza de tal maneira que, para o bem da Igreja, livremente renuncie a este ministério.

 

E agora? Em que Igreja cremos? Vale a pena professar a fé na Igreja? Será que temos motivos suficientes para dizer:

 

“Não cremos mais na Igreja?”

 

Natal: subversão de Deus

by Bruno Franguelli,sj

 

 

"Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra. Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva a arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a ouvir-se de longe."

 

Ao invés de um poder sobrenatural, a fragilidade de uma criança…

 

"Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança bonita, de riso natural. Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece. Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares, e foge a chorar e a gritar dos cães."

 

Ao invés da seriedade de um guerreiro, o sorriso simples e leve de uma criança…

 

"A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas."

 

Ao invés de me apontar para o céu e às coisas sobrenaturais, abre os meus olhos para contemplar o mundo com o espanto de uma criança...

 

"Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer nós brincamos com as cinco pedrinhas no degrau da porta de casa."

 

Ao invés do formalismo e da gravidade, não usa gravatas e sabe contar piadas com a expontaneidade de uma criança…

 

"Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho, sorrindo para os meus sonhos."

 

Ao invés da apreciação à lei e às regras comportamentais, um apreço ao deleite, ao prazer, ao brincar despretencioso de uma criança…

 

"Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu brincar."

 

Obrigado Fernando por me deixar brincar um pouco com o teu Jesus criança…

 

"Ele será um sinal de contradição." Lucas 2,34

Natal: subversão de Deus

 

ref. Os trechos em destaque acima são retirados do "Poema do Menino Jesus" de Fernando Pessoa.

Sobre Filosofia e... Poesia

Quero partilhar contigo o discurso que fiz por ocasião da minha formatura ocorrida no último dia 30 de novembro na Faculdade jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) em Belo Horizonte-MG.
 

 

Não viver é perigoso!

By Bruno Franguelli,sj

Naquele dia acordamos bem cedo. Experimentávamos os deliciosos ares frescos das primeiras horas da manhã. O sol ainda não havia despertado. No carro, havia algumas malas e muitos pacotes com conteúdo alimentício. Ainda meio adormecido e carregando um travesseiro, entrei naquele carro que nos levaria para passar um dia inteiro na praia. Sim, era possível ir a praia e voltar no mesmo dia. Sorocaba, minha terra natal, fica a menos de 200 km de distância do Litoral de São Paulo. Era um pouco cansativo, mas ao chegar, todo esforço era compensado pelo desfrute das águas marinhas e as “farofas” que realizávamos nas areias. Éramos “farofeiros” profissionais, nada faltava na caixinha de isopor. Nos profissionalizamos ainda mais depois de alguns anos, quando compramos uma imensa tenda, que nos obrigava a chegar cedo para ter nosso barraco garantido no pedaço mais badalado e privilegiado da praia. Naquela manhã, enquanto meus pais descarregavam toda aquela parafernália, corri ao encontro das águas. Sempre amei o mar. tem tanto mistério dentro dele... Porém, mistérios possuem limites quando podem prejudicar nossa existência. Foi assim que me deparei com uma placa fincada na areia que nos advertia: “Perigo!” A partir desse momento, meu amor pelo mar começou a conter uma dose considerável daquele sentimento tão indesejado, mas sempre presente em nós: o medo.

 

Poetas e filósofos já nos disseram que viver é muito perigoso. O Guimarães colocou isso na boca do Riobaldo. Sartre também afirmou a mesma realidade. Porém, gostaria de dizer a eles que me deixam com medo quando fazem este tipo de afirmação. Se o desejo deles é que eu viva mais intensamente, digo que o efeito que causam em mim é justamente o contrário. Quando ouço ou leio uma afirmação dessas sinto o mesmo pavor que tive ao me deparar com aquela placa na praia. Quando sabemos que o perigo está à nossa frente, nada nos resta senão fugir. E quando nos é dito que viver é perigoso... para onde correremos?

 

Penso nas expedições que chegaram ao Brasil no século XVI, também naquela máquina genial de Santos Dumont. O que seria deles se fossem dominados pelo medo? Não gostaria de te passar a impressão de irresponsável ou mesmo ingênuo diante da realidade. É claro que sei qual é o motivo que fez “salva-vidas” fixarem aquela placa na areia da praia. Anúncios desse tipo são produzidos por pessoas que zelam pela vida dos outros. Todos sabemos disso. E isso é louvável. Desejo que cada dia mais os perigos reais sejam anunciados e postados em todos os lugares para nos proteger. Porém, por favor, não digam que viver é perigoso!

 

“Não viver é perigoso, seu moço”, modificando o Riobaldo do Guimarães. Viver é uma delícia! Os perigos existem, mas não estão no viver. Eles estão justamente no contrário: no não viver! Conheci gente que nunca se permitiu tomar banho de mar e depois rolar na areia feito "bife à milanesa", justamente por que teve medo. Encontrei-me com pessoas que justificam seu fechamento à um relacionamento amoroso, porque permitiram que outros destruíssem seus sonhos de amor. Há muitas pessoas - e possivelmente você e eu - que não viveram experiências marcantes na vida porque o medo os roubou deles mesmos. Moramos próximos a precipícios justamente porque muitas vezes nos negamos viver e acabamos optando pelo medo. É por isso que acho tão bela e verdadeira a afirmação: “O oposto da fé não a dúvida, mas o medo. E o sinônimo da fé é a coragem.”

 

Perigoso sim, é andar na contra-mão dos nossos afetos. Reprimir desejos tão vitais como a experiência do amor. Perigoso é se desfazer da liberdade de viver. Não estender as asas para voar por medo. Forçar sorrisos pelo temor do choro. É um perigo congelar o coração pelo temor do desequilíbrio. Agora, a vida que a existência humana oferece, dizem os autores sagrados, é invejada até pelos anjos. Viver é... Poxa, difícil conceituar. Vou tentar de novo.

 

Viver é...

 

É...

 

Bom, se desejar dar sua definição do que significa viver nos comentários abaixo, fique à vontade.  Espero que essas palavras tenham soprado coragem nos teus olhos/ouvidos: não viver é perigoso!

Convites rejeitados: uma oportunidade para amar diferente

by Bruno Franguelli,sj

 

 

“Um homem estava dando um grande jantar e convidou os seus amigos. Mas todos, unânimes, começaram a se desculpar...”

 

Quando estamos ao lado de alguém que amamos, qualquer lugar que seja se transforma em paraíso. E quando se está no paraíso, cada instante é motivo mais que suficiente para celebrar a existência. Recordo-me do título de um instigante livro de Thomas Merton: “Homem algum é uma ilha”. Uma das afirmações mais lúcidas que já ouvi sobre o ser humano. Não somos uma ilha isolada, mas arquipélago ornado de cores, sons, aromas, sabores e amores.

 

Penso na estória que Jesus contou. Jesus não dizia coisas abstratas. Ele falava do homem, da vida, do dia-a-dia. Jesus partilhava do seu coração, das coisas que o moviam. Esse é o segredo para quem deseja romper com a superficialidade diante dos outros. E claro, isso custa caro. Nessa estória o Nazareno conta de alguém que amava seus amigos e queria partilhar-lhes desse amor.  Era homem que descobriu-se arquipélago. Por isso, preparou um banquete de festa. Tudo foi preparado nos mínimos detalhes. Quando se ama, se faz o melhor. Mas, no momento de se concretizar a festa, seu convite é rejeitado pelos seus amigos. Sua festa se transforma em pranto. Seu sorriso em silêncio. E no coração, aquela certeza: sem os que amo ao meu lado, minha festa não pode acontecer!

 

Em algum momento da vida, dificilmente alguém não viveu experiência semelhante. Fazer um convite é dar um passo além de nós mesmos. O ato de convidar nos confronta com uma resposta que não podemos controlar nem manipular. É um salto no escuro, pois não nos garante reação alguma. Quando a resposta é positiva, nosso coração se enche de festa, a alegria está pronta para, ao modo do pequeno príncipe, se iniciar bem antes do momento do encontro. Porém, se a resposta não nos chega ou é negativa, nos deparamos com o fracasso, com aquela dor insuportável que lota os consultórios terapêuticos: o sentimento de rejeição.

 

É neste momento que o desfecho da estória de Jesus vem em nosso socorro:

 

“Assim disse o homem: se aqueles a quem eu amo não aceitaram meu convite, vou em busca daqueles que não tem ninguém que os ame, desejo que minha casa esteja repleta”.

 

É interessante perceber que este homem conseguiu superar as dores do seu coração ferido. Foi além, teve um olhar diferente sobre a situação. Ao ser rejeitado, seu coração se abriu para experimentar o amor de uma maneira nova.  Sua rejeição se transforma em graça. Seu pranto, em alegria. Se Descobre arquipélago mais uma vez. Percebe-se capaz de continuar amando. O NÃO de seus amigos permitiu-lhe responder SIM ao convite daqueles que realmente desejavam desfrutar da sua companhia, comer do mesmo pão e saciar-se de seu banquete de festa.

 

Assim seja em mim, assim seja em ti. Se alguém nos disser NÃO, que saibamos doar nosso SIM! Deste modo, não seremos ilhas solitárias e conseguiremos superar as dores causadas pelos...

 

convites rejeitados.

Carpe Diem: sobre a ressurreição dos poetas mortos

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Recordo o dia em que meu pai comprou um videocassete. Aquele aparelho era uma raridade. Poucos tinham. A compra foi feita com suavíssimas prestações de vários anos. Esse era o preço da alegria de poder assistir a filmes diferentes daqueles que passavam na televisão. Foi o dia em que nos libertamos de “A lagoa azul”. Mas, para isso era necessário ter o nome “limpo” antes de fazer uma ficha na locadora. Locar filmes recém-lançados era mais caro que alugar antigos. Além disso, eram super disputados. Sexta feira era o dia certo para correr em alguma locadora o quanto antes e conseguir aquele filme que tinha estado em cartaz nos cinemas há dois anos. Não podíamos esquecer de entregá-los no dia correto. A multa dos “lançamentos” era muito cara. Quem nunca pagou também alguma multa por devolver filmes sem rebobinar? Naquele tempo, para assistir a um filme os desafios eram muitos.

 

Hoje as coisas mudaram. Vivemos imersos em chuvas de filmes que diariamente invadem nossos olhares através da internet com toda facilidade. As locadoras desapareceram. Podemos ter acesso em poucos segundos a tudo que desejamos. Filmes são produzidos de maneira desenfreada. Temos acesso a mundos que outrora era quase impossível conhecer. Um ganho fabuloso para a humanidade!

 

Mas, resisto, volto a locadora! Sigo em direção às estantes temáticas, que são inúmeras. Hoje, não estou em busca dos lançamentos. Corro em direção aos clássicos. Encontro-os num canto qualquer, quase escondidos, esquecidos. De repente, um filme salta da estante e atinge deliciosamente a minha memória afetiva: “Sociedade dos Poetas Mortos”. Nesse instante, meus pensamentos se unem aos afetos e começam a dançar... Sou transportado para uma outra época, um outro lugar. Sinto-me rodeado de jovens ousados que buscam numa gruta um lugar seguro apara se aventurarem nas asas da poesia. Ao meu lado, vejo um professor que me ensina a voar. Escuto seu assovio. Perto dele não me importo, exporto meus primitivos ideais. Sinto-me criança se espantando com a vida. Sou atraído a viver.

 

Tenho amigos bem perto de mim. Ao ouvir as vozes livres que transbordam da gruta não me sinto só. Sinto e penso: a amizade é união de almas solitárias! Interesses intranqüilos se acampam entre nós. Sinto-me parte de alguém. E sei que alguém sente-se parte de mim. Os poetas ressuscitam de novo. Somos sopros de poesia. À minha frente, um poeta querendo ser livre. Deseja expressar seus sonhos em teatro. Se apaixonou pela vida, mas as garras dos exterminadores de beleza lhe roubaram seus sonhos de amor. Entra na morte em busca de vida. Porém, está agora diante de mim. Ressuscitado. Entendi que poetas não morrem nunca.

 

Faça de cada instante extraordinário! Volto à "lucidez". Nem gruta com jovens poetas, nem locadoras diante de mim. A realidade é outra. Mas estaria eu distante da lucidez? Ou estava submergido pela realidade e agora fui transportado para o comum, o padrão, para os instantes sem cor e com poucos risos que costumam chamar... vida?

 

"Ó capitão! Meu capitão!"

CARPE DIEM!

Sobre chicletes e jabuticabas

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Quando criança, eu mantinha um vício que era sempre advertido pelos adultos: engolia gomas de mascar. Aliás, vícios são incógnitas difíceis de decifrar. São absolutamente prazerosos quando praticados, mas dizem que causam efeitos indesejáveis no futuro. Mas eu vivia o meu vício infantil, sem o menor peso na consciência. Ganhava um pacotinho com delícias de todos os sabores: morango, uva, maçã verde, cereja - que, aliás, não sei de onde inventaram este sabor tão diferente do gosto da fruta - e ficava desfrutando daquele sabor que se misturava a minha saliva. Quanto Prazer! Assim como costumamos fazer com todas as coisas que consideramos gostosas, eu desejava possuir, eternizar aquele prazer em mim: engolia. Quanto engano! O sabor se acabava e era preciso desembrulhar mais uma borracha com sabor, mais outra, só mais outra... Era nesse momento, de total descontrole do sabor, que apareciam diante de mim os olhos violentos dos adultos desaprovando meu Prazer.

 

Com o passar do tempo, fui percebendo que tudo aquilo que achava gostoso os adultos me proibiam de fazer. Quantas vezes meus pais me levavam a festas de casamento em chácaras com piscinas e me impediam de botar ao menos a mão na água! Não conseguia imaginar como aquele mundo de gente, com seus perfumes baratos e penteados de curta duração, não se davam ao prazer de mergulhar naquele mundo de sonhos e fantasias que a piscina oferecia. Na verdade, cheguei à seguinte conclusão. Concluí ao meu favor, é claro, que todos eram doidos para imergirem seus corpos no Prazer da piscina. Entre eles e eu existia apenas uma diferença: eles não tinham coragem para isso! É certo que na mesma festa havia crianças comportadas, com vestes solenes e olhares arrogantes. Mas eu não era nada comportado. Não queria ser. E, assim, vez ou outra um adulto chato me dizia: Bruno, observe como eles são bonzinhos! Eu dizia bem baixinho: eu hein, ser bonzinho é ser desse jeito? Não quero fazer parte dessa equipe de mimados!

 

Veio a adolescência, a fase na qual os vulcões começam a entrar em erupção; primeiro, com lavas descoloradas e misturadas com a terra; depois com excrementos mais pastosos e terrivelmente arrasadores. E, de fato, arrasaram minha infância inocente, com meu jeito de ver as pessoas, o mundo - que era tão pequeno. A fantasia da piscina vazia deixou de existir para mim. No meu corpo, começaram a aparecer coisas esquisitas. Quanto mistério sendo revelado ao mesmo tempo! Eu ficava imaginando até que ponto aquilo tudo era bom ou não. Seria só comigo? E comecei a perceber uma mudança na voz. Será que teria vocação de locutor?

 

Música, Igreja, teatro, parque de diversões, circo, filmes, amigos, coca-cola... Essas palavras se tornaram mágicas num caderno de apenas doze páginas. Estavam presentes no meu tabuleiro de prazeres. Aprendi com o tempo sobre a sabedoria da pinguela. Já atravessei muitas. É aquela pequena madeira que pode servir de ponte, presente em muitas trilhas ecológicas e favelas. Mas pinguela também pode significar gancho ou pequeno pau com que se armam ratoeiras, armadilhas, arapucas. Creio que o Prazer é como uma pinguela. Posso servir-me dele para encontrar o caminho da realização e da vida ou ser capturado pelo seu gancho escravizante. Contudo, como vou saber se minha pinguela é madeira que me conduz ao infinito? O desafio está lançado! Não há respostas nem receitas. O que tem de haver é um certo senso para saber se a piscina está em condições seguras para ser usufruída. E, depois, a coragem para desfrutar de sua magia. Lembro das palavras de Nietzsche:

 

“Olhei para este mundo - e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura, dourada, maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu...”

 

Os tempos passaram e continuam passando sem parar. As delícias da infância e os temores da adolescência ainda se fazem presentes de algum modo. Passei por muitas pinguelas que se destroçaram pelo caminho. Trago no meu corpo cicatrizes dessas quedas. Algumas até já desapareceram, deixaram de existir. Minha mãe sempre dizia: depois não diga que eu não avisei! Por isso, obedientemente eu digo que ela me avisou. A vida se oferece toda, e me sinto cheio dela, quero navegar por todos os mares, descobrir todos os atalhos. Tenho sede e quero beber toda a água! Como dizia Adélia Prado: “Não quero pão, eu quero é fome!” Pois, que seriam dos pães, chicletes, jabuticabas, piscinas, sonhos..., se não houvesse o desejo impulsivo de desfrutá-los? Posso imaginá-los chorando de solidão no cantinho escuro de uma festa de casamento onde todos estão forçados a olhar somente para a felicidade fotografada dos noivos. Esqueceram-se de que as crianças estão por lá.

 

Quero entrar na piscina, engolir chicletes, saborear jabuticabas debaixo do pé... Vou plantar um pé dessa fruta maravilhosa. Um dia ela me presenteará seus frutos, eu sei que vai. Quero plantar esperanças, buscar ser feliz na travessia da pinguela. Pois sei que ela me conduz, com as marcas dos tombos e cicatrizes no corpo, ao sonho que tenho desde criança: tocar o Infinito com as próprias mãos!

Dar atenção à dor

by Bruno Franguelli,sj

 

 

Já faz algum tempo que pousei os olhos sobre A insustentável leveza do ser. Fiquei impressionado com o realismo presente em cada página. É uma trama repleta de amor. Presenciei naquela história um amor que dói. De fato, os poetas costumam dizer algumas coisas bem distintas sobre o amor, porém em algo eles não divergem entre si: o verdadeiro amor costuma doer. Alguns até afirmam que sem lágrimas não existe poesia. Concordo com eles. Raramente escrevo sem lágrimas. Provindas de decepções ou conquistas, elas sempre se fazem presente em mim ao escrever. A diferença entre os poetas e outros escritores é que aqueles dão atenção à sua dor.

 

Depois, foi a vez de me encontrar com o amor em Cem anos de solidão. Lá, novamente mergulhei numa profunda história centenária de amores doentes. As gerações passavam, mas as tramas viciosas do amor se repetiam. O amor não tinha novidades. Era um eterno retorno das mesmas histórias sem cor, sem cheiro, sem vida que passarinhavam na vida daqueles personagens. Eram solidões que se encontravam para doer juntas. Eram silêncios atordoantes que modelavam as feições tristes. O amor, para durar, precisa suportar a dor das ausências.

 

Parece que não temos escolha. Ou amamos e nos tornamos vulneráveis, ou nos desertificamos com a aridez de desconhecermos a capacidade de nos entregarmos ao amor. Os ecos dos relacionamentos que vivemos ao longo da vida revelam o quanto este amor nos fragmentou. Parece que quanto mais inteiros nos dispomos a amar, mais fragmentados nos encontramos. Isso por que a experiência do amor nos revela que somos muitos. Talvez fosse por essa razão que Stalin decretou proibição a poemas amorosos durante o seu fascismo. Poemas de amor nos empurram para dentro nós mesmos. Ao desfrutarmos dessas “palavras amorizadas”, damos atenção às nossas dores e dificilmente não nos perdemos ‐ ou não nos encontramos - e nos refugiamos em algum escombro outrora desconhecido. Pessoas enrijecidas, autoritárias, envolvidas com anseios ditatoriais, temem sucumbir aos deleites do amor. Amar é render‐se ao mistério do desapoderar­â€se.

 

Milan e Gabriel falaram seus fragmentos na boca dos próprios personagens. O escritor, ao dar atenção às suas entranhas, distribui, desde seu eu mais profundo até o mais superficial entre suas criaturas literárias. Desse modo, ao ler uma “estória”, participamos de um ritual antropofágico. Somos alimentados com as vísceras daquele que se desnudou diante de nós para nos dar de comer. Ao dizer isso, penso que você e eu estamos, de algum modo, participando do mesmo ritual.


Queria ainda falar de Dostoievski, Machado, Victor, Neruda, Nicholas, Adélia, Rubem, Clarice, Camões e de tantos outros. No entanto, eles nos alimentarão em outro momento. Vou congelá‐los para outro ritual. Quem sabe por mais cem anos? Temo que te faça enjoar. Ainda que seja saborosa, qualquer exagero nessa antropofagia coloca‐me em risco. Temo te satisfazer e te perder! O amor é leve, porém insustentável. 

SOBRE CIRCOS E OUTROS ESPETÁCULOS

by Bruno Franguelli,sj
 

“Garcia júnior” era o nome dele. Chegava em cortejo através de muitos caminhões velhos e sujos de barro originário de outros bairros. Eu ficava debruçado na janela da casa de minha avó com os olhos arregalados vislumbrando cada movimento das inúmeras pessoas que descarregavam aquela parafernalha. O mesmo matagal onde eu depositava com os amigos meu brincar nas horas infantis se transformava em palco de uma das coisas que mais amava: o circo!

 

Não havia pompa alguma. Eram paupérrimas as condições do circo. As mesmas pessoas que trabalhavam duro para levantar a lona furada de céu eram as que atuavam no picadeiro. Havia sim, uma personagem especial, jamais revelada antes do espetáculo. A mais esperada. Tinha até um trailer próprio para morar que ficava estacionado a poucos metros da janela onde eu me debruçava. Essa personagem bizarra era a terrível “mulher montanha”. Uma senhora de uns cinqüenta e poucos anos portadora de umas toneladas de peso. Sua atuação consistia em enfrentar os homens fortes e convidar alguns da platéia para que também disputassem forças com ela. Eu morria de medo da “mulher montanha”. Mas era como um daqueles medos que nos dá prazer. Como nos “trem fantasmas” de parque de diversões. Era só a mulher montanha ocupar seu espaço considerável no picadeiro que aquele frio na barriga me tomava. Certa vez, aquela criatura medonha se aproximou de mim. Não resisti, me escondi no buraco da arquibancada de modo que minha avó, companheira de circo, ficou desesperada com minha fuga. Foi assim que ela encontrou um meio poderoso para que eu não aprontasse tanto: - Eu vou chamar a “mulher montanha”!

 

Esses fatos me tomaram dias atrás, no momento em que estava desfrutando de uma boa conversa com um amigo em um restaurante e apareceram alguns palhaços. Eles provinham de um certo circo itinerante. A apresentação deles era bem curta. Consistia apenas em alguns malabarismos e artes bizarras com fogo. No entanto, eles tocaram em uma das maiores paixões da minha infância. Reencontrei-me com um dos meus mais antigos sonhos: ser palhaço...

 

Sim, eu amava os palhaços! O que mais me agradava nesses brincalhões era a capacidade que tinham de sorrir e provocar risos nos outros. Eram pessoas de outro mundo, imaginava. Nunca estavam tristes. Pelo menos eu nunca os vira senão sorrindo. Nos carnavais meu deleite era ser vestido como um deles. Minha mãe passava dias preparando a fantasia. Era linda, ela não só fazia com carinho, mas com perfeição. Nos concursos, sempre ganhava o primeiro lugar. Esses acontecimentos ainda sobrevivem nos troféus empoeirados de uma infância feliz.

 
No entanto, (Parei de escrever, fui olhar novamente uma foto e...), me assustei com algo que jamais havia prestado a atenção até então. Percebi que na maquiagem feita por minha mãe havia algo muito estranho: pouco abaixo dos olhos se encontrava desenhada uma estrela e, ao lado dela, uma lágrima. Minha nossa – pensei - minha mãe é “poeta”! Não era apenas uma maquiagem, era um poema escrito com desenhos e cores em mim. Eu, que pensava somente nas alegrias do palhaço, apresentava-me diante dos outros como um palhaço que admitia rir e chorar.
 

Está sendo tão espetacular esta descoberta para mim... Estou dizendo isso por que faz apenas alguns minutos que alcancei tal descoberta. Comecei a escrever imaginando outro desfecho. Porém, a liberdade me trouxe até aqui. Nem sei mais como continuar o texto. E acho que tenho de finalizá-lo. É tão triste terminar um texto com o sentimento de que as ideias não acabaram e ainda se tem muito a escrever. Mas, é ainda mais frustrante terminá-lo quando se acredita que ele realmente chegou ao fim. Este não terminou, acho que não vivo tão grande dor.

 

Agora conheço a tristeza dos palhaços. E sei que eles não usam a maquiagem o tempo todo. Hoje, se eu debruçar na janela da minha avó, tenho a infeliz certeza de que o "Garcia Junior" não pode mais voltar. O campinho com matagal não existe mais, provavelmente nem o circo. Tudo isso por que as crianças de hoje não querem conhecer o circo. Elas nunca saberão como é sentir medo da “mulher montanha”. O motivo dos choros talvez sejam os mesmos, porém o dos risos não são.

 

Acho que essa crônica termina sem terminar...

 

Vou me debruçar sobre a janela...

 

 

“E agora ...? A festa acabou...”

by Bruno,sj

 

“Bruno, durma durante o dia para que consiga ficar acordado até a festa começar!”

 

Essas eram as palavras com que minha mãe, sabiamente, me advertia durante todos os “24 de dezembro”. Quem me conhece hoje pode até não acreditar, mas dificilmente eu mantinha os olhos abertos depois das 10 horas da noite. Do sono,  sempre fui amigo. Aqueles que visitam o álbum de fotografias do meu batismo verão que esta íntima amizade começou ainda muito cedo. Nem a fria água batismal derramada sobre minha cabeça conseguiu me despertar. Tenho fotografias com quase todos os parentes, porém, para a infelicidade do fotógrafo, fotos sem sorrisinhos banguelos, sem caretas, sem carinha inusitada. Em todas elas eu permanecia com a mesma feição: rosto enrugado de tanto dormir!

 

Voltando ao dia 24 de dezembro... de um ano que não me recordo. Acho que tinha uns 6 anos. Depois de ouvir aquela advertência da minha mãe durante o dia, anoiteceu. Estava desperto como nunca para ver o papai Noel chegar. Minha mãe e avó mantinham essa magia muito viva em mim. Lembro-me até do tom gritante de suas vozes me chamando para o lado de fora da casa para ver o bom velhinho no seu trenó passear entre as estrelas. A verdade é que eu nunca consegui encontrar o sr. Noel. Quando eu entrava em casa, ele já tinha ido embora. Mas, sempre costumava deixar algum presente simples em cima da cama. Rastros de alguém que escutava meu sonho infantil.

 

Naquela noite de Natal nem isso aconteceu. Lembro-me que faltavam apenas 15 minutos para a meia-noite. Estava desfrutando do colo da minha mãe e por um segundo, vi-me conduzido para outro lugar, muito distante de qualquer festa. Era um sono tão pesado que me fez ignorar toda aquela barulhada. E assim, dormi intensamente... De repente, acordei e não havia mais barulho algum de festa, nem brincadeiras, nada restava daquele momento. Todos ainda dormiam. A noite tinha sido longa para eles. Fiquei indignado e triste. A festa tinha acabado completamente.

 

Lembrei-me desse fato quando pensava em escrever algo sobre os 25 anos que estou completando. Sinto-me um pouco como aquele Bruno ainda menino que dormiu enquanto a festa acontecia. Não que a festa já tenha terminado, mas os encantos da infância, as descobertas da adolescência, os anseios do início da juventude, essas coisas sim terminaram e eu preciso dizer adeus a elas. Tudo passou tão rápido! Ainda continuo saindo de casa para olhar as estrelas, mas não para esperar papai Noel, e sim, para que a beleza delas faça-me refletir sobre os rumos que tenho tomado na vida. Hoje sei, e aprendi à duras penas, que a vida não pode ser feita somente de festas e eventos. Esses passam como fogos de artifício. Todas as festas terminam. Todos os eventos são portadores de uma segunda-feira solitária que nos convoca a recolher o que sobrou e retomar os desafios do cotidiano da vida.

 

Já não posso desfrutar do colo materno em meio aos brigadeiros, enfeites e bolos decorados. O curso da vida que decidi habitar me fez hóspede na casa dos meus pais. E isso é ainda mais evidente neste momento em que deixo o Brasil para habitar terras andinas e mergulhar em mares pacíficos. Vejo diante de mim um novo ciclo de existência clamando para ser assumido. Não estou mais na partida e nem na chegada, vivo a travessia, na terceira margem do rio. E isso me faz crer com Nietzsche que a poesia é real, pois não sobrevivemos de conceitos, mas respiramos metáforas para suportar a existência. Sou transeunte de um mundo ainda por ser descoberto. Tomar posse de mim mesmo tem sido um árduo acontecer. Colonizar-me é atalho seguro para construir-me humano.

 

Nesta etapa da vida, trago um coração cheio de nomes. Rostos que transfiguraram meus dias, provocaram afetos. Braços que me acolheram, perdoaram, compreenderam. Mãos que se estenderam, levantaram, indicaram a direção. Olhos que me retiraram do anonimato de um existir pueril.

 

Amanheceu, a festa parece ter acabado para quem não se economizou. Fito meus olhos no espelho. Eles ainda estão inchados dessa noite sonolenta. As andanças da vida que deixo para trás me provocaram rugas. Tento escondê-las. Não consigo. Tento amá-las: cicatrizes de passos apaixonados dados num dia que não voltará jamais. Não posso ficar do lado de fora da vida. Preciso fazer poesia! Não somente escrever, mas respirar, tocar, cheirar, saborear, viver... Deus.

 

25 anos...Prazer...

 

Ouço novamente a voz recomendante de minha mãe:

 

“Bruno, prepare-se, a festa vai começar!”

 

Sim, mãe, pode deixar, dessa vez prometo te escutar. Hoje, estou um pouco menos imaturo e aprendi, que preciso me preparar também para sobreviver ao fim da festa. Aquele momento em que o empolgante ritmo da música cessar e a algazarra desaparecer no leito de um silêncio total... e de algum lugar se ouvir uma voz sussurrando: “E agora ...? a festa acabou...”

Aos jovens, sobre o "moralismo" na Igreja...

By Bruno Franguelli,SJ

 

Esta carta nasceu dentro do seguinte contexto:

Estava passando alguns dias em missão nos EUA e chegaram-me muitas mensagens de jovens pedindo ajuda. Eles haviam assimilado pregações moralistas e estavam passando por sérias dificuldades. Alguns estavam desesperados a ponto de desistir da vida na Igreja por se sentirem indígnos. Em outros, o desespero era tão intenso que para eles a vida perdera o seu sentido. Como "jovem pastor", eu não pude me calar e escrevi a seguinte carta:

 

"Queridos jovens cristãos católicos,

 

Cada vez mais estamos sendo bombardeados com tantas ideias, pensamentos e afirmações tão distintas sobre Deus e a Igreja. O facebook é um grande veículo para isso. É verdade que existem mensagens consoladoras que exalam confiança e alegria. Mas é também verdade que o Evangelho está sendo usado para nos oprimir e julgar as nossas dificuldades e limites.

 

Pregações moralistas, radicalistas (diferente de radicalidade) e opressoras comprometem o nosso amor à vida, à beleza da criação, à Deus. Essas não nos ajudam a conhecer a beleza da sexualidade e a superar suas dificuldades e desafios. Tais pregadores impõe-nos fardos pesados e obrigam-nos a fazer o que eles mesmos não são capazes de cumprir. Esses chamam de santidade a pureza dos anjos e se esquecem que Deus não nos fez anjos, por isso não nos quer assim.

 

É muito triste perceber que as páginas libertadoras do Evangelho se transformaram em regras de moralismo no microfone de muitas comunidades cristãs. Sim, desse modo as palavras de Jesus são corroídas pelo jogo sutil de falácias que escravizam o cristão e reduz a sua visão. Jovens, precisamos “salvar” o Evangelho, amar a nossa humanidade, nos comprometer com os grandes desafios que desumanizam nosso mundo.

 

Nossa Ética não está em um livro, não pode ser escutada "simplesmente" em belas reflexões sobre documentos. Nosso código de Ética é uma pessoa e tem um nome: Jesus! Como Igreja que somos, precisamos viver em constante atitude de discernimento. É muito mais fácil seguir regras, difícil mesmo é discernir.

 

Por isso, jovem cristão, um apelo aqui fica pra você. Ao ler uma mensagem, assistir a um vídeo ou a uma pregação, comece a se perguntar: essas palavras são libertadoras ou opressoras? Elas são fiéis àquelas que foram pronunciadas na Galiléia, Samaria e Judéia por aquele Jovem que jamais julgou alguém e amou incondicionalmente até o fim?

 

Bruno Franguelli,SJ

Nova Iorque, 25 de fevereiro de 2012"

Solitários e solidários!

By Bruno Franguelli,SJ

 

 

 

"Ouvi de seus próprios lábios palavras encharcadas de dor. Queria me descrever o que sentia, mas não conseguia. O intervalo silencioso de seus soluços era como leito, aí repousavam gritos. Sua respiração era ofegante. Nos seus olhos transpareciam as desesperanças. Seu rosto estava sem cor e pelas rugas escorriam lágrimas desejando alcançar o chão. Sua voz era apenas sussurro desgastado de tanto doer. A verdade era que havia experimentado a dor como nunca."

 

Alguém muito inspirado disse que só o sofrimento humaniza as pessoas. Me assustei com essa afirmação. Ela é dura demais. Há palavras que são tão difíceis de suportar... Eu estava no aeroporto de Salvador, comprei um livro de bolso para tentar suportar as pausas do tempo: Noites brancas de Dostoiévski. O livro exala um sofrimento insuportável. Cada página está envolvida com criativas dores, concebidas todas no útero de um amor que não aconteceu. Escritores geralmente são especialistas em sofrimento. Criam personagens para distribuir neles suas própria dores. Fazem sucesso, transformam-se em clássicos por que conseguem dar nome aos seus sofrimentos e cunham respostas para tornar suportáveis as dores do mundo.

 

Das lições que constantemente aprendo do sofrimento, a que ao meu ver é a mais sublime é a solidariedade. O sofrimento nos faz solidários com aqueles que sentem a mesma dor. Quando sou incompreendido, sinto-me parte de uma imensa multidão de homens e mulheres que são injustiçados. Se meu amor não é correspondido, posso unir-me a tantas pessoas que choram a dor que o amor lhes causou. O sofrimento nos une profundamente ao processo divino da humanização. Quando me sinto solitário, Deus parece fazer-me solidário com aqueles que não tem ninguém por eles. Aqueles homens e mulheres que são tratados como se não tivessem nome nem história, que sujam nossas ruas e praças com sua insignificância humana, como se fossem culpados por sua existência pueril.

 

Se uma lágrima escorregar pelas curvas do teu rosto, saiba que ela se une a muitas outras e juntas se transformam em mananciais de vida, de vida verdadeira. 

Inácio de Loyola: um santo distante da perfeição

by Bruno Franguelli,sj
“Fez pássaros ressuscitarem! Foi arrebatado ao coro dos anjos! Recebia diariamente o menino Jesus em seus braços...” Desculpem, mas a vida do santo que desejo aqui relatar não possuí nenhum desses portentos gloriosos. Além disso, sua aparência nem era tão atraente. Ele era manco, por isso caminhava com dificuldades. O que será que de fato pode atrair nossa atenção nesta figura emblemática chamada Inácio de Loyola?

 

Vou tentar responder. Mas, não pretendo relatar a vida desse homem a partir de suas virtudes. Acho que já estamos fartos de saber sobre histórias virtuosas na vida dos santos. Me perdoem, mas vou fazer o caminho inverso. Pretendo relatar os seus limites e imperfeições. E já vou dizendo de partida que perfeição é bem diferente de santidade. Aliás, uma é oposta à outra. Enquanto a perfeição é o estado em que a pessoa está voltada para si, para o seu sucesso, diferentemente, a santidade está dirigida totalmente para o outro. Na santidade, o outro é sempre o mais importante. Sobre essa riqueza, podemos aprofundar em outro momento.

 

Voltemos a nossa história das imperfeições de Inácio... Primeiro, era um homem ambicioso ao extremo. Considerou “fichinha” imitar são Francisco de Assis. E mais ainda, depois de incluir os mais rigorosos santos praticantes de penitencias e sacrifícios na sua lista de imitação, achou-se forte o suficiente para superar a todos. É importante ressaltar também que, como muitos de nós, Inácio achava que os olhos de Deus não tinham pálpebras e estava a todo tempo vigiando seus pensamentos e ações, mesmo as mais banais. Por isso, tratou de fazer uma confissão que teve somente três dias de duração.

 

Outro fato interessante foi o encontro “amistoso” que ele teve com um mouro durante sua caminhada para Jerusalém. Ao ouvir algumas besteiras que o mouro dizia a respeito da Virgem Maria, Inácio encheu-se de tanta raiva que após o mouro partir, deixou seu  futuro nas “mãos” da sua companheira mulinha. Vou explicar como Inácio fez isso. Assim “raciocinou” Inácio: se a mula entrasse na cidade por onde fora o mouro, Inácio iria apunhalá-lo. Caso contrário, ou seja, se a mula seguisse por outro caminho, então ele seguiria em frente e deixaria o mouro em paz. Ufa, a mula foi mais inteligente e decidiu lutar pela paz no mundo. Gostaria aqui de abrir parênteses e fazer um agradecimento inusitado a esta mula que permitiu que o meu fundador saísse dessa, são e salvo. Certamente ninguém lembra de você mula, mas todos sabemos que sua ação foi de extrema importância para que nós jesuítas pudéssemos existir. Sem seu ato heróico não existiria a Companhia de Jesus. Temos certeza que por esse feito, você agora goza de um espaço privilegiado dentre os animais no Reino dos Céus! Quem sabe ao lado do jumentinho que conduziu Jesus!

 

Bom, feitas as devidas homenagens, voltemos ao nosso santo. Ao chegar em Jerusalém, Inácio se encantou com todos os lugares. Afinal, o próprio Senhor Jesus tinha pisado naquele chão. Inácio ficava por horas contemplando aqueles espaços, aquele solo tão sagrado. Na verdade, se apaixonou tanto pelo lugar, que decidiu viver o resto da sua vida ali ajudando as pessoas. Quem sabe sendo guia espiritual de peregrinos desorientados. Mas, não diferente de outros tempos, era tempo de guerra naquela região. O superior franciscano pediu que Inácio se retirasse o mais rápido possível daquele lugar. Inácio resistiu ao máximo. Precisou sair de lá à força. Foi expulso humilhantemente carregado pelos guardas. E para demonstrar sua teimosia e subversão, enquanto era carregado, ainda sorria como uma criança que não se importa em ter seu pirulito arrancado de suas mãos. Dessa vez, meus sinceros agradecimentos vão para o provincial franciscano e os guardas que retiraram Inácio de Terra Santa há tempo. Como a mulinha, graças à vocês também, hoje podemos nos dizer jesuítas.

 

Bom, chega por hoje. Santo Inácio pode ficar zangado comigo. E alguns companheiros jesuítas também. O que importa diante disso tudo é saber que, ainda que nosso santo fosse dotado com todas essas imperfeições, Deus fez de Inácio um homem profundamente humano, e por isso mesmo, profundamente santo. Inácio, como ele mesmo disse, “era ensinado como um aluno o é por seu professor”. Se você deseja aprofundar a história de Inácio, vai uma dica. Você não verá nada de extraordinário na vida dele se procurar fatos mirabolantes em sua história. Mas, se você procurar enxergar a história de Deus na vida de Inácio, cada palavra de sua autobiografia e de suas cartas, cada ensinamento nos seus Exercícios Espirituais e nas Constituições da Companhia de Jesus se tornarão absolutamente extraordinários diante de seus olhos.

 

Inácio, sinceramente, me desculpe, mas se você fosse o santo das penitências e dos jejuns talvez, com um esforço ou outro, até fosse mais fácil imitá-lo. Mas, você se deixou escrever por Deus como um papel em branco, doando toda sua liberdade para Ele. Ah, e isso é tão difícil de imitar...

 

“Tomai Senhor e recebei

Toda minha liberdade, a minha memória também,

O meu entendimento e toda a minha vontade.

Tudo o que tenho e possuo

Vós me destes com amor.

Todos os dons que me destes

Com gratidão Vos devolvo.

Disponde deles Senhor

Segundo a Vossa Vontade.

Dá-me somente o Vosso Amor, Vossa graça.

Isto me basta, nada mais quero pedir.”

 

Amem.

"O NOVO ANTICRISTO"

by Bruno Franguelli,sj

 

Alguns amigos e eu estávamos retornando de uma viagem. Enquanto permanecíamos presos em um terrível engarrafamento, nos pusemos atentos ao único entretenimento possível naquele momento: o programa missão impossível da rádio Jovem Pan. Programa este que aguça nossa curiosidade em saber qual a solução dada pelos locutores da Rádio diante das dificuldades dos ouvintes em seus relacionamentos amorosos. Escutávamos naquele momento a situação de um jovem que pedia perdão à sua namorada por suas inoportunas postagens no facebook. Diante dessa trama, um dos locutores ironicamente se posicionou dizendo: facebook é o novo anticristo!

 

Naquele momento, todos os que estávamos dentro do carro caímos na gargalhada. O riso costuma revelar nossa comunhão com o que é dito. A criatividade irônica e aparentemente superficial daquele locutor me fez refletir.

 

Facebook é a “praça” da pós modernidade. É lá que nos encontramos para colocar o papo em dia e conhecer novas pessoas. É o lugar onde nossos desejos dançam e nossos afetos se sentem livres para tocar outros. O facebook veio ao encontro de um dos nossos mais profundos desejos: ter muitos amigos! Por que ter poucos amigos se podemos colecionar milhares? Por que precisar gastar tempo ao lado de alguém que está ao nosso lado se podemos escolher outros mais atraentes? O face nos coloca diante de outros mundos. Lá nos esquecemos da nossa vidinha cotidiana, das pessoinhas de sempre, e podemos com apenas um click aportar em cais espetaculares.

 

 Verdade? Essa palavra é pouco conhecida no facebook. Não necessitamos dela. Lá, se não queremos falar com alguém, simplesmente podemos dizer que estamos ocupados. E mesmo não sentindo afeto por uma pessoa, fazemos questão de desejá-la uma boa noite com um abraço carinhoso. O importante é não perder nenhum número no nosso mosaico. Se o perdermos podemos diminuir na credibilidade com o nosso público. Ops, eu disse público? Nossa, me escapou essa palavra! Acho que ela quis escapar de propósito. Não será o facebook também um palco e os tais “amigos” verdadeiros espectadores do nosso espetáculo? É picadeiro onde podemos nos apresentar com platéia “cheia”. Todas as atenções estão voltadas para nós, para nossas fotos, para nossas postagens... Mas, e quando não recebemos comentário algum naquela foto tão selecionada e ninguém ao menos curte o que postamos? Quanta frustração virtual! Choramos lágrimas cibernéticas.

 

Se olharmos com atenção para nós mesmos e para os milhares de “amigos” que temos no facebook, podemos nos espantar com a realidade. Por trás de tantas postagens e fotos narcisistas é possível escutar uma voz ensurdecedora exclamando: “Me vejam aqui por favor! Eu preciso ser amado!” Se queremos ouvir esse grito ainda com maior evidência, basta acompanhar as postagens da “hora da solidão”. Aquela que antecede nosso sono, na qual buscamos alguém para compartilhar a dor de estarmos sozinhos. Nesse espaço de tempo, onde estão os milhares de amigos? Esse é o momento cruel no qual almejamos visceralmente que o sono nos pegue pelas mãos e carregue nossos corpos pesados em direção à um lugar onde podemos repousar a dor e o medo de sermos sós.

 

Se é dessa maneira que utilizamos essa ferramenta para construir nossas relações humanas, realmente o locutor da Jovem Pan tem razão. 

I'm not a stranger here

by Bruno Franguelli,sj

 

 

It was a quiet afternoon. The leaves clothed the naked soil. A nostalgic mood pervaded my insides. I envisioned the different shades of the evening, I felt the most distinct aromas, I heardthe noise of the birds to retreat, so united, as friends. I understood instantly drop the why those words of God in the first pages of the Bible: "He saw that it was very good!"

 

I have asked myself many times: Why did God create this world? Why did He create us? I remember - my school time when building models of polystyrene for exhibitions in the college. My mother was the great engineer who drew the design of streets, rivers, parks, churches and buildings of the model. It was so hard for me just to cut and color what was drawn by it. Actually, I think that I more hindered than helped her.

 

 With my small hands and lack of motor coordination was very difficult to get the outlines of the cutouts. Much materials was lost with my attempt to create. But my mother was a true artist and knew that I would reuse the pieces left behind. At the end, when everything was ready my joy was complete. Our eyes were full with such beauty that was created by our own hands. My satisfaction was driving down the streets of that model with miniature cars. I was the onde who controlled the entire life of the city of Styrofoam. It was so nice to play being God  briefly. The imagination took me and playing with all that creation was my greatest pleasure.

 

I can not believe that God has created all this simply to act as I acted on the model. I've heard words that evoke the opposite of what I think. I heard words, including religious, transferring to another world all the joy of living this life. I've heard arguments that claim delete this world to be very bad and even the joys we can experience here can deprive us of one what is totally perfect. I confess to be bothered with these frightening words. I am immersed in a vast machine of torture of thinking. If I believe in these words I end up angry at God. Was this god tyrant enjoying our suffering or would that be a creator good god, but weak so that the devil can take us from his hands so easily? Forgive me, but I can not believe in this god! Nietzsche would not have buried this very idea of God?

 

I believe in a God, who was revealed by Jesus of Nazareth. In the words of the Nazarene, God clothes the lilies, feeds the birds of heaven, our pain cries and laughs because of our joy. It is a God who can dance very well! The God of Jesus Christ does not love suffering, but faces it with love and for love only. He loves the world and that's why we sent his Son to save this world. Jesus announced that this world is not a hostel, but an anticipation of that Reality wich has already begun. It was he himself who said the Kingdom of God is among us!

 

I propose a different method of prayer: praying with eyes open. It is not a new method, much less my own invention. This way of praying was created by God in the very first pages of the Bible when God looked at His creation and instead of closing his eyes, opened with more contemplative attitude: He SAW that everything was very good!

 

These thoughts wich came to me one afternoon in late fall asked to be shared. The smells and aromas, the colors of flowers, fruit flavors, the sounds of birds, loves that I give and I receive make me feel that this world is my home. Thoughts that make me smile at the joy of knowing that God does not put me in a hostel, but He built a home to I live. If the sky is actually in another place, I believe this world his garden entrance. One thing I can feel I am not a stranger here!

 

NÃO SOU ESTRANGEIRO AQUI!

by Bruno Franguelli,sj

 

Era uma tarde tranquila, final de outono. As folhas vestiam a nudez do solo. Um clima nostálgico invadia meu interior. Eu vislumbrava os diferentes tons do entardecer, sentia os mais distintos aromas, escutava a algazarra dos pássaros se recolhendo, tão unidos, tão amigos. Entendi num instante o porquê daquelas palavras de Deus nas primeiras páginas da Bíblia: “Ele viu que tudo era muito bom!”

 

Já me perguntei muitas vezes: Por que Deus criou este mundo? Por que Ele nos criou? Lembro os tempos escolares quando construía maquetes de isopor para exposições no colégio. Minha mãe, excelente professora, era a grande engenheira que traçava o planejamento das ruas, rios, praças, igrejas e prédios da maquete. A mim, me cabia somente recortar e colorir o que era traçado por ela. Na verdade, acho que eu mais atrapalhava do que ajudava. Com minhas mãos pequenas e a falta de coordenação motora era muito difícil acertar os contornos dos recortes. Muito isopor era perdido com a minha tentativa de criar. Mas, minha mãe era uma verdadeira artista e sabia reaproveitar os cacos que eu deixava para trás. Ao final, quando tudo ficava pronto, a alegria era completa. Nossos olhos eram envolvidos com tanta beleza criada pelas nossas próprias mãos. Minha satisfação era percorrer as ruas daquela maquete com os carrinhos em miniatura. Eu era quem controlava a vida total daquela cidade de isopor. Era tão bom me disfarçar de deus por alguns instantes... A imaginação me tomava e brincar com toda aquela criação era o meu maior prazer.

 

Não posso acreditar que Deus tenha criado tudo isso simplesmente para agir semelhante a mim diante daquela maquete. Já ouvi palavras que evocam o contrário do que penso. Ouvi palavras, religiosas inclusive, que transferem para um outro mundo toda a alegria de viver desta vida. Escutei argumentos que afirmam ser este mundo muito mal e até que as alegrias que podemos experimentar aqui podem nos privar de um outro que é totalmente perfeito. Confesso ficar incomodado com essas apavorantes palavras. Sinto‐me imerso em uma imensa máquina de tortura do pensar. Se acredito nessas palavras acabo ficando indignado com Deus. Penso que se existe um outro mundo tão perfeito e se este tão imperfeito pode nos privar do outro, por que Ele desejou criar este? Estaria esse deus tirano se divertindo com o nosso sofrimento ou seria esse criador um deus bonzinho, mas fraco que torce para que o diabo não nos arranque de suas mãos? Me perdoem, mas não posso acreditar nesse deus! Não teria Nietzsche sepultado justamente essa ideia de deus? 

 

Eu acredito em outro Deus, naquele revelado por Jesus de Nazaré. Nas palavras do nazareno Deus veste os lírios do campo, alimenta as aves do céu, chora com as nossas dores e ri diante de nossa alegria. É um Deus que sabe dançar muito bem! O Deus de Jesus Cristo não ama o sofrimento, mas enfrenta‐o por amor e só por amor. Ele ama o mundo e só por isso nos enviou o seu Filho. Se encarnou em Jesus de Nazaré para que o objeto do seu amor fosse salvo. Jesus anunciou que este mundo não é uma maquete, mas já uma antecipação daquela Realidade que já começou. Foi Ele mesmo quem disse: "o Reino de Deus já está entre vós!"

 

Proponho um método diferente de oração: orar com olhos abertos. Não é nenhum método novo, muito menos invenção minha. Essa maneira de orar fora criada por Deus já nas primeiras páginas da Bíblia, no momento em que Deus olhou para sua criação e, ao invés de fechar os olhos diante dela, Ele os abriu ainda mais com atitude contemplativa: "e VIU que tudo era muito bom!"

 

Esses pensamentos, que me vieram num entardecer de final de outono, pediram para ser partilhados. Os cheiros e os aromas, as cores das flores, os sabores das frutas, os sons dos pássaros, os amores que dou e recebo me fazem sentir que este mundo é a minha casa. Pensamentos que me fazem sorrir diante da alegria de saber que Deus não me colocou em uma hospedaria, mas construiu um lar para eu morar. Se o céu está de fato em um outro lugar, considero este mundo seu jardim de entrada.

 

Uma coisa eu posso sentir... não sou estrangeiro aqui!

 

 

De propósito...

Sou proposital por nascença. Já propus tantas luzes e sombras. Propositei tantos sonhos que esqueci de escrever e hoje se perderam no oceano dos meus esquecimentos. Este blog nasce para ser proposta escrita. Assim, aqueles que tiverem a gentileza e a paciência de passear por aqui e desfrutar dos meus rabiscos se tornarão cúmplices dos meus propósitos. Sou jesuíta. Mas, nada disso me impede de ser errante, transgressor, experienciador de fracassos. Meu Deus quis ser Humano. E isso me escandaliza muito ainda. Esperiências humanas são frágeis, e a beleza, que direi dela? É tão efêmera... de propósito...

 

 

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